Redação Pragmatismo
Rio de Janeiro 20/Mar/2018 às 13:04 COMENTÁRIOS

Padre de 81 anos defende Marielle e é xingado de "filho da p*" em missa

Padre de 81 anos cita legado de Marielle Franco durante celebração de missa em igreja de Ipanema e é atacado por dois homens. Fiéis se solidarizaram com o sacerdote

padre defende Marielle Mario de França
O padre Mario de França Miranda

O padre Mario de França Miranda, de 81 anos, foi atacado por dois homens enquanto celebrava uma missa na Paróquia da Ressurreição, em Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro, na manhã deste domingo (18).

O religioso foi chamado de “padre filho da p*” por dizer que as ideias de Marielle Franco permanecerão vivas mesmo após a morte. Os dois agressores acabaram sendo retirados da igreja. O caso não foi denunciado à Polícia Civil.

Em entrevista ao jornal O Globo, Mario de França Miranda contou que usou como exemplo casos como o de Jesus ou de Martin Luther King para exemplificar como a eliminação das pessoas que tentam “melhorar a sociedade” não colocam fim às suas ideias e que, no caso de Marielle Franco, não seria diferente.

“Fiz a homilia normal, explicando um pouco o texto, e citei Martin Luther King, dom Oscar Romero e pessoas que estão tentando melhorar a sociedade, como Jesus também tentou melhorar e foi assassinado precocemente. O Evangelho fala que o grão cai na terra e dá frutos. Então, eu falei que frutos são esses. Mostrei que, quando se mata uma pessoa parece que tudo termina, mas não. No caso de Jesus, ele influenciou toda a humanidade. E frutos também são aquelas pessoas que tentam seguir esse exemplo: que têm uma vida difícil, mas com sentido e que causam muita paz por fazer o bem”, disse o padre.

Quando citou Marielle, dois homens começaram a gritar xingá-lo de todas as formas. “Quando houve a reação dos dois homens tinha umas 500 pessoas na igreja e eu pensei: tenho que tocar a missa. Não ia ficar preso a um tumulto que lá no fundo da igreja apareceu. Duas pessoas revoltadas. Me xingaram de tudo. Depois nem quiseram me dizer os palavrões. Logo, eles foram retirados da igreja e eu consegui recolocar a missa em oração”, afirmou.

Ao final da missa, fiéis se solidarizaram com o padre e o parabenizaram pela homilia.

Responsável pela Paróquia da Ressurreição, o padre José Roberto Devellard comentou o caso em texto postado no Facebook. Ele disse que “o sacerdote [Maria de França] não falou de partidos nem de ideologias”.

“No Evangelho João 12, 20-33 ao entrar no Espírito da Semana Santa, os versículos 24 e 25 falam do grão de trigo, que ao morrer produz frutos. O sacerdote deu vários exemplos, entre tantos o da vereadora Marielle. A homilia foi interrompida por uma pessoa da assembleia, que não gostando usou palavras de baixo calão para ofender o sacerdote, profanando assim o templo”, publicou.

“O padre Mário França é um dos melhores teólogos do Brasil. Foi membro da comissão de teólogos de todo o mundo. Recebeu o prêmio Cardeal Ratzinger de teologia como bons serviços prestados à teologia. Uma preocupação assustou-me: ninguém foi capaz de levantar a voz na igreja para defender o sacerdote”, escreveu José Roberto.

Dono de bar preso

As manifestações de ódio contra quem se solidariza com a perda de Marielle Franco, vítima de assassinato político, estão alcançando níveis cada vez mais alarmantes.

Além do ataque ao padre em Ipanema, o dono de um dos bares mais tradicionais de Copacabana acabou detido pela polícia após homenagear a vereadora em seu estabelecimento. Alfredinho, 74, havia pedido um minuto de silêncio para Marielle quando um policial federal que estava de folga no local reagiu: veja aqui.

Dom Orvandil comentou o ataque ao padre Mario de França:

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