Redação Pragmatismo
Violência 20/Jul/2018 às 13:38 COMENTÁRIOS

Duas frases demagogas separadas por 32 anos que não são mera coincidência

Apesar das três décadas que separam as duas declarações a seguir e das diferenças nos respectivos momentos políticos, as semelhanças entre as palavras não são mera coincidência

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Celso Pansera*, Jornal GGN

Vamos acabar com o crime organizado, doa a quem doer. Vamos acabar com a violência no Rio de Janeiro em seis meses“. (Wellington Moreira Franco, setembro de 1986).

O governo dará respostas duras, firmes, e adotará todas as providências necessárias para enfrentar e derrotar o crime organizado e as quadrilhas no Rio de Janeiro“. (Michel Temer, fevereiro de 2018).

Apesar das três décadas que separam as duas declarações e das diferenças nos respectivos momentos políticos, as semelhanças entre as palavras do então candidato a governador – mais tarde eleito – do Rio e do atual presidente da República não são mera coincidência. Serviram, e agora novamente cumprem esta função, à tentativa de se criar uma miragem para a sociedade, para o eleitor. Ambos os momentos encontram o mesmo protagonista político – o PMDB, agora MDB – ocupando o Palácio do Planalto com presidentes com popularidade muito baixa: José Sarney há 32 anos e agora Michel Temer. Intervir na segurança do Rio, na visão do governo e da maioria do comando emedebista, seria garantia de agenda positiva.

Mas, há uma diferença fundamental. Quando Moreira Franco foi candidato a governador do Rio, o governo federal havia acabado de lançar o Plano Cruzado, que prometia derrotar outro monstro, a inflação, então muito mais temido pelos brasileiros, como demonstram as pesquisas da época. Foi essa promessa a verdadeira alavanca que permitiu a vitória de Moreira no Rio e do PMDB em 22 estados brasileiros (só perdeu, para o então PFL, em Sergipe). Isso está nos livros de história, assim como o fato de que, embora bem intencionado e tendo como elaboradores vários economistas de respeito, o Plano Cruzado fracassou completamente, para frustração do povo brasileiro.

Em 2018, no entanto, não há promessas possíveis e críveis de salvação econômica imediata. Ao contrário, o governo acena com políticas recessivas e que atacam direitos conquistados pela sociedade e os trabalhadores. Além disso, sozinha, a promessa de “acabar com o crime no Rio” não é capaz de iludir mais ninguém. Para o povo carioca e fluminense, ela soa risível. A sonhada agenda positiva também tropeça no fato de que em 2018 é o próprio MDB quem está à frente do Governo do Rio, com um governo sem rumo e identificado pela população como o principal responsável pelo recrudescimento da violência.

Assim sendo, ao intervir no Rio o governo federal optou por fazer uma aposta, arriscada e perigosa, com o objetivo de encobrir suas deficiências e atuais dificuldades políticas. A principal delas é a provável derrota na votação da impopular Reforma da Previdência, para a qual a intervenção serviria como uma “saída de honra“. Há outras razões políticas. Uma delas, já visando à sucessão de Temer, é tirar do provável candidato Jair Bolsonaro a exclusividade do discurso contra a violência.

Poderia parecer uma boa ideia, mas falta combinar com o povo do Rio de Janeiro. Este viu simplesmente todos os governos estaduais desde a redemocratização e a eleição de Leonel Brizola em 1982 anunciarem planos de segurança que deram em nada. O mais perto que se chegou de algum resultado positivo foi com a política de UPPs, a mais bem sucedida política pública já implementada no setor, mas que agora está doente terminal.

Não há registro de que a sensação de segurança da sociedade fluminense tenha aumentado com essa intervenção. E, como era de se esperar, as críticas surgem de amplos setores, passando por juristas, especialistas em segurança pública, professores e policiais, entre muitas outras categorias. Já o povo do Rio reza para que a “bala de prata” do governo Temer contra o crime não seja mais uma bala perdida.

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*Celso Pansera é deputado federal (PT-RJ) e foi ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação no governo de Dilma Rousseff.

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