Luis Gustavo Reis
Colaborador(a)
Rio de Janeiro 14/Mar/2018 às 13:52 COMENTÁRIOS

Soldados no morro: botas pisando no rosto dos desclassificados sociais

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Luis Gustavo Reis*, Pragmatismo Político

Mais uma vez a cidade do Rio de Janeiro é destaque nas manchetes dos jornais pelo prisma da violência. Seguindo determinação do impopular presidente Michel Temer, tropas do exército ocuparam diversas ruas da capital fluminense com o objetivo de garantir segurança aos cariocas.

Sem nenhuma estratégia que garantisse o sucesso da empreitada, o general Walter de Sousa Braga Netto, incumbido de comandar a intervenção, tergiversou ao ser interpelado sobre quais caminhos seriam trilhados: “No momento, eu não tenho nada que possa adiantar para os senhores. Vamos fazer um estudo e a nossa intenção é fortalecer o sistema de segurança no Rio de Janeiro”. Trocando em miúdos, é o improviso em forma de bravata, semelhante àquele de trocar os pneus do carro com o mesmo em movimento.

Pressionado a apresentar um plano, Braga Netto convocou a imprensa para anunciar que o principal objetivo da intervenção seria “recuperar a credibilidade” da segurança pública no estado. Como isso será feito o general não disse, preferiu guardar silêncio para evitar novos constrangimentos.

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Passados alguns dias da intervenção o saldo já pode ser mensurado: dezenas de mortes, intensificação dos tiroteios, algumas prisões, fichamento e intimidação de moradores, desfile de armas e tanques, além de uma enxurrada de críticas relativas à truculência característica da polícia carioca.

Não é de hoje que soldados ocupam os morros do Rio de Janeiro. A própria origem das favelas curiosamente está ligada à ocupação de soldados recém-chegados à cidade, oriundos do sertão da Bahia. No final do século XIX, durante a Guerra de Canudos (1896-1897), os soldados que lá combateram receberam do governo federal a promessa de que seriam premiados, inclusive com moradias, caso a campanha fosse bem-sucedida. Após meses de batalha, vitoriosos na destruição do arraial de Canudos, a soldadesca voltou para o Rio de Janeiro na expectativa de receber a recompensa prometida. O governo, no entanto, não cumpriu o compromisso e um batalhão de fardados maltrapilhos e desocupados passou a perambular pelas ruas da cidade.

Desesperados e sem perspectivas, em meados de 1897, os ex-combatentes decidiram fixar-se num morro desabitado da zona portuária do Rio conhecido como Providência. Lá ergueram os primeiros barracos de madeira e batizaram o lugar de “Morro da Favela”, devido a semelhança com os morros de Canudos. O termo “favela” designava uma planta (Cnidoscolus quercifolius) bastante comum na região de Canudos. Foi somente na década de 1920 que o termo passou a ser usado para se referir a outras comunidades carentes que cresciam exponencialmente em diversas regiões brasileiras.

Ao longo do século XX, as favelas cariocas foram relegadas ao esquecimento, vilipendiadas pelo poder público e criminalizadas por distintos grupos da sociedade civil. Na década de 1990, a introdução da cocaína e a intensificação do comércio de drogas atrelado ao surgimento de organizações criminosas estigmatizaram as favelas como o espaço da violência desenfreada, habitada por pessoas incultas, indolentes e “alienadas”. Tais estereótipos vigoram ainda hoje, professados inclusive por grupos que se dizem “progressistas”.

Guardadas as devidas ponderações, a monumental pesquisa Radiografia das favelas brasileiras, realizada pelo Instituto Data Favela e publicada no livro Um país chamado favela (Editora Gente. São Paulo, 2014), revela que “os dados tabulados compõem, na verdade, cenários heterogêneos, ou seja, de favelas que podem se iniciar em um centro de comércio desenvolvido, com caprichosas casas de alvenaria, e terminar, no outro lado do morro, em uma área de risco, de difícil acesso, em que se equilibram humildes barracos de madeira.” Todavia, “um observador desavisado ficará admirado, por exemplo, com o fato de que 94% dos favelados se consideram felizes, [que] 81% dos moradores gostam da comunidade em que estão fixados e 66% não estão dispostos a abandoná-la. […] Se existe esse amor e essa fidelidade ao lugar, a principal razão é o estabelecimento de fortes laços sociais entre os moradores”.

Nada disso é considerado por determinados setores da opinião pública, paralisados por visões ideológicas simplistas que nada respondem sobre as demandas multifacetadas da vida cotidiana atual.

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A intervenção militar no Rio tem o suposto objetivo de combater a violência, iniciativa apoiada por parcela considerável da população. Seria interessante ver os mesmos justiceiros repensar o conceito de violência e questionar: A miséria não é violenta? Ver uma criança passando fome não é violência? Ir ao hospital e não ser atendido não é violência? Falta de saneamento básico não é violência? Ligar a televisão e ver a opulência das novelas não é violência? Os milionários de Ipanema torrando por minuto o que uma família da Rocinha não ganha por mês de salário não é violência? As mansões da Barra da Tijuca e os barracos do Complexo do Alemão não é violência?

Os críticos da intervenção alegam que ela é fruto de aspirações eleitorais. Pode até ser, mas esse é apenas um dos ingredientes que compõem motivações mais sutis e sofisticadas. Outro componente seria, talvez, refinar a política de repressão.

Como é que os poderosos mantêm os excluídos sobre controle numa cidade à beira do colapso? Com repressão! É a reedição da clássica imagem que George Orwell previu para o futuro: botas pisando no rosto dos desclassificados sociais.

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*Luis Gustavo Reis é professor, editor de livros didáticos e colabora para Pragmatismo Político

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