Redação Pragmatismo
Eleições 2018 20/Sep/2018 às 20:52 COMENTÁRIOS

Atletas de esquerda sofrem mais represálias que jogadores pró-Bolsonaro

"Se um atleta soltasse um ‘Lula livre’, acho que não jogaria mais". Atletas progressistas sofrem mais represálias que jogadores pró-Bolsonaro

Atletas de esquerda represálias que jogadores pró-Bolsonaro

Carol Castro, CartaCapital

Felipe Melo dividiu a torcida palmeirense ao oferecer a Jair Bolsonaro o gol do empate contra o Bahia, no último domingo 16. Dois dias antes, a equipe masculina de vôlei da Seleção Brasileira postou uma foto com suposto apoio ao mesmo candidato – Wallace e Maurício parecem reproduzir o número oficial dele. No clássico contra o Cruzeiro, a torcida atleticana entoou o canto “Cruzeirense, toma cuidado, o Bolsonaro vai matar viado”.

A diretoria do Palmeiras se limitou a publicar uma nota oficial afirmando que as declarações de seu jogador são particulares – e nada tem a ver com o clube. Muito pouco para o coletivo Palmeiras Antifascista, que exigiu a saída do jogador.

Sua visão de mundo não condiz com um clube que foi fundado por imigrantes, operários das Indústrias Matarazzo. Para seu candidato, (…) os refugiados são a ‘escória do mundo’”, declarou o grupo. “Medíocre, pífia, mal escrita, desinteressada, mau caráter… Quaisquer umas dessas definições (talvez, todas elas) cairiam bem ao comunicado oficial”, rebateu o coletivo. Enquanto a principal torcida organizada do Palmeiras não se manifestou, a Gaviões da Fiel, organizada do rival Corinthians, publicou texto contrário ao candidato – “gavião não vota em Bolsonaro”.

O Atlético-MG lamentou as manifestações e publicou um vídeo para reforçar “o repúdio à intolerância e à discriminação”. “A maior torcida de Minas é composta por pessoas de todas as classes sociais, raças e gêneros, não cabendo qualquer tipo de discriminação”, declarou. Já a Confederação Brasileira de Vôlei apagou a polêmica foto em seu perfil no Instagram e disse não compactuar com manifestações políticas de atletas no momento em que eles representam a Seleção.

Não foram os únicos casos. Jadson, meia do Corinthians, e Lucas Moura, do time inglês Totenham, deram declarações favoráveis à candidatura do militar. Com exceção da nadadora Joanna Maranhão, conhecida por seus posicionamentos progressistasm atletas com outros posições políticas ainda não se pronunciaram.

Esporte é um meio conservador. Falta informação aos atletas, especialmente sobre o Brasil. Eles se fecham em suas bolhas, com estrutura e proteção desde cedo”, diz Ana Moser, ex-jogadora de vôlei. “Falta também um debate qualificado. As pessoas compram o monstro da corrupção, do bolivarianismo, seja lá o que isso for. E se esquecem de discutir o mais importante: economia, políticas de igualdade social etc.”, completa.

O cientista social Marcel Diego Tonini, pesquisador da USP que estuda racismo no futebol, tenta entender o apoio de jogadores a Bolsonaro. E encontra a mesma resposta que Ana Moser: o esporte é conservador. E quem abre a boca para defender ideias de esquerda cai no ostracismo.

O que acontece no meio esportivo: a maioria é conservadora ou os atletas mais progressistas não se manifestam?

Marcel Tonini: Não temos uma pesquisa para saber ao certo como é esse quadro. Mas acho que é um pouco dos dois. Aparentemente a maioria é conservadora e o meio também é conservador. Qualquer pessoa que se coloque de uma maneira um pouco mais progressista, em prol de movimentos sociais, tende a perder espaço, a ser abafado pela própria cartolagem. Os clubes blindam seus atletas, tudo passa pelo crivo das assessorias. Se olharmos pela história recente, quando surge um movimento de atletas contra várias questões do próprio futebol, como foi o Bom Senso Futebol Clube, ele é abafado. E os líderes sofrem represálias. O Paulo André, por exemplo, foi mandado embora do Corinthians para jogar na China.

Acha que a demissão teve a ver com o posicionamento mais progressista do jogador?

Sem dúvidas, até porque era um dos poucos líderes do grupo que ainda tinha vários anos de carreira. O Alex e outros já estavam em fim de carreira. E quando você está no final da carreira e já tem trajetória de consagração no futebol é muito mais fácil falar, tem até apoio de torcedores para se colocar de uma maneira mais firme.

O próprio movimento tinha divergência, com uns mais à esquerda, outros mais conservadores. E o Paulo André, que se colocava bastante a esquerda, ainda que tenha tido bastante sucesso no Corinthians, acabou pagando o pato. Pagou com a sua carreira. Ou seja, a cartolagem também não permite que jogadores assumam e tomem decisões progressistas. Não à toa, desde a Democracia Corintiana não vimos outro movimento capaz de colocar novas práticas dentro do futebol, práticas mais democráticas. As decisões são de cima para baixo. O futebol é conservador, vemos a reprodução de várias práticas e fenômenos sociais com bastante força. Muito racismo, homofobia.

