Redação Pragmatismo
Justiça 23/Jun/2019 às 08:00 COMENTÁRIOS

Folha-Intercept: Sergio Moro mandou Dallagnol conversar com o MBL

Sergio Moro mandou Dallagnol conversar com o MBL após chamar membros do grupo de "tontos". Novo vazamento ainda revela articulação da Lava Jato para proteger Moro e evitar tensões com o STF

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Sérgio Fernando Moro (Imagem: Marcos Corrêa | PR)

Flávia Marreiro, ElPaís

A crise provocada pelo vazamento de mensagens entre o então juiz Sergio Moro e os procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato parece longe do fim. Neste domingo, a Folha de S. Paulo publicou, em parceria com o The Intercept, mais uma reportagem com base em diálogo travado entre Moro e o procurador Deltan Dallagnol, parte do acervo que o site recebeu de uma fonte anônima.

Como nas reportagens anteriores, o agora ministro do Governo Bolsonaro aparece repreendendo e aconselhando Dallagnol a respeito de passos da investigação, e antecipa decisões que tomará, em uma conduta que se choca com a previsão de juiz distanciado das partes no direito brasileiro.

Os diálogos, segundo as publicações, acontecem durante um capítulo emblemático da Lava Jato, dias depois do movimento mais controverso e de mais impacto de Moro até então: a divulgação de interceptações telefônicas entre Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff que incendiaram as ruas do país e acelerariam a marcha do impeachment.

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Moro e os procuradores têm atacado a publicação dos diálogos, que se deram via aplicativo Telegram, e têm dito que não podem garantir que as mensagens, que segundo eles foram obtidas por hackers, não foram adulteradas. Seja como for, a associação entre The Intercept e Folha, que o jornal anuncia que seguirá nos próximos dias, dá mais voltagem política ao material e debilita a estratégia do ministro de atacar a divulgação e a própria reputação do site progressista.

O The Intercept diz que procurou parceiros para análise dado o volume do material e rechaça ainda todas as acusações de que suas reportagens buscam proteger o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Já a Folha, o maior jornal brasileiro, afirma não ter encontrado indícios de que o acervo fornecido pelo site tenha sido adulterado e já havia advertido na semana passada que publicaria o material, mesmo que se provasse que o pacote de mensagens é fruto da invasão dos celulares —há uma investigação da Polícia Federal a respeito. O jornal considera que a divulgação é de interesse público.

Na reportagem deste domingo, as publicações exploram mensagens trocadas entre Moro e Dallagnol a partir de 23 de março de 2016. O então juiz parece preocupado com a repercussão negativa com a divulgação da gravação de Lula e Dilma e todo um pacote de interceptações envolvendo a família do ex-presidente, algumas sem qualquer ligação com as investigações.

Havia críticas pelo açodamento de Moro em divulgar os áudios minutos depois de recebê-lo, especialmente por causa do trecho envolvendo Dilma, que como presidenta tinha foro privilegiado, ou seja, fora da alçada de Moro. Outra crítica era o fato de que a captação se dera fora do período legal autorizado. Moro havia sido advertido pelo ministro Teori Zavascki, então relator da Lava Jato do Supremo, e também temia punições no âmbito do Conselho Nacional de Justiça, o que não aconteceu.

Foi neste contexto que o ex-juiz avaliou que a Lava Jato cometera “uma lambança“. A Polícia Federal havia permitido a divulgação de uma lista apreendida em escritórios da Odebrecht que supostamente implicava parlamentares e outros políticos com foro privilegiado em doações ilegais, o que levava o caso para o Supremo Tribunal Federal. “Não pode cometer esse tipo de erro agora“, disse Moro a Dallagnol.

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O procurador da Lava Jato busca animar Moro e promete apoio: “Faremos tudo o que for necessário para defender você de injustas acusações“, escreveu. Em outro momento, Moro critica os “tontos” do MBL (Movimento Brasil Livre), um dos principais movimentos de defesa da Lava Jato e do impeachment de Dilma, por protestarem no condomínio do ministro Zavaski. “Isso não ajuda evidentemente“.

Todos os holofotes no STF

A guerra política em torno do caso nos próximos dias deve se dar em duas frentes principais: a política e a jurídica. Na primeira, a oposição tentará manter viva a pressão sobre Moro para coletar assinaturas para uma eventual investigação parlamentar sobre o caso, algo que soa pouco provável à luz das revelações até agora. A segunda e mais importante é o Supremo Tribunal Federal. Uma das duas turmas da corte prevê analisar na próxima terça-feira um pedido da defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado por corrupção no âmbito da Lava Jato. Lula reclama que não teve julgamento justo dada a parcialidade que atribui a Moro. A equipe legal do petista já pediu que as revelações do The Intercept sejam incorporadas ao pedido.

Ainda não é certo que haverá julgamento —os ministros do STF, como já fizeram em outras oportunidades, sempre podem lançar mão de instrumentos legais para adiar a análise, apesar do desgaste que o movimento provocaria em parte da opinião pública a essa altura. Na sexta-feira, a procuradora-geral, Raquel Dodge, já se antecipou tentando bloquear a investida da defesa de Lula. Ela destacou que “o material publicado pelo site The Intercept Brasil ainda não havia sido apresentado às autoridades públicas para que sua integridade seja aferida” e disse que ainda está sendo investigado se o vazamento foi criminoso. Em linha com Moro, Dodge diz ainda que não se sabe se as mensagens “foram corrompidas, adulteradas ou se procedem em sua inteireza, dos citados interlocutores“.

Leia matéria na íntegra

Veja o que o The Intercept já revelou até agora:

Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5
Parte 6
Parte 7
Parte 8

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Comentários

  1. Mone Postado em 05/Jul/2019 às 16:20

    Juíz tem obrigação ,dever moral de se submeter obedecer ,proteger a constituição,sendo .a imparcialidade ,fundamental para o exercício das suas funções http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm

  2. Mone Postado em 05/Jul/2019 às 16:20

    Moro , gostou , admirou ,apreciou ,se identificou e colocou em prática , o dito de Gaspar Barléu, século 17,dizia "Não Existe Pecado ao Sul do Equador"pois "corria na Europa, , a crença de que aquém da linha do Equador não existe nenhum pecado,como se a linha que divide o mundo em dois hemisférios também separasse a virtude do vício'". Uso diametralmente oposto de tal expressão, faz Sérgio Buarque pai e filho Chico Buarque -historiador e poeta- .Sérgio Buarque,anlisa a máxima tem conotação fortemente negativa. Ela reflete a realidade amarga do ambiente de desregramento, permissividade e egoísmo anárquico -os "desmandos da luxúrias e da cobiça" Na arte ,como fez o Chico Buarque, tudo pode , já na realidade factual como colocou de forma assertiva e contundente , Sergio Buarque ,há limites leis que devem ser imtransponíveis , sob pena do dessregramento se tornar ostensivamente sobreposto a lei.Moro, de guardiã da lei ,rápidamente passou a ignorá-la ,preferindo o filho em detrimento do pai ,a arte em preuízo da LEI

  3. Mone Postado em 05/Jul/2019 às 16:20

    Moro ,não só gostou , como tb aprovou ,se identificou e colocou em pratica , USANDO a ARTE de acordo com sua conveniencia DESEJO ,capricho , dissimulação , opinião ,podendo mudar sua 'justificação' de acordo com clima , com sua ótica ,com o seu querer , ignorando e desobedecendo o que diz a leii magna ,que é a Constituição cidadã de 1988. Escolher democráticamente ,é o desafio do humano , pois implica em ser livre , liberdade e desejo são inevitávelmente mediatizados pela realidade dos fatos, pois o SER é dialético, ,Como falou Hamlet : "Ser ou não ser, eis a questão" o personagem do drama de Shakespeare continua: "Será mais nobre ao nosso espírito sofrer pedras e flechas com que a realidade enfurecida, nos alveja, ou insurgir-nos contra um mar de provocações e em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir". A vida é cheia de tormentos e sofrimentos, e a dúvida de Hamlet é e será ,melhor aceitar à existência, com a sua dor inerente ,ou acabar com a vida."Ser ou não ser" termina por extrapolar o seu contexto e se tornou , questionamento existencial amplo. Para além da vida ou da morte, a frase se tornou uma pergunta sobre a própria existência. "Ser ou não ser", é sobre o agir, tomar a ação e se posicionar, ou não, diante dos fatos , da realidade e dos acontecimentos ,e como HAMLET, é do campo da ARTE , não pode se perder ,se confundir com FATOS , REALIDADES,LEIS,Moro escolheu a ARTE. e ser aliado de Mefístofelis, invertendo principios lei fatos

  4. Marcos Silva Postado em 05/Jul/2019 às 16:20

    O que tá claro pra mim é que Moro, Dalagnol, alguns delegados da PF e o MBL, todos atendem a um mesmo patrão e por isso procuravam se coordenar pra atingir o objetivo que seu patrão havia determinado.