Luis Gustavo Reis
Colunista
Educação 08/Mai/2019 às 15:00 COMENTÁRIOS
Educação

Educação e poder

Luis Gustavo Reis Luis Gustavo Reis
Publicado em 08 Mai, 2019 às 15h00
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Jorge Paulo Lemann (Imagem: Fundação Lemann)

Eduardo Bonzatto* e Luis Gustavo Reis*, Pragmatismo Político

A ideologia é uma cortina de fumaça que oculta projetos de dominação muito consistentes. Em sua versão esquerda/direita, a ideologia movimenta gigantescas colunas de energia entre seus seguidores dicotômicos, sempre dispostos a defender ferozmente suas convicções. Ódio que alimenta os semelhantes e os coloca em oposição ferrenha que por vezes os conduzem ao assassinato. A ideologia prospera no nível da calçada, sobretudo em tempos de polarização exacerbada.

Entretanto, a ideologia serve a propósitos diversos. Diz-se que o poder é a capacidade de agir no mundo, e aqui o poder referido é aquele que executa o destino humano, define parâmetros sobre a vida de milhões de indivíduos. Diferente do empoderamento, essa forma de poder ilusória, tal qual a farda do garçom, que apenas ilusoriamente tem algum poder, exceto o servir.

O poder é sútil em sua operação, precisa ser preparado numa embalagem discreta e seus mandatários carecem de preparo, de cuidado, de cultivo. Pouco importa de onde venham, tão menos importam suas etnias, suas orientações sexuais ou qualquer outra categorização social.

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Entre 1962 e 1971 atuou no Brasil a Associação Universitária Interamericana, mais conhecida como AUI. Com o apoio de empresas estadunidenses aqui instaladas, proporcionou a quase 900 estudantes universitários brasileiros, independentemente de sua posição ideológica, uma experiência ímpar de conhecimento da realidade norte-americana, através de um programa de convívio com famílias, um curso de verão na Universidade de Harvard que propiciou debates sobre a economia, a sociedade e a política latino-americana e mundial, e um ciclo de visitas a Washington e Nova York, informando-os sobre o funcionamento dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário norte-americanos.

O programa também incluía visitas a organismos e instituições internacionais com sede naquele país, entre elas Organizações Unidas (ONU) e Organização dos Estados Americanos (OEA), e aos principais centros de excelência em pesquisa científica e tecnológica.

O programa tinha por objetivo preparar lideranças para conduzir o Brasil nos trinta, quarenta anos seguintes. Em um trecho do programa, tal objetivo é explicitado:

Os estudantes brasileiros constituem um grupo politicamente ativo e volátil. Formam, além disso, a estrutura da liderança local e nacional dos anos vindouros e, assim, procuram formar organizações políticas e sociais para melhor realizarem suas ambições. […] Este projeto foi iniciado por cidadãos americanos e brasileiros residentes no Brasil, e que estão essencialmente interessados na liderança do país […]. [Além disso,] exprime a preocupação de muitos indivíduos em construir uma liderança democrática no Brasil.

Hoje, a grande maioria daqueles quase 900 jovens, formados durante os cerca de 10 anos de vigência do programa, estão em posições de liderança no Brasil, nos setores público, privado e do terceiro setor.

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Há mais de quinze anos, pessoas ligadas à Fundação de Rotarianos de São Paulo vasculharam as melhores universidades brasileiras para um segundo momento da AUI. O objetivo dos observadores era selecionar e preparar uma nova leva de líderes para a primeira metade do século XXI, mas líderes que tinham, a despeito da ideologia, um perfil adequado.

Na versão de 2003, os organizadores declararam:

O programa orienta-se em três focos: (i) na ambientação internacional e no fortalecimento da visão crítica dos universitários brasileiros apoiado em programa estruturado para ocorrer em países de importância estratégica no cenário geopolítico atual; (ii) na difusão do Brasil enquanto pensamento e valores socioculturais através do acolhimento de estudantes universitários de outras nacionalidades nas principais cidades brasileiras; (iii) no intercâmbio sociocultural dos estudantes universitários brasileiros com os de outras nacionalidades em programa de formação específico.

Os estudantes brasileiros serão selecionados através de metodologia própria que permita identificar jovens com perfil de liderança.

Os jovens selecionados frequentarão no Brasil um curso básico que os nivele para melhor aproveitamento do curso na fase estrangeira (Política, Economia, Sociologia).

Parte dos jovens será enviada aos Estados Unidos e parte à Europa onde conhecerão a vida local através do convívio com uma família estrangeira, bem como frequentarão cursos em Harvard ou na Sorbonne, ou em outras Universidades de igual renome a serem definidas na ocasião, sobre a realidade americana e europeia.

Ora, não é nada assustador que os líderes que conduzem hoje o país, em funções basicamente executivas, tenham sido preparados há cinquenta anos nos Estados Unidos, todos eles seguindo os desígnios apreendidos na experiência proporcionada pela AUI.