Não é contraditório um posicionamento tão conservador dentro desse meio, com tantos jogadores de origem pobre? Como o discurso de um candidato contrário às cotas, com declarações racistas, encanta esses jogadores?

É um pouco de tudo… O meio conservador faz com que eles também se tornem conservadores ao longo do tempo. Não consigo imaginar um jogador, numa entrevista, pós-jogo apoiar, por exemplo, um político como o Lula. Se ele soltar um ‘Lula Livre’, a repercussão seria absurdamente maior do que um apoio a Bolsonaro, teria uma represália dentro do clube maior. Acho que o jogador não seria mais relacionado para as próximas partidas.

A mídia de forma geral tomaria uma postura bastante conservadora, no sentido de negar esse tipo de atitude. A mídia tem encarado a declaração de Felipe Melo como um “posicionamento pessoal dele, ao qual ele tem direito”. E ainda bem que tem, a gente vive em uma democracia e pode falar quem a gente apoia ou não.

Mas não acho que teria o mesmo impacto se fosse um candidato à esquerda, ou, sobretudo, um candidato mais polêmico, de posicionamento mais de esquerda ainda que o PT, que já perdeu muito de suas raízes. Não é só uma questão de liberdade pessoal. Não vejo problema de terem posicionamento à esquerda ou à direita, mas deveriam fazer isso na vida privada. À medida que um jogador usa o canal aberto pelo clube para divulgar seu posicionamento político pessoal, parece que o clube referenda a posição do jogador. E aí é muito cômodo para o clube só soltar uma nota dizendo que é o posicionamento do jogador.

A torcida do Atlético-MG também endossou as polêmicas do fim de semana, com cantos homofóbicos fazendo referência ao candidato do PSL… O que os clubes podem fazer a respeito dessas situações?

Fizeram só o mínimo, né? Acho que sinceramente foi feito só para se livrar de qualquer tipo de punição ou para abrandar alguma punição do STJD. Com essas arenas modernas, a gente caminha para saber quem é a pessoa sentada em cada assento do estádio. Se o clube tem todo esse controle, principalmente os grandes clubes com esses programas de sócio torcedor, com câmeras… por que não identificar esses torcedores? Dois dias depois poderiam apresentar pelo menos uns dez torcedores e proibir a entrada deles no estádio. Isso mostraria uma pró-atividade no sentido de coibir torcedores racistas, homofóbicos, preconceituosos. Melhor do que dizer por aí que a tradição do nosso clube mistura classes, etc – um discurso óbvio e pouco genuíno. Foi só para dar uma resposta à sociedade.

Nos Estados Unidos, a gente vê um movimento diferente dentro dos esportes. Na NFL, principal liga de futebol americano, Colin Kapernick liderou um movimento contra políticas racistas do país. Por que isso não se repete por aqui?

Eles têm uma tradição que a gente nunca teve. O movimento da Democracia Corintiana é um dos poucos que tivemos. E não era partidário, era pelas Diretas Já, não falava para votar em um candidato ou outro. Era um movimento a favor de liberdade. Lá fora, nos EUA, as coisas se dão de outra maneira, principalmente em relação às questões raciais. Tem muito a ver com a forma como as relações raciais se deram lá, com um racismo segregacionista.

Por lá, se tem uma gota de sangue de negro, então você é negro. Não tem isso de democracia racial, como aconteceu no Brasil. A gente tem essa falsa ideia de que só o Brasil é um país miscigenado, então como a gente vai identificar quem é negro ou não? Essa é a ideia de quem vai contra as cotas. Nos EUA, os negros têm postura muito mais reativa frente às questões raciais no país. E isso é levado para todos os fatores, inclusive dentro dos esportes. Sempre assumiram o racismo. E o envolvimento com a causa é muito maior. Se você é negro, então é a favor dos movimentos sociais e negros. É uma postura quase automática de se posicionar contra o racismo. Quando alguém se coloca contra a violência policial [como fez Kapernick] aquilo toma uma proporção que outros atletas também o apoiam. É muito diferente do que acontece aqui no Brasil.

Ainda assim também sofreu represálias, está sem contrato desde a temporada de 2016…

Sem dúvidas, não digo que não tenha sofrido. Mas aqui no Brasil sofreria ainda mais. A ideia de democracia racial faz com que não haja consciência e quem procura posicionamento mais firme cai num ostracismo de alguma maneira. Em vez de surgirem atletas a favor dessas causas, vemos o contrário. Alguns até se orgulham de terem acabado com movimentos. O Leão tem orgulho de ter entrado no Corinthians na época da Democracia e ter sido um dos que semearam a discórdia ali dentro.

Leia também:
Emissora usa foto de ‘veado’ para se referir a time de futebol e irrita torcida
A melhor resposta ao texto de Tiago Leifert veio do jornalista Jamil Chade
Campeão olímpico brasileiro apaga postagem homofóbica após críticas
A “facebooker” que fatura em cima de um esporte nacional: detonar o Brasil
Chegou a hora de falar de homofobia no futebol
Torcida faz mosaico contra a homofobia
Corinthians contra a homofobia?

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook

Comentários