Redação Pragmatismo
Contra o Preconceito 05/Apr/2019 às 14:30 COMENTÁRIOS

Julgamento

Julgamento convivência coletividade empatia sororidade

Eduardo Bonzatto*, Pragmatismo Político

Como julgar um homem? De acordo com uma única regra determino o autêntico valor de um homem: em que grau e com que finalidade o homem se libertou de seu Eu?” – Albert Einstein, Como Vejo o Mundo.

“Amar e permanecer indiferente”, Joan Didion, suspender o julgamento como forma de viver melhor sem os assédios morais que as redes nos impõem. Em artigo à Folha de São Paulo (14/03/19), Salvatore Scibona nos convida a uma reflexão importante num tempo em que todos nós somos parte do tribunal ligeiro e genérico da condenação pública de nossos semelhantes.

É a epidemia moral de um tempo imoral, em que cada um de nós assume seu lugar de juízes, jurados e carrascos virtuais, implacáveis no pertencimento do coro geral da condenação irrefletida e rápida para acalmar nossa posição interna e externa na plateia vigilante que nos assiste.

No grande tribunal das redes somos instados a julgar continuamente. Sua interatividade é justamente para que isso ocorra de modo natural.

Se abster de julgar parece fraqueza ou, pior, vergonha de se posicionar e a isso somos cobrados severamente. A vigilância é global e atenciosa nas manifestações pretensamente coletivas das redes virtuais. É preciso indignar-se diante das injustiças e das canalhices do cotidiano. É uma revolta estética apenas. Não produz nada, como nos lembra o autor do artigo da folha. É a publicação de nossa revolta. Mas a vida ordinária que vivemos está coalhada de passividade. E de negligência com o outro, esse mesmo outro que perseguimos os passos com muita apuração. Esse outro que desliza oculto nas sombras.

Esse outro que é teu próximo e que teu julgamento funciona como um dispositivo de engenharia excludente, engenharia perversa, hostil. Ali, na intimidade secreta do teu cérebro. Pois assim funciona o julgamento, o tempo todo, com aqueles que amamos, que nos importamos, que queremos bem. Circulando entre as obrigações das grandes mídias e das redes sociais e da intimidade intimidadora da relação afetiva.

É o tempo dos teras. O que são os teras? Pega qualquer coisa e multiplica ela por dez elevado à décima segunda potência. Aí vai entender a dimensão do problema. Mas também um obscuro herói tebano que adorava colonizar as ilhas furtivas do mediterrâneo.

O problema é que as pessoas estão ligadas nos caminhos duros das tempestades. Aí é pesado se deslocar pelo mundo.

Um detalhe qualquer e o peso da terra aumenta proporcionalmente em dez vezes a décima segunda potência. Um capricho, já sabe. O tera é o julgamento pesando sobre as costas de todos.

As unidades tera contrariam as regras da vida mundana. Invadem o conforto da vizinhança, a sala de jantar das famílias, o gesto delicado de pedir bênção pros mais velhos. E passa tão depressa essa nova condição que só mesmo pelos vídeos das vidências podemos habitar essas memórias. E cada vez que nos desfazemos no gigantismo dessa unidade veloz, morremos pra humanidade um pouco mais rápido.

Um corte que já não sara, a lua que é como uma foto em exposição, um orgasmo minimalista, uma canção assobiada, e em todas as oportunidades, aquele olhar envelhecido que só muito antigamente se encontrava nas trincheiras.

A fenda em que esse olhar se debruça é a da tecnologia dos celulares. Com dispositivos de aviso e convocação, com formação de perfis, com dinâmicas de atrações ininterruptas, o olhar se liga às teias sensíveis dos dados, dos aplicativos, das formações de patrulhas de dióxidos de neutrinos.

É assim que do nível subatômico ao nível do cosmos, o julgamento se manifesta como uma prédica. Mas é também uma prédica científica, da cultura, da lisonja.

Se o julgamento cessa sua energia, podemos nos unir a Tamera e refundar mais um biótopo de cura.

O que é um Biótopo de Cura?

A palavra “biótopo” advém do Grego ‘bio’ (vida) e ‘topos’ (lugar). Designa um habitat onde todas as formas de vida – humana, animal, vegetal, aquática e outras – coexistem na sua diversidade.

As palavras ‘cura’, ‘integridade’ e ‘sagrado’ têm a mesma origem. Curar não significa resolver um problema ou erradicar uma doença, mas sim superar a desunião e restaurar a integridade da vida.

O plano dos biótopos de cura

O plano apresenta uma estratégia para a paz global, alcançada através de uma rede de Biótopos de Cura que fomenta um campo para a convivência pacífica na terra. O plano dá resposta à questão: “Como superar a guerra, a crueldade e o medo no mundo?

Superando o nosso apetite e nossa habilidade em julgar, é a resposta mais apropriada. Pois aquele que não julga anulou o seu ego.

Leia aqui todos os textos de Eduardo Bonzatto

O ego é um parasita criado para separar, para desunir, para desfazer a malha inconsútil da vida. É possível perceber as evidências da emergência de seu recente reinado.

Primeiro criou reinos e separou o reino dos humanos das outras espécies. Depois separou os gêneros, colocando no trono do reino o homem. Em seguida criou o reino da família, interrompendo as linhagens humanas e criando o pai como um senhor. Então separou as famílias em classes para que os ricos fossem os fortes. Separou e hierarquizou os civilizados dos selvagens, os citadinos dos campesinos, os europeus dos outros todos. E as nações que separaram em inimigos os vizinhos. E as raças, alocando o branco no mais elevado reino das cores da pele. Até o surgimento do indivíduo e dentro dele o reinado tirânico do ego.

No ego tem início todas as formas de sofrimento e é nele que concentram as energias densas que manifestam nossos medos e estabelecem nossas limitações.

Vou explicar melhor como o impedimento do julgar anula o ego.

Vivemos num tempo em que somos instruídos a julgar, já que respondemos presencialmente às solicitação das redes sociais que vão moldando nosso perfil e sutilmente nos educando para a tarefa importante de consolidar uma teia de julgamentos, que não oferecem a oportunidade de exercer um poder disponível e bem razoável a que todos se irmanam.

O julgamento opera dentro de si como uma autoridade que se tornou autônoma. Sua permissividade é inclusiva no grande rol de senhores que estão habilitados a essa tarefa. Na intimidade, ela funciona como um combustível que acelera sem sair do lugar. É um gasto de energia necessário para que o sistema todo funcione com perfeição. Nos sentimos dentro da máquina da existência coletiva como uma abelha numa sociedade de abelhas rainhas. Não podemos deixar de participar dessa festividade global dos aceleradores de cera da colmeia que se espalha na rede cautelosamente.

Essa cautela é justificada, pois carece do aceite e do desempenho. Capacitados a julgar, nos sentimos fortalecidos num lugar que manifesta sua existência individual e coletivamente.

Mas é, como disse, uma coletividade de autoridades. E a base da autoria é o julgamento de que dispomos ao congraçamento geral da condenação do que quer que seja.

Essa autoridade, no entanto, não é uma expressão real da vida fora da tela. Só ali ela pode impunemente agir. Fora dela, voltamos ao julgamento sigiloso que habita em nossa mente.

Assim, os julgamentos são como cargas de animação. Vão carregando o ego que se expande sobretudo para reforçar e justificar o julgamento como o acerto coletivo da condenação. Esse ego inflado, contudo, é um saco vazio que se expande com ar. Mas não se iluda, pois cheio assim convence seu receptor de que sua grandeza é real e suficiente para consolidar o próximo julgamento.

Esse julgamento é parte de um conjunto de elementos que já estão previamente disponíveis como programas de acionamento e de acoplamento. Esses pré-julgamentos são parasitas prontos a tornar o julgamento uma festividade individual e coletiva.

Essa inserção no coletivo, diga-se, é que faz com que o julgamento seja eficiente e promotor da justiça. Afinal, todos pensam a mesma coisa, quem poderia estar errado assim?

Com sua verdade revelada, que é a verdade coletiva, o julgamento se torna autorizado a manifestar-se para dentro também. Agora, seu usuário é também o ego que cresce multiplicado.

O ego torna o mundo pequeno a despeito de ele parecer grande. Essa ilusão é sua marca registrada. Em contrapartida, se o julgamento cessa, o ganho do novo observador é gigantesco. Nada mais passa a ser familiar ou conhecido e cada interação nova é também um novo mundo de possibilidades.

Só nos resta seguir o conselho de Ranjit Maharaj: “Vá fundo dentro de si. Vá tão fundo até que essa ilusão chamada ‘você’ desapareça”. Há um jeito de fazer isso: eliminando nossa capacidade de julgar os outros.

Sem o julgamento não precisamos invejar, nem competir, nem mesmo desejar. Passamos a aceitar tudo como dádivas imerecidas e somos gratos por isso. Os outros passam a significar pra nós possibilidades de encontros cuja grandiosidade será sempre mais um presente a que nos inclinamos respeitosamente.

Com isso também compreendemos que amar a esses outros é tão somente respeitar suas evidentes características. É o amar incondicional que tanto parece difícil quando pronunciado assim. Quando se aceita o outro como ele é, todavia, nos sentimos ligados a tudo sem o capricho do medo ou do desejo de que poderia ser de outra maneira.

Nos sentimos ligados a tudo sem distinção especial. O ego vai sendo amesquinhado e limitado em sua dimensão independente e vai sendo reduzido a um dispositivo sem volume ou utilidade. Como um parasita, vai morrendo de falta de oxigênio e desaparece num dia qualquer. Tudo o que resta são conexões então.

Então é preciso se perguntar o seguinte: É possível não julgar um assassino, um torturador, um estuprador, um viciado, um incestuoso, um enganador, um abusador, um usurário, um ser que por um golpe rouba a aposentadoria de muitos velhos aposentados, e assim por diante, em que a diferença que estamos colocando seja a mais gritante?

Impedir que essa diferença se transforme em desigualdade pelo julgamento é uma tarefa muito difícil. Aceitar esse outro da máxima diferença sem julgar é parte do exercício de libertação do ego e, portanto, da liberdade de ser feliz.

Então tu passa a ser inadequado e aqui começa uma vida com sentido, pois tu deixa a comunhão da colmeia e voa sem destino prévio.

Sirvo num presídio em Teixeira de Freitas, extremo sul da Bahia. Ali servimos ao humano e nunca ao poder. Todas as terças, acompanhado dos meus estudantes, vamos até lá encontrar os internos. Desaconselho que saibam dos crimes que levaram esses homens até ali. Então nos conectamos a eles e todas as semanas nos encontramos sem julgamentos.

São estupradores, assassinos, ladrões e traficantes, mas ali, isso não importa. São homens comuns esses que nos encontram. A indiferença a que se refere a frase no início desse texto é em relação ao que foram ou são, mas que ali, no nosso encontro, nos afetamos mutuamente pelo servir juntos. Não há porque julgá-los. Já foram julgados quando entraram ali. Agora podem seguir suas vidas diante das grades da prisão. E nos encontramos então numa zona em que o julgamento fica suspenso. Entre humanos, que se reconhecem enquanto tal, pessoas reais que tangem sentimentos partilhados, tais como o calor do território da prisão, a falta de água boa, de sanitários dignos, de alimentação cuidadosa, quando tudo isso passa a ser compartilhado pelo grupo todo, então sabemos que um almoço coletivo vale por um atestado de amizade. Um filtro de barro vale por partilhar água fresca a que todos temos direito.

Além disso, os dialetos também passam a ser incorporados por todos nós que agora estamos juntos numa jornada que, embora fragmentada, vai se revelando uma totalidade de conexões. Sentimos saudades quando nos afastamos nas férias e quando retornamos, eles também nos dizem que sentiram saudades.

Sentir saudades é um sinal inequívoco de que já não julgamos esses nossos próximos que, entretanto, estão carregados pelo estigma de todos os crimes. Perdemos nosso lugar no altar da justiça retributiva e agora estamos todos no terreiro da prisão. Ali nossa humanidade é leve e prosaica e nem um pouco pretensiosa. Conversamos sobre amenidades da semana, sobre o boi ralado do almoço que ao se repetir indefinidamente já é parte da judiação histórica da penalidade. Mas tudo é falado na diversão e na risada. Não há peso nisso. Friedrich Nietzsche dizia que a “maturidade do adulto é recuperar a seriedade da criança ao brincar“.

Nosso servir ali é mexer com o lixo orgânico que a cozinha descarta. Untamos isso com os restos da fábrica de vassouras e misturamos tudo com brincadeira e diversão. Essa mistura vai formando uma massa que expande com os espíritos egregorianos que nossa união favorece.

Uma cooperação de gente que se reúne em meio ao lixo. O cheiro de podridão do lixo orgânico que lidamos todas as terças vai se aclimatando às nossas narinas da mesma forma que essa energia vai definindo nossos afetos. Todos com enxadas e pás revolvendo a massa compostável. E é uma energia desprovida de proselitismo que vai se tornando grandiosa em que os sentimentos se transformam na necessidade de retorno, de voltar, de encontrar, de cultuar as amizades sinceras num ambiente que era para muitos, há bem pouco tempo, um depósito de desumanidade e de sujeira. Em que o julgamento era rápido e indolor.

A massa orgânica composta tudo ao redor: emoções, lixo, energias, sentimentos, atraindo espiritualidades convergentes ao movimento alegre que se vibra ali. Nesse sentido, é um vórtice de energias que pode ser constatado na qualidade energética da própria massa. Em breve tempo, todos que ali se encontram sentem na vibração energética o bem-estar que cura sem pressa. A isso chamo de formação de egrégoras, essa convergência de energias que engrandece e toca a todos, indiscriminadamente.

Não poucos internos nos confessam que nossa presença ali é motivo para que suportem mais levemente a sua pena.

Ouço essas confissões de modo muito indiferente, mas repleto de amor por essa humanidade que insiste em se alojar nos lugares mais inconvenientes. Indiferente porque não posso nada ali, exceto o que já faço. E amorosamente, pois a conexão que existe com nossa ida é vibrante e real como são as amizades do mundo externo.

Observo os estudantes, os internos, as conversas demoradas sob a amurada gigante de pedra e aço, ouço as vozes que se distraem nesse trânsito de humanos em todas as direções e os detalhes das mãos, dos olhares, dos objetos precários que enfeitam toda a cena e sei que é ali que devo estar, naquele lugar que ninguém mais quer ir porque ali vive a escória da sociedade, os criminosos que impetraram o mal contra seus semelhantes.

Amar e permanecer indiferente” é uma regra de ouro nessas conexões. Não podemos fazer nada a mais do que fazemos e não há razão para sofrer com o sofrimento que ali pode ser sentido como uma presença real e tangível. Amar e permanecer indiferente e ainda assim amar, que é respeitar a caminhada de cada um.

Para amar meu semelhante devo ser indiferente às suas faltas, aos seus crimes, aos seus pecados, só assim posso amar incondicionalmente.

E por mais estranho que possa parecer, ali, naquela prisão, construímos um biótopo de cura e cada estudante, cada interno, cada ser que ali habita supera a desunião e restaura a integridade da vida.

A convivência é um excelente antídoto contra o julgamento.

Ali, na generosidade e abundância do sentimento, todos se libertam daquela prisão interior, a prisão que separa, que divide, que julga, a prisão cartesiana da razão.

*Eduardo Bonzatto é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e permacultor

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