No Brasil atual, uma nova versão da preparação de lideranças jovens locais entrou em execução, numa variante já naturalizada e valorizada – resultado do esforço ideológico dispendido desde a primeira versão da AUI.

Entre os que estão capitaneando a versão atual, figura Jorge Paulo Lemann, cujo perfil está alinhando aos daqueles que se envolveram com a AUI em tempos passados. Embora na primeira versão do programa Lemann ainda estudasse em Harvard, a ligação do empresário com a educação e seu poder de decisão inclusive sobre o que deve ser ensinado nas escolas brasileiras, é uma pista desse comprometimento.

Em 1991, Lemann criou a Fundação Estudar, uma organização que atua para despertar em jovens brasileiros o estímulo de uma experiência acadêmica no exterior, a formação de uma comunidade de líderes e o apoio à tomada de decisão na carreira. No site da instituição, consta que o objetivo é “contribuir para a formação das futuras lideranças transformadoras do Brasil por meio do estímulo à experiência acadêmica de excelência e do apoio ao desenvolvimento pessoal e profissional dos jovens”.

Em 2002, o bilionário cria a Fundação Lemann, cujo objetivo é interferir na qualidade da educação pública brasileira. É importante destacar que a educação, especificamente o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), movimenta um mercado milionário de compra de livros didáticos e os grandes conglomerados educacionais sabem farejar formas de morder sua parte no butim.

Lemann é um dos homens mais ricos do mundo e o mais rico do Brasil, portanto, é compreensível que se importe com os rumos da política nacional tanto quanto da internacional. É justamente por isso que selecionou um número de jovens para um projeto mais ambicioso: eleger um presidente da república.

Para tanto, está investindo num grupo que se alinha a essa ambição. Nessa empreitada, não há maquiagens e a meritocracia é exposta em toda sua grandiosidade.

Não fica claro o critério da escolha dos jovens, até porque são pessoas oriundas de diferentes grupos sociais e com posições ideológicas variadas. Porém, uma vez selecionados, esses jovens estudantes serão estimulados a cursar as melhores universidades do mundo às expensas do mecenas bilionário. Toda a preparação será acompanhada de perto, com aprimoramento contínuo e uma jornada recheada de desafios. Como estão ligados ao mundo corporativo, a linguagem faz jus a esse universo – o próprio grupo denomina a ocupação de “startup”.

Tomemos o caso emblemático do cientista político e economista Renan Ferreirinha:

Tem um desafio enorme para realizar mudanças de impacto, precisa de criatividade para vencer barreiras históricas e conta com escassos recursos pelo caminho. Há um risco alto de insucesso. A descrição poderia ser tranquilamente a de uma jornada no Vale do Silício, para onde o jovem de 25 anos foi convidado a ir após deixar a Universidade Harvard, nos Estados Unidos. A empreitada, porém, é no quintal de sua casa, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, e tem como pano de fundo um dos ambientes menos inovadores de que é possível se imaginar: a política brasileira. Em campanha para deputado estadual, ele recebe hoje um salário de R$ 5.000 mensais, muito abaixo dos empreendedores de sucesso do polo tecnológico americano e menos de um quinto do que lhe foi oferecido em outra proposta apresentada ao fim da graduação, para ocupar uma vaga num banco de investimento em Nova York.

Ferreirinha tem plena consciência das renúncias. Uma das formas de explicar o desejo pelo caos da política é lembrar um desfile do qual participou aos cinco anos, em que se orgulhou de representar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. “Sonhar grande e sonhar pequeno dá o mesmo trabalho”, afirma o candidato pelo Rio de Janeiro. “Por que não fazer algo maior do que a sociedade impõe e contribuir através de um mandato?” O mantra da ambição costuma ser repetido pelo empresário Jorge Paulo Lemann aos bolsistas da Fundação Estudar, criada por ele para formar lideranças no País.

Há aqui um inequívoco destino manifesto muito bem fundamentado: todos os participantes do programa de Lemann seguem uma trilha de migalhas deixadas por seus antecessores desde a primeira versão da AUI. A diferença é, contudo, bem profunda, conforme destaca o trecho abaixo:

Em comum, os novos políticos – não, eles não se incomodam com o rótulo de políticos – ostentam formação nas melhores universidades do mundo, dividem a decisão de renunciar a carreiras prósperas na iniciativa privada, além dos anseios de mudança na gestão pública e de renovação na política. Nas campanhas, eles empregam métodos corporativos aprendidos no ambiente da rede Estudar. São os mesmos atributos que levaram muitos que lá passaram aos postos mais altos de empresas por todo o globo.

Não é à toa que Ferreirinha, assim como os outros ex-bolsistas, chama sua campanha de startup. Trata-se de um esforço coletivo, composto de 10 pessoas que trabalham em tempo integral, com salários, e outros 20 em tempo parcial. Há integrantes até de fora do País. Um dos principais desafios é levantar recursos e quebrar as barreiras criadas pela política tradicional. Os diferenciais vão desde jingles inspirados em séries do Netflix até o plantio de árvores para compensar o gasto com papel nos panfletos. O grupo estima em 30 mil votos o total necessário para se eleger. A ideia é defender propostas claras, mas sem promessas. Uma delas é a de trabalhar para elevar de 5% para 50% o alcance do ensino técnico no Estado.

Eis aí a abissal diferença. não basta mais apenas o poder econômico, agora o poder político é o grande alvo da empreitada. Se, durante boa parte dos governos populistas gentis, ou sociais (os quatro governos petistas), a migração de verbas do Programa Universidade para Todos (Prouni) para o engrandecimento dos sistemas privados de educação foi parte dos protocolos neoliberais, agora, com a contenção de verbas já entronizadas contra as universidades públicas, consolidam um novo alvo: o que a população mais pobre necessita, conforme aponta a última frase do trecho citado, é de escolas técnicas, que promovem imediata colocação no mundo do trabalho.

Vejam um dos casos, bastante ovacionado por diferentes seguimentos da sociedade, diga-se de passagem, do grupo de Lemann:

“Fiz de tudo que era possível na área de educação fora da política, mas é frustrante”, afirma a cientista política e astrofísica, Tabata Amaral, candidata a deputada federal por São Paulo, pelo PDT. “Chegou a hora de pessoas comuns, que não são ricas entrarem para a política.”

Filha de uma diarista e de um cobrador, Amaral, de 24 anos cresceu no bairro de periferia Vila Missionário, na capital paulista. Passou em seis universidades de ponta dos Estados Unidos. Em Harvard, foi bolsista da Estudar. Chegou a trabalhar na Ambev, mas se evolveu rápido com educação, área em que ganhou notoriedade. Agora, decidiu largar tudo pela tentativa de chegar ao Congresso. Os conceitos aprendidos graças à Estudar são incorporados na campanha. Há metas desdobradas para os integrantes do time, todos da periferia, a aplicação do conceito de Orçamento Base Zero e um apreço pela boa gestão. Para atingir a meta de 110 mil votos, ela conta com uma rede de 1.000 voluntários. “O nosso é um trabalho de formiguinha, enquanto os políticos tradicionais pagam líderes”, afirma a candidata. “Só que nós entramos nas casas, os políticos da velha política, não.”

Essa mentalidade corporativa, propagada pela então candidata, pode ser garimpada em qualquer lugar social, semeada e frutificada em diferentes estratos da sociedade. A ideologia que impulsiona tais ações é o ponto de intersecção entre o projeto de poder e a zona de exclusão normalmente tranquila quanto à meritocracia. Aqui se forja o imperativo neoliberal mais valioso: o desempenho.

O desempenho é o mais importante elemento do neoliberalismo, pois ele define em qual lugar se aloja o poder de adesão ao modelo. No desempenho não há lugar para submissão já que vem de dentro do colaborador todas as energias para a realização. De fora, só é necessário o favor do acolhimento.

O trecho acima citado também monstra uma mudança “natural” no perfil da Fundação Estudar e um alinhamento aos propósitos da AUI. Em seus 27 anos, a referida Fundação formou 673 líderes em áreas jurídicas, administrativas e corporativas, incluindo negócios e finanças. Agora chegou a vez da política. Para efeito de constatação, tanto Renan Ferreirinha como Tabata Amaral foram eleitos no último pleito eleitoral.

Leia também: Programa de Harvard que formou Tabata Amaral está com inscrições abertas

Segundo Anamaíra Spaggiari, diretora-executiva da Fundação Estudar, “há uma valorização dessas pessoas que estão arriscando as carreiras delas e abrindo mão de algo no curto prazo, de algo financeiro, para resolver os problemas do Brasil”. Eles estão convictos, caro leitor, da missão salvífica que lhes fora confiada.

A missão da AUI atravessou o tempo e reluz na Fundação Estudar. Enquanto nos digladiamos em embates carcomidos, o poder continua operando sem sobressaltos, a despeito das ideologias.

As artimanhas do poder operam numa dimensão que poucos de nós se atrevem a denunciar, ou seja, que a distância do discurso da democracia como possibilidade de emancipação para os projetos de dominação é de um passo só, bem pequeno, mas que evoca grandes esforços como os aqui apresentados.

Leia também: Tabata Amaral é criticada por defender “ajuda humanitária” dos EUA

*Eduardo Bonzatto é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), permacultor e escritor; *Luis Gustavo Reis é professor e editor de livros didáticos.

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Comentários

  1. Lobus Postado em 06/Jul/2019 às 00:44

    Reflexão importante, sobretudo em tempos de exacerbação ideológica