Redação Pragmatismo
Saúde 25/Mar/2021 às 12:08 COMENTÁRIOS
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Paciente de 34 anos escreveu carta para as filhas e esposa antes de intubação

Publicado em 25 Mar, 2021 às 12h08

"Escrevemos a carta juntos, e a todo momento ele desesperado pedia para não deixá-lo morrer, prometer que ele não ia falecer. Mas ele faleceu três dias depois. Me marcou demais", relata fisioterapeuta que trabalha em UTI

Paciente escreveu carta para as filhas esposa intubação
(Imagem: Reuters)

Bruna Alves, Viva Bem

Aos 23 anos e prestes a terminar a faculdade de fisioterapia, Aline Martins Almeida Inácio estava preocupada em conseguir logo um emprego. No ano passado e recém-formada, a jovem, que mora na Praia Grande (SP), por falta de um, conseguiu dois, um no Hospital Irmã Dulce, na sua cidade e outro no Hospital Casa de Saúde de Santos. Ambos quando a pandemia já havia se instalado.

Hoje, com 24, ela conta que a rotina da escala é puxada: são 12 horas de trabalho em um hospital e 24 horas no outro. Normalmente, ela trabalharia um dia e folgaria dois, mas como trabalha em dois lugares, Aline descansa apenas algumas horas entre os plantões. E trabalho não falta. O Irmã Dulce está com ocupação total dos leitos de UTI.

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Leia a seguir o relato e as impressões da jovem que segue na linha de frente do combate ao novo coronavírus.

Paciente escreveu carta para as filhas esposa intubação
Aline Martins Almeida Inácio

Assim que chego no plantão, a primeira impressão que tenho é sobre a rotatividade por óbito que está muito maior do que a de alta, e isso está afetando ainda mais o psicológico.

A gente sai do último plantão com o paciente fora do tubo, faz a ventilação não-invasiva, que é um recurso que usamos para postergar a intubação, e daí ficamos na expectativa de que vai melhorar, mas o prognóstico já vem muito ruim, com uma tomografia muito feia, um quadro clínico ruim, alguns indicadores que não vai evoluir bem e, quando a gente volta, às vezes o paciente já está no tubo ou nem está mais no quarto, porque teve uma piora súbita e evoluiu para óbito.

Antigamente, a nossa média de idade era de 60, 70 anos, recentemente já tivemos caso de paciente com 22 e 23 anos na UTI. Hoje em dia não tem idade, não necessariamente a pessoa não ter comorbidade garante um prognóstico melhor. Não há mais acepção de pessoas.

E, além de a gente estar pegando várias escalas, a gente trabalha com vidas e acaba se apegando. Mas no começo o pessoal estava mais assustado e respeitava mais, e a gente teve uma primeira onda digamos que ‘mais suave’. Já agora os pacientes estão chegando mais graves e está tudo lotado.

Essa semana aconteceu um caso: um paciente de 34 anos, obeso e hipertenso, foi internado. Ele chegou com um certo desconforto respiratório e nós, da fisioterapia, aplicamos uma técnica de ventilação não-invasiva.

Peguei o plantão com esse paciente de manhã, e ainda dei umas bronquinhas porque ele não queria fazer por ser uma técnica um pouco desconfortável, mas fui orientando porque precisava. Ao final do plantão, a médica entrou no quarto e disse que ele precisaria ser intubado, porque o desconforto já estava moderado.

Ele se desesperou e pediu para escrever uma carta para as filhas pequenas, de nove e três anos, e para a esposa.

Ele escreveu antes da intubação, peguei uma folha de sulfite, e ele foi escrevendo comigo e com o médico. E pedia o tempo todo para a gente não deixá-lo morrer, prometer que ele não ia falecer… Esse paciente faleceu depois de três dias por piora do quadro.

Ele me marcou demais, mas a gente vê isso constantemente, e essa é a parte mais triste, porque nós temos muito contato com paciente.

O que está pegando para nós também é que o paciente já chega na UTI com muito medo, nervoso, chorando, abalado, porque o pessoal tem uma ideia errada de que vai para o tubo e não volta, que vai morrer lá. E a primeira coisa que a gente tem que abordar é o psicológico desse paciente antes de qualquer coisa.

Durante o tempo na UTI, o paciente não tem contato familiar. Tem paciente que chega a ficar 50 ou 60 dias na UTI, então a gente se apega, conversa, mas a angústia do paciente e dos acompanhantes acaba com a gente, isso pesa bastante.

Iniciei a minha vida profissional durante uma pandemia, e nem sei como vai ser a rotina de hospital sem essa correria toda.

Chego em casa e continuo conversando com os colegas sobre o que aconteceu no plantão, discutindo os casos, com toda aquela adrenalina, aquela energia. Demora para eu chegar em casa e deixar o hospital para trás —não é automático.

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