Redação Pragmatismo
Saúde 12/Set/2018 às 14:02 COMENTÁRIOS
Saúde

"Não consegui evitar o suicídio da minha filha de 24 anos"

Publicado em 12 Set, 2018 às 14h02

"Tentei de tudo, mas não consegui evitar o suicídio da minha filha [...] Depois de um ano de buscas, ela se identificou com um terapeuta. Seis meses antes do suicídio, ela contou o que tinha acontecido"

evitar suicídio filha jovem abusada sexualmente

Talyta Vespa, Universa

Ana Luísa era doce, segundo seus familiares. Estava prestes a se formar na faculdade de moda e sonhava em abrir o próprio negócio. Como muitas garotas de 24 anos, tinha planos de se casar – e já tinha um namorado.

Ana Luísa queria viver, mas não conseguia. Ela sentia dor, o coração pulava do peito e os desmaios eram frequentes.

Nas últimas semanas de vida, já não dormia. Evitava os remédios que ajudavam no sono porque, segundo ela, os pesadelos e as lembranças vinham à tona sempre que fechava os olhos.

A mãe, a produtora de eventos Ana Rosa Augusto, de 52 anos, afirma que tentava de tudo. Dormia com a filha, dava carinho, procurou especialistas e fazia questão de não deixá-la sozinha.

Quando eu ia trabalhar, ela ia comigo. Se era dia de evento, a deixava com a avó. No último dia de vida de minha filha, pedi que ajudasse a avó a cuidar do meu sobrinho, de quem Ana Luísa era muito próxima. Ela foi. E não voltou mais”.

Pouco antes de entregar o trabalho de conclusão de curso, Ana Luísa passou a desmaiar, ter crises fortíssimas de ansiedade e palpitação. Como ela era magrinha, nós víamos o coração dela saltar do peito. Tanto eu como o pai achamos que era ansiedade por causa dos trabalhos finais na faculdade, mas, como os sintomas eram físicos, decidimos levá-la a neurologistas e cardiologistas. Fez todos os exames, que não apontaram qualquer tipo de anormalidade. Voltamos a acreditar na ideia da ansiedade e procuramos um psiquiatra, que fez o mesmo diagnóstico.

A gente sabe que para uma terapia funcionar, é preciso sintonia entre o paciente e o terapeuta. Não foi o que aconteceu com a minha filha. Ele receitou alguns ansiolíticos e remédios para dormir, mas as medicações não deram conta da dor que ela sentia. Ela apresentou o TCC, se formou na faculdade, mas os sintomas continuaram. Então, procuramos psicólogos. Entendemos que havia algo acontecendo e que ela não queria nos contar, e, talvez, com a terapia, nossa filha conseguisse se abrir. Depois de um ano de buscas, Ana Luísa se identificou com um terapeuta. Seis meses antes do suicídio, ela contou o que tinha acontecido.

Minha filha foi abusada sexualmente aos dez anos de idade, na escola particular onde estudava, em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Ela revelou isso à psicóloga e pediu para que a especialista contasse a mim e ao pai dela. Foi quando descobri que a minha menina foi estuprada por seis meses por um garoto seis anos mais velho, no banheiro, nas aulas de Educação Física. Por alguns meses, ela relutava e chorava, pedia para não participar das aulas esportivas. Eu não entendia. Mesmo sem saber o que estava acontecendo, consegui um atestado médico que a liberou. As férias chegaram e, no ano seguinte, o menino não estava mais na escola. Ana Luísa voltou à Educação Física sem pestanejar.

A partir de então, só ia à escola com uniforme masculino, roupas largas, que não mostravam o corpo. Um dia, ela me disse que um coleguinha do colégio comentou que meninos não gostam de meninas que usam roupas largas. Por isso, ela passou a usar. Não queria ser notada. Com o tempo, vieram roupas pretas, os cabelos descoloridos, uma tentativa de apagar a imagem daquela garotinha de dez anos. Ana Luísa passou a vida fugindo de si mesma. O gatilho para que a lembrança viesse à tona foi o namoro. Ela conheceu um rapaz, que cuidava e se preocupava muito com ela, e passou a lembrar dos momentos sombrios.

Em filmes, quando havia cenas de abuso, ela chorava e gritava. Se automutilava, cortava braços e pernas. Fazia cortes tão profundos que precisava levar pontos, na maioria das vezes. Fazia isso para aliviar a dor que sentia. Nas duas últimas semanas de vida, minha filha leu notícias sobre um estuprador que havia atacado mulheres em São Paulo e não conseguiu mais dormir. Coloquei ela na minha cama, deitávamos abraçadas, mas não adiantava. Quando dei por mim, ela não estava mais tomando os remédios para dormir. E me disse que, quando pegava no sono, era atormentada por pesadelos. Por isso, preferia esperar a dor passar acordada. Mas não passava.

Ana Luísa tentou se suicidar duas vezes, ingerindo doses maiores das medicações. Eu e o pai dela começamos a esconder todos. A cada dia, precisávamos escolher um esconderijo diferente.

Eu não a deixava sozinha em hipótese alguma. Quando tinha crise, a levava comigo para o trabalho. Conversávamos sobre tudo, inclusive sobre a sua vontade de morrer. Eu tentava de tudo. No dia em que tirou a própria vida, há três anos, eu disse que ela precisava ajudar minha mãe a cuidar do meu sobrinho, que tinha três anos à época. Ele e minha filha eram muito apegados. Levei ela até a casa da avó, esperei que entrasse no condomínio e segui para o evento que estava organizando. Uma hora depois, meu marido me ligou e disse que ela não havia chegado. Eu rebati dizendo que era impossível, eu a havia deixado lá dentro.

Ela não estava. Para a psicóloga, deixou uma mensagem de agradecimento, similar a que deixou para mim, para o pai e para o namorado. Ela dizia que não aguentava mais e ressaltava que a culpa não era nossa, mas que não conseguia viver com as lembranças. Se despedia e dizia que nos amava muito. Quando soube do sumiço dela, já imaginei o que tinha acontecido. Ao analisar as câmeras de segurança do prédio, vi que ela entrou, sentou no sofá do hall de entrada e ficou parada por um tempo. Pegou o celular, mandou as mensagens, e saiu. Foi a última vez que vi minha filha.

Sempre que Ana Luísa e eu falávamos sobre suicídio, ela explicava que não devemos divulgar a forma como as pessoas tiraram a própria vida. “Pode estimular outras pessoas a fazerem o mesmo”, ela dizia. Eu nunca contei o que houve, apesar de a notícia ter se espalhado. Hoje, faço parte de grupos que visam a prevenção do suicídio e tento ajudar garotas que, como a minha filha, têm uma dor para ser cuidada. Pelo Facebook, muita gente me procura para pedir ajuda – tanto pais como jovens. Transformei o luto em luta e só estou viva porque posso mudar outras vidas.

Desesperada, liguei para um amigo policial, descrevi a roupa que minha filha estava usando naquele dia. Eu imaginava onde ela estava e como ela tinha feito, não me pergunte porquê. Ele pediu para um colega averiguar, e esse agente a encontrou. Apesar de todas as certezas, corri para a minha casa. Pensei: “E se ela estiver em casa, no quarto dela, encolhidinha na cama?”. Não estava.

Não sinto culpa, eu fiz tudo o que pude. Conversei com ela e cuidei em todos os momentos. Ela nunca nos culpou. Eu sempre estive ao lado dela, éramos muito cúmplices. Onde eu ia, ela ia comigo. Se ela tinha trabalhos, eu a acompanhava. Ela sempre dizia: “Mamãe, quero ir com você”. Me chamava de “mamãe”. Hoje, quando converso com meninas que foram vítimas de abuso, descubro que o agressor sabe escolher a vítima certa, aquela que não vai abrir a boca. O abusador da minha filha dizia que, se ela dissesse algo, mataria a mim e ao pai dela. Ela aguentou tudo isso sozinha.

Aos pais, só peço uma coisa. Acreditem nos seus filhos e passem a sensação de que eles podem confiar em vocês. Quando nós descobrimos o que tinha acontecido com a Ana Luísa, a depressão já estava no grau máximo. Se ela tivesse compartilhado isso com a gente antes, talvez tivéssemos conseguido salvar a vida dela.

Hoje, sinto saudade. É um sentimento que cresce a cada dia que passa. A dor de perder um filho não passa nunca.”

*Se você está passando por algo semelhante ou conhece alguém que precise de ajuda, disque 188 – Centro de Valorização da Vida

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Comentários

  1. Stalin Red Postado em 06/Jul/2019 às 13:51

    É bom ficarmos atentos. Setembro Amarelo está aí pra isso!

  2. Araújo Postado em 06/Jul/2019 às 13:51

    O agressor de 16 anos era apenas uma criança e vítima de uma sociedade que desvaloriza a mulher. A solução para problemas como esse é EDUCAÇÃO!

  3. Joel Franz Postado em 06/Jul/2019 às 13:51

    Se conhece alguém em situação parecida, isso não é caso para 188. Precisa de psicoterapia. Já atendi vários casos parecidos, pelo enfrentamento que as vítimas conseguiram produzir, até hoje conseguimos reverter os quadros. Mas me solidarizo profundamente com os pais e com a colega psicóloga. Vocês não tiveram culpa. O Estuprador matou essa menina. Os estudos das Experiências de Quase Morte abrem uma possibilidade de, quem sabe, a vida continuar após a morte. Ficam meus melhores sentimentos que ela possa ter sido curada e esteja bem agora. E que aquele jovem também possa ter resolvido seus conflitos, também recebe amor, para que não faça mais vítimas. Que todos consigam voltar a ficar amorosos consigo, com a Vida. Isso aconteceu. Que, agora, boas coisas, possam surgir dessa profunda dor. Sei que isso parece absurdo. Mas é possível. Abraços a todos.

  4. V. C Postado em 06/Jul/2019 às 13:51

    Passo por isto, só minha filha faz 40 anos novembro, só que foi próprio pai,hj me ligou e conversamos ela me disse que vai entrar com uma ação para tirar o sobrenome do(pai) ,ela me disse que não tem como esquecer,tinha 4para5 anos na época. Sofro por isto tenho muito medo de acontecer o pior sempre esta com este pensamento de sucidio

  5. Os Defensores Postado em 06/Jul/2019 às 13:51

    é por isso que é tão importante ter palestras e eventos nas escolas que falem sobre abuso, como identificar e buscar ajuda, é um assunto difícil mas ajuda a dar coragem pra vitima quando ela ver que pode pedir ajuda e que não deve se sentir culpada/o.

  6. Caio Barrocal Fernandes Postado em 06/Jul/2019 às 14:03

    Enquanto as pessoas não enfiarem na cabeça que estuprador não é doente e sim mais um homem babaca no ápice do machismo, essas coisas nunca vão parar de acontecer. A solução é sempre na base, "não existe almoço grátis", né?! Bora ensinar a mulecada desde sempre a respeitar os limites e a respeitar o "não" alheio. Além de educação sexual nas escolas pra que, desde jovens, as crianças saibam que o corpo delas não deve ser tocado por ninguém! Isso tudo vem de berço!

  7. Thavi Lang Postado em 06/Jul/2019 às 14:03

    Esse cvv não é de grande ajuda, incentivem as pessoas a procurarem ajuda médica e terapeutica ao invés de deixar que eles pensem que o cvv pode ajudar alguma coisa quando o atendimento imediato não é 24h e demoram uma eternidade pra responder um e-mail, e quem atende lá nem é psicólogo/psiquiatra, são só voluntários.

  8. Rafael Postado em 06/Jul/2019 às 14:03

    Difícil, hoje em dia ninguém se importa com ninguém