Redação Pragmatismo
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Rio de Janeiro 22/Sep/2015 às 09:46
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Lutadores de academia realizam 'blitz' para atacar suspeitos de assalto

Justiceiros de Copacabana: 30 praticantes de artes marciais realizam 'blitz' na zona sul em busca de "moleques de chinelo, com cara de quem não tem R$ 1 no bolso"

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‘Justiceiros’ de Copacabana atacam ônibus em busca de ‘moleques que aparentam não ter 1 Real no bolso’ (Marcelo Carnaval / Agência O Globo)

Em mais um fim de semana com arrastões em praias cariocas, um grupo de jovens decidiu fazer justiça com as próprias mãos.

Cerca de 30 homens, a maioria praticante de lutas marciais, realizaram “blitz” em ônibus que ligam o subúrbio aos bairros de Copacabana e Ipanema, na zona sul.

Buscavam “moleques de chinelo, com cara de quem não tem R$ 1 no bolso”, nas palavras de um deles.

“É óbvio que eles querem assaltar. Tocam o terror, vamos tocar também. É legítima defesa”, afirma Antônio, de 27 anos, que trabalha como vendedor de loja e mora em Copacabana.

Daniel, 31, também participa das ações. Ambos treinam em uma academia de jiu jitsu.

Os dois treinavam em horários diferentes e se conheceram em um grupo de WhatsApp. Por meio do aplicativo, marcam locais e horários para coibir supostos assaltantes.

No domingo (20), o grupo parou um ônibus da linha 472, que faz o trajeto entre o Leme (zona sul) e Triagem (zona norte), na avenida Nossa Senhora de Copacabana.

Imagens feitas por câmeras de celulares de moradores mostraram quando um menor foi retirado de dentro do coletivo e recebeu uma série de socos e chutes. Policiais precisaram intervir para evitar o linchamento.

Os integrantes do grupo prometem repetir a “blitz” no próximo final de semana.

“Não espancamos. Queremos mostrar que não somos reféns. Os policiais nos apoiaram, tanto que não nos prenderam. É o terceiro final de semana que fazemos isso”, diz Daniel, enquanto toma um copo de leite misturado com suplemento proteico.

Ele e colegas “vigiaram” as ruas de Copacabana na tarde de domingo e atacaram ao menos mais um ônibus, da linha 474, quebrando a janela e brigando com passageiros.

justiceiros copacabana rio de janeiro
Passageiros pulam de ônibus pela janela após ações de justiceiros (Agência Estado)

Vendedora de uma sorveteria, Mayara da Silva, 22, disse que viu quando uma vítima de assalto reagiu e os vigilantes a ajudaram.

“Fechei a porta da loja várias vezes. Quando os dois grupos se encontravam, era uma pancadaria só. Eu apoio a revolta”, disse Mayara.

Reações

A onda de arrastões – um fenômeno que surgiu nos anos 90 nas areias das praias do Rio – durante o final de semana, apesar do reforço policial, levou alguns moradores das zonas mais ricas da cidade a se trancar em casa resignados.

Mas também alimentou a indignação de outros que lotaram grupos no Facebook com dicas de segurança, como sair armados com spray pimenta e guardassóis, e mensagens de frustração pela falta de policiamento e de “leis mais rígidas”.

Postagens com iniciativas de patrulhamento cidadão e convites ao uso de violência contra os assaltantes começaram a aparecer dentro e fora das redes sociais.

Um dos membros identificado como policial civil postou em dois grupos a seguinte mensagem: “Todos os moradores devem procurar os síndicos de seus prédios e pedir que em caso de violência contra esses marginais, se alguém atirar e matar um merda desse, não forneçam imagens das câmeras à polícia! Apaguem as imagens imediatamente! Ninguém é obrigado a fornecer as imagens! Digam que o sistema está com defeito!”.

A única participante que discordou da postagem foi convidada pelo resto a adotar um bandido e a sair da página.

Raízes do problema

Entender como uma simples ida à praia virou um pesadelo em potencial na Cidade Maravilhosa é um desafio até mesmo para especialistas em segurança pública. Isso porque as diversas raízes do problema dificultam tanto sua plena compreensão quanto a aplicação de soluções eficazes.

Para a socióloga Lia de Mattos Rocha, do Laboratório de Análise da Violência da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), o “cobertor curto” da segurança pública no Rio é um dos fatores que ajuda a explicar o cenário. “Quando se investe muito em um lugar, algum outro fica sem cuidado”, explica.

Os arrastões são praticados por jovens que se deslocam, em sua maioria, de bairros da zona norte, pouco atendidos pelo poder público, para a orla da zona sul, a região mais turística e valorizada da cidade.

Nas áreas de origem dos protagonistas dos arrastões, aponta a pesquisadora, eles se acostumam desde cedo a ser reprimidos pela Polícia Militar. Desde o início deste ano, a ida deles às praias da zona sul da cidade em fins de semana de sol passou a ser interrompida no meio do caminho por operações da PM. Nas blitzes, os ônibus que levavam os jovens da periferia eram parados durante o trajeto. Muitas vezes, eles foram impedidos de seguir viagem, ainda que não tivessem cometido crimes. Em um só dia, em agosto, 150 adolescentes foram apreendidos. “Isso gera revolta”, disse Lia.

Questionado pela Defensoria Pública do Rio, este tipo de ação foi proibido pela Justiça no último dia 10, o que gerou reclamações do secretário de Segurança do Estado, José Mariano Beltrame. Nesta segunda (21), em resposta aos novos arrastões, ele atribuiu as ações à restrição ao trabalho dos policiais e disse que as abordagens voltarão a ser realizadas. O secretário afirmou ainda que as ações vinham “dando resultados positivos” e reclamou a polícia está sendo “constrangida”.

“Quando o secretário diz que a polícia está impedida de trabalhar por conta da decisão judicial, o que ele sinaliza é um pedido de autorização para agir ao arrepio da lei”, analisou Lia Rocha. De acordo com a socióloga, o tipo de delinquência praticado pelos jovens pode ser visto como o resultado de “um certo asfixiamento dessas populações diante da repressão”.

A educadora Eliana Sousa Silva, diretora da ONG Redes da Maré, classificou como “lamentáveis” tanto os arrastões quanto a resposta do poder público. “A polícia acaba demonstrando todo um preconceito em relação a determinados segmentos da sociedade. Apenas pessoas negras, homens, são diretamente atingidas. A resposta dada pela PM não enfrenta o problema real”, argumentou.

Beltrame justificou as medidas da polícia dizendo que não se trata de racismo, mas, sim, de vulnerabilidade. “Como é que um jovem sai de Nova Iguaçu, a 30 km de distância da praia, sem dinheiro para comer, para beber, para pagar a passagem, só com uma bermuda?”, declarou.

“Todas as pessoas têm direito à cidade, pobres e ricos. É um absurdo você usar como critério para determinar se uma pessoa vai cometer um crime o fato de ela estar ou não com dinheiro no bolso. É um descalabro que demonstra a falta de entendimento do Estado sobre as questões mais profundas que levam a essa violência”, respondeu Eliana.

Folhapress e EL País

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Comentários

  1. Márcio Ramos Postado em 22/Sep/2015 às 10:14

    O problema não é prática do crime, mas quem pratica e onde é praticado o crime. Por isso temos alarmismo midiático todo.

    • marc Postado em 22/Sep/2015 às 11:38

      Concordo plenamente.

  2. Silvia Kochen Postado em 22/Sep/2015 às 10:18

    Chega a parecer que estamos em guerra civil.

    • João Paulo Postado em 22/Sep/2015 às 10:26

      Como assim "parece"? Nós ESTAMOS em guerra civil. É só olhar o número de mortos resultante de toda essa desigualdade e violência.

  3. Dyego Alves Postado em 22/Sep/2015 às 10:22

    Ser vítima de arrastão ninguém quer né?

    • Bruno Postado em 22/Sep/2015 às 11:23

      Se existe o arrastão dos garotos da periferia é porque existe o arrastão dos banqueiros,empreiteiros,emissoras de TV,e outros oligopólios que roubam nosso dinheiro através da fraude da dívida pública,sonegação de impostos,financiamento empresarial de campanha para comprar políticos que votem leis favoráveis a essas empresas e que ferrem com a vida do povo.Dinheiro esse que serviria para investir em melhorias na periferia fornecendo todos os direitos básicos pra população e evitando que esses garotos fizessem arrastões.Cadê fazer justiçamento com empresários e políticos corruptos?Todos esses marginais da classe média votaram no traficante do Leblon que se finge de mineiro.

  4. Marcos Vinícius Postado em 22/Sep/2015 às 10:36

    "A única participante que discordou da postagem foi convidada pelo resto a adotar um bandido e a sair da página". Típico desses lixos psicopatas criminosos. Sem argumentação apelam para essa mistura de emoção com levar para o lado pessoal.

  5. Ronaldo Postado em 22/Sep/2015 às 10:39

    É só até o primeiro Batman cover levar um bala na testa. Dai sossegam. Arte marcial deter bala só no filme Remo, desarmado e perigoso....

    • Amauri Postado em 22/Sep/2015 às 13:23

      Nossa, "remo"! Desenterrou! Vou até procurar no Youtube, rs

  6. Josmar Postado em 22/Sep/2015 às 10:43

    Para evitar um crime se pratica outro.

  7. juliano Postado em 22/Sep/2015 às 10:44

    "diz Daniel, enquanto toma um copo de leite misturado com suplemento proteico." HAHAHHAA

    • Fabio Postado em 22/Sep/2015 às 11:06

      Diz enquanto toma um copo de leite com toddy

    • poliana Postado em 22/Sep/2015 às 13:00

      kkkkkkkkkkk...ri litros tb. playboyzinhos acostumados com todynho gelado qa mamãe trouxe do mercado.

      • Guilhermo Postado em 22/Sep/2015 às 14:03

        Mas Toddy é barato. Qualquer um pode tomar. Eu acho muito doce. Não tem nada a ver com o tópico, mas sentia falta de você por aqui, Poliana.

      • poliana Postado em 22/Sep/2015 às 15:27

        oi guilhermo..um abraço, gato. rs

  8. Eduardo Ribeiro Postado em 22/Sep/2015 às 11:00

    Quando "Batman" encontra com "Minority Report" dá essa bosta aí. Parabens aos envolvidos. Torço pelos "moleques de chinelo".

  9. Guilhermo Postado em 22/Sep/2015 às 11:34

    Ao invés de reclamar vou dar uma dica que vi na televisão esses dias (sim, uma dica útil vinda da televisão): Em uma determinada cidade, os moradores de uma rua que estava constantemente sendo assaltada, criaram um grupo no Whatsapp com os membros dessa rua. Assim que alguém via algo suspeito, comunicava no grupo. Segundo os moradores, os assaltos àquela rua diminuiram bastante.

  10. José Ferreira Postado em 22/Sep/2015 às 11:34

    A ideia de "justiceiros" não é boa, pois eles estão a fazer aquilo que é função do Estado. Infelizmente a Defensoria Pública do Rio de Janeiro não colabora com o trabalho de prevenção do Estado, e usa a velha desculpa do "preconceito" para isso. Logo vão proibir os policiais de prenderem os bandidos em flagrante por meio dessa desculpa.

    • Eduardo Ribeiro Postado em 22/Sep/2015 às 11:40

      "Infelizmente a Defensoria Pública do Rio de Janeiro não colabora com o trabalho de prevenção do Estado que é prender pretos pobres, arranca-los de dentro dos onibus, se possível espanca-los, e manda-los de volta pro lugar deles, a periferia, a favela, de onde jamais poderiam ter saido para se dirigirem as areas nobres e se misturarem com os bem nutridos de dentes branquinhos.". FERREIRA, José.

      • José Ferreira Postado em 22/Sep/2015 às 11:58

        O povo viaja muito com a descontextualização de comentários de opositores a situação que está a acontecer no Rio de Janeiro.

      • Eduardo Ribeiro Postado em 22/Sep/2015 às 14:07

        O que me deixa bolado (pra não dizer outra coisa) é que trata-se de, mais do que um cara estudado, um historiador. Como pode um historiador alinhar-se a idéia de prender preto-pobre de modo preventivo, isso sem eles fazerem nada, só por terem aparência de suspeitos? Como é possível alguem ser a favor de uma clara e desavergonhada política de HIGIENIZAÇÃO SOCIAL? Como pode um historiador ladear "prisão preventiva de preto-pobre" com "flagrante" como se fossem a mesma coisa?

      • Marcio Postado em 22/Sep/2015 às 15:19

        Por favor não ofenda os historiadores de verdade!

      • José Ferreira Postado em 22/Sep/2015 às 17:07

        Não é "prisão preventiva de 'preto' e pobre", mas uma averiguação. Ou você acham que é normal os menores de idade andarem por trinta quilômetros sem dinheiro e sem que os pais saibam de seu paradeiro (o que ocorre na maior parte dos casos).

      • Eduardo Ribeiro Postado em 22/Sep/2015 às 17:49

        Porra de "averiguação". Safadeza demais atenuar o nome. Higienização social é o nome desse procedimento, que consiste em recolher sumariamente todo preto-pobre que estiver em ônibus que sai da zona norte em direção à orla "respirar o mesmo ar da nobre elite branca carioca". Somente racistas, fascistas e vagabundos sem ética defendem essa palhaçada. Inclusive já devem ter soluções encaminhadas. Em breve devem primeiro tirar as linhas de ônibus que vão da periferia até a zona Sul. Depois construir um piscinão lá na puta que o pariu pras "pessoas de bem e familia brasileira" ficarem mais tranquilas nas praias curtindo o sol e o mar sem esses pretos-pobres-vagabundos-bandidos incomodando. Por fim, fechar a praia e cobrar entrada. ******E se diz historiador*******

      • José Ferreira Postado em 23/Sep/2015 às 00:19

        Higienização Social? É cada uma que as pessoas inventam que parece até duas.

  11. João Paulo Postado em 22/Sep/2015 às 11:56

    Não estou com vagabundo nem com playboy. O Secretário de Segurança tem toda a razão. Adolescente que não dinheiro é vulnerável e não deve circular pela cidade. Uma adolescente sem um centavo é um prato cheio para se sujeitar à prostituição. O Judiciário e os hipócritas distorcem claramente os fundamentos da Polícia Militar para sugerir discriminação. A PM tem vários defeitos e erros, mas as "blitz" não são um deles. E para os desavisados que não conhecem Copacabana, arrastão não afeta rico: primeiro, porque rico não vai à praia; segundo, porque a maior parte dos moradores da região não é rica (o pitboy é vendedor de loja) e frequenta a praia durante a semana, quando ela está 100 vezes mais vazia; terceiro, normalmente, as vítimas de arrastão são turistas e moradores do subúrbio.

  12. Daniel Santana Postado em 22/Sep/2015 às 12:04

    "Os policiais nos apoiaram." Mais uma edição da série "Maio Somos Racistas"pré Ali Kamel.

  13. Guilhermo Postado em 22/Sep/2015 às 13:59

    Um dos "justiceiros" ta pagando cofrinho aí. huehuehue

  14. Priscila Postado em 22/Sep/2015 às 15:18

    eu já andei muito sem um real no bolso e de chinelo, já fui pra praia se dinheiro nenhum pq não queria ficar em casa e queria dar uma volta, é acontece, as vezes quem não tem dinheiro quer aproveitar um sol também.

  15. Rodrigo Postado em 22/Sep/2015 às 16:09

    Achei a matéria um tanto tendenciosa associando lutadores de jiu jitsu com violência e um certo sarcasmo quanto refere-se " copo de leite com suplemento protéico"... Um dos mandamentos de Carlos Gracie o inventor do jiu jitsu é "ser tão forte que nada possa perturbar a paz de tua mente". Parecem com essa analogia tosca e grosseira quando referem-se a praticantes de jiu jitsu isso denigre a arte.

  16. Joel Fernandes Postado em 22/Sep/2015 às 18:11

    Texto claramente tendencioso. Ah, esqueci, é pragmatismo político.

  17. felipe Postado em 23/Sep/2015 às 10:01

    Texto no site: http://alexandrekaramazov.com/index.php/2015/09/21/a-saga-de-um-menino-negro-pobre-e-oprimido-pela-sociedade-os-arrastoes-ideologicos-no-brasil/ - tem gente falando que roubei o texto, mas o Alexandre Karamazov é meu pseudônimo Emoticon smile Não gosto de postar texto meu no perfil pessoal, mas preciso dar minha singela opinião no debate dos arrastões: Glerickson tem 14 anos. É um menino inteligente, estudioso, respeitoso com seus pais e observador atento ao que se passa, principalmente no Rