Anaide Santana Carvalho
Política 14/Jan/2024 às 15:57 COMENTÁRIOS
Política

A PRIMEIRA GRAPHIC NOVEL

Anaide Santana Carvalho Anaide Santana Carvalho
Publicado em 14 Jan, 2024 às 15h57

Eduardo Bonzatto*, Pragmatismo Político

Há muita controvérsia sobre o termo Graphic novel e sobre quem fez a primeira.
Conta a lenda que quando Will Eisner entregou a seu editor as provas de Um Contrato Com Deus, sugeriu que era uma Graphic novel, um romance gráfico. E a partir daí o termo se popularizou.

Mas na introdução à primeira edição da obra, Eisner reconhece que a inspiração veio de Lynd Ward (1905-1985).
Filho de um pastor metodista e líder esquerdista, estudou xilogravura na Alemanha com Hans Alexander Mueller, e criou, já em 1929, seu primeiro romance gráfico, God’s Man, composto por 139 xilogravuras sem uma única palavra e que conta a história de um artista que vende sua alma para obter reconhecimento.

A partir daí publicou mais cinco romances gráficos, todos no mesmo formato, Madman’s Drum (1930), Wild Pilgrimage (1932), Prelude to a Million Years (1936) e Vertigo (1937). Ilustrou uma centena de livros e se aposentou em 1974.
Tendo como influência direta o belga Frans Masereel (1889-1972), cujas obras The Sun, the Idea & Story Without Words: Three Graphic Novels ricas em simbolismo, essas histórias em quadrinhos apresentam mais de 200 belas ilustrações em xilogravura. As narrativas apaixonadas e dinâmicas incluem The Sun, uma exploração sombria da luta de um homem com o destino; A Ideia, uma representação do triunfo de um conceito artístico sobre as tentativas de sua supressão; e Story Without Words, um conto de romance frustrado.
Frans Masereel, ilustrou as obras de Tolstoi, Zola e Oscar Wilde, mas causou maior impacto com seus romances sem palavras. Estas três histórias, datadas do início da década de 1920, refletem o renascimento expressionista alemão da arte da xilogravura. Precursores das histórias em quadrinhos de hoje, eles também representam uma tradição secular de livros ilustrados para públicos não escolarizados. Masereel combina alegoria e sátira em suas explorações do amor, da alienação e da criação artística. Thomas Mann elogiou estas impressionantes imagens expressionistas como tão atraentes, tão profundamente sentidas, tão ricas em ideias, que nunca nos cansamos de olhar para elas.
Artistas contemporâneos como Stanley Donwood, Clifford Harper, Eric Drooker, Otto Nuckel conservam a tradição de narrativas gráficas sem palavra feitas com a técnica monocramática de corte de linóleo ou com xilogravura, cujo herdeiro mais famoso entre nós, é Thomas Ott.

O romance em xilogravura sem palavras surge como uma força de recusa que mantinha os romances como estratégias a que os não alfabetizados tivessem acesso. A cultura oral se expressava bem por suas pranchas em xilogravura.
O caso de Masereel é exemplar dessa vertente cultural. Pacifista durante a Primeira Guerra Mundial, simpatizava com as lutas das classes trabalhadoras e esforçou-se para tornar a sua arte acessível às pessoas comuns. Suas xilogravuras evocativas transmitem cenas de trabalho e lazer, riqueza e privação, alegria e solidão. Banidas pelos nazistas, as obras de Masereel foram defendidas nos países comunistas; no entanto, o artista evitou filiações políticas. A sua clareza de visão transcende qualquer uso propagandista das imagens, que permanecem como acusações intemporais de opressão e injustiça.

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Não há formação necessária para o acesso à imagem. Lembrando aqui a chamada Bíblia dos Pobres, ou Bíblia pauperum, bíblias ilustradas que ficavam em púlpitos nas igrejas.
Eram manuscritos iluminados coloridos pintados à mão em pergaminho e que já no século XV passaram a ser impressos em xilogravuras.
A prensa mecânica de Gutemberg inaugurou um novo império na terra, o império cognitivo baseado no domínio da escrita. No bojo da colonização, essa foi a arma principal, erradicando inúmeras formas transmissivas para uma centralização exclusiva da escrita.
Recentemente no Brasil, a polêmica instaurada por Mauricio de Souza se candidatar a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, considerando que sua criação, A Turma da Mônica, auxiliou muita gente a aprender a ler e a escrever pode revelar o grau de importância na batalha das linguagens.
A hierarquia em que se colocou a escrita, seu ar de superioridade é muito mais um desejo que uma realização na modernidade.
No Brasil atual, passados duzentos anos de alfabetização, apenas 30% de todas as pessoas, incluindo as que passaram por escolas ou não, são alfabetizadas e dominam em algum grau a habilidade de leitura e escrita. Ou seja, o analfabetismo funcional ou total é o modo social prevalecente em nossa história educacional.
Mas a imagem é de outra natureza. É aberta e livre dos constrangimentos da aprendizagem. Daí que precisamos rever o conceito de Graphic novel. Os romances gráficos sem palavra alguma é que merecem essa alcunha.
Pela imagem, o leitor escolhe os sentidos que lhe são próprios e confere à história seu peculiar sentido narrativo. Não há imposição alguma sobre ele, nenhuma ideologia que resista a seu olhar singular.
A Graphic novel sem palavras rompe as fronteiras linguísticas limitadoras do estado nação e integra o mundo inteiro pelas imagens, sugerindo que o leitor seja também um coautor da história, quando lhe confere sentido próprio.
Lemos romances gráficos de modos diferenciados de tempos em tempos. Pois a mesma sequência de imagens conta para o leitor uma história presentificada, que se altera com outro presente, o leitor e suas idiossincrasia.
É um romance sináptico, um sinapismo sinóptico, uma espécie peculiar de cataplasma que a cada nova aderência, cura ou perturba de outro jeito, um tótem iconográfico feito para viver em outros mundos, pois as mensagens que carrega são metamórficas e translúcidas, sendo transpassadas por vários tempos e lugares.
Se a modernidade provocou uma ruptura no caos da vida inserindo um universo colonial sedimentado pelo império cognitivo, a imagem, expurgada da palavra desse império, percorreu a história da vida sem distúrbios, sem concorrência, sem que alguém pudesse de alguma forma encarcera-la no armário constrangedor da racionalidade.

*Eduardo Bonzatto é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) escritor e compositor

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