Eduardo Bonzatto
Colunista
Política 21/Jun/2022 às 23:13 COMENTÁRIOS
Política

A RACIONALIDADE IMPERIAL MOORELIANA

Eduardo Bonzatto Eduardo Bonzatto
Publicado em 21 Jun, 2022 às 23h13

Eduardo Bonzatto*, Pragmatismo Político

Alan Moore e Sérgio Aragonês, da linearidade dicotômica ao caos da irreverência

Vetores são nocivos à vida, pois tendem a orientar o presente. Alan Moore é um criador de vetores. Pouco importa se seu anarquismo torce o nariz para os sistemas. É preciso mais do que resistência para propor saídas fáceis.
Sua luta intestina e interminável contra o thacherismo na figura das grandes editoras de quadrinhos é parte da jornada do herói.
Nascido na zona operária de Northampton, assumiu uma topofilia radical como forma de afirmação.
Herdeiro da rebeldia dos anos 1960 e 70, inadvertidamente alçou voos de brilhantismo intelectual autodidata. E levou sua mensagem para o mundo inteiro ancorado numa figura bíblica de mago.
“Ela o toca, ela o arranca, e logo o come. A terra estremeceu com tal ferida; Desde os cimentos seus a natureza, Pela extensão das maravilhas suas, Aflita suspirou, sinais mostrando Da ampla desgraça e perdição de tudo”. O paraíso perdido de Milton consagra todos que desejam liberdade e justiça com os armamentos coloniais.
Não é a toa que vive a ambiguidade dos que se confundiram no meio da luta.
Em entrevista dada sobre a realização de sua obra mais literária, Um pequeno assassinato (1992), afirma:
“Devido à minha antipatia anarquista a qualquer tipo de governo, suspeito que o governo em si é uma criatura tão estranha que não pode ser comparada a um ser humano. Diria que o Estado, como entidade, seja talvez irredimível. Acho difícil imaginar um bom líder político, exceto talvez na Holanda, que parece ser um país estranhamente benevolente. Não há muitos países como esse”. “Não sei…talvez em cinquenta anos, talvez antes, talvez depois, nossas nações possam ser capazes de compreender suas falhas, reconhecê-las e então seremos capazes de avançar rumo a algo melhor”.
Uma frase reveladora de sua rebeldia insurgente às instituições sejam Estados ou grandes conglomerados econômicos de cultura pop. Sua briga épica contra DC e Marvel está por aí indicando sua verdade ao recusar os lucros de suas criações usadas indevidamente, segundo ele e contra sua vontade de autor. Mas o uso indevido, que corrompe sua criação, é possível justamente por apelar do que nelas há de dualidade e linearidade.
Assim como sua vasta e consistente crítica dos super-heróis provocaria um rejuvenescimento desse tipo de produto cultural, seu confronto com as instituições é um exemplo para milhões de rebeldes que assistem admirados sua coragem aumentando na mesma proporção que sua fama e fortuna. Mas ele ainda habita a mesma casa que habitava antes da fama e fortuna, no mesmo bairro operário de outrora.
Essa simbologia mítica não escapa à sua inteligência nada fortuita. É parte de um personagem que, no entanto, não apazigua sua vida. Afinal, sua mensagem caminha pelo mundo inteiro, símbolo de um império que o acolhe e nutre.
Ser um ícone é difícil. É preciso entender a importância de denúncias distópicas na emergência do herói.
Distopias são isonômicas com as utopias e constituem num jeito de ver o futuro e de se alimentar dele.
O sentido aqui de fortuna é de fortuna crítica. A fortuna crítica, mais do que oposição é uma ecologia. Seu sentido é incapaz de fluir fora da linearidade dicotômica dos argumentos. Da mesma forma que apontar as limitações dos heróis de papel não implica em sua contenção, mas ao contrário expande sua influência, as condenações políticas de um mundo colonizador não implicam na contenção da colonização.
Aparentemente, poucos podem tecer críticas aos sistemas impunemente. Em alguns casos, a repressão, o cancelamento, a injúria. Em outros, a fortuna, que é um modo irônico de punição também.
Alan Moore se tornou uma colônia e o termo desse título aqui indica seu universo pessoal transitório. Ele deve detestar tal alcunha e tal designação. Pois isso significa que agora é uma entidade admirável de um mundo que deveria ser novo, mas não é.
Pouco importa se o monumento que erigiram para ele é vertical como as pirâmides altivas. Ainda será uma pirâmide para um mundo de admiradores. E admiram sua inteligência, sua racionalidade, sua perspicácia intelectual. Dizem que ele elevou as HQs a outro patamar. E justamente nesse nicho de cultura que era ainda há pouco digno de riso sobre sua infantilidade. Coisa de criança, diziam alguns antes dele surgir como o libertador adulto do cárcere do preconceito.

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Alavancou a indústria cultural americana e estimulou no mundo todo o crescimento das vendas de histórias em quadrinhos para quem podia pagar.
Difícil não entender que sua ação e criação possuem essa força colonizadora. Ainda mais se reconhecermos que todas as histórias, em livros, em quadrinhos e quaisquer outras mídias são não mais que ideologia.
E a ideologia carrega uma força naturalizadora irresistível. Cada um que conta uma história carrega um ponto na vasta linhagem para naturalizar a desigualdade.
Nesse sentido, não existe história neutra e todas são pedagógicas, digam a reafirmação da dominação ou condenando os sistemas opressores.
Ter sido jovem na experiência de governança neoliberal inaugurada por Thatcher e Reagan é uma condenação a que Moore não escapou. Lutará para sempre contra os moinhos de vento com as armas da racionalidade, justamente as armas escolhidas pelos moinhos para prolongar indefinidamente a colonização.
Diferentemente fez Sergio Aragonês. Sua trilogia de ataque às chamadas Majors (Marvel e DC) americanas é exemplo de irreverência capaz de estabelecer uma crítica sem o empoderamento colonizador.
“Sergio Aragonês destrói a DC”, “Sergio Aragonês massacra a Marvel” e “Sergio Aragonês esmaga Star Wars” (esta pela Dark Horse) fez o que a sisudez de Alan Moore jamais ousaria.
A crítica é um atributo da irreverência quando é despretensiosa e alcança todos que quiserem se alimentar dela, não só os cultos e ladinos. As histórias ganharam o prêmio Eisner em 1992 e foram patrocinadas pelas próprias editoras criticadas. Não pode haver maior inteligência do que essa que, bem diferente da que clama por superioridade, raspa a página com unhas de bicho.

Sergio Aragonês é um estrangeiro nos Estados Unidos que sequer fala direito o idioma local. Embora seja espanhol, tem as características do matizado chicano que em terras do tio Sam sempre será fruto de preconceito e xenofobia.
Em 1980, cria o personagem Groo, assim chamado porque seu criador queria um nome sem significado em nenhum idioma, com seu fiel parceiro e roteirista Mark Evanier. É um dos desenhistas mais rápidos do mundo e sua ligeireza denota não só falta de inibição, mas nenhum compromisso com a perfeição.
É desse lugar invisível que a crítica pode funcionar, pois qualquer outro faz do crítico uma personalidade e aí, pouco importa se ela assume a forma de um deus serpente ou de um mago, pois se levar a sério é o componente superlativo do ego e, portanto, da colonização.
Nas três histórias aqui lembradas, Sergio Aragonês está inteiro nelas, não como um personagem, mas como um imbecil, um desastrado e, portanto, um autêntico anarquista.

*Eduardo Bonzatto é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) escritor e compositor

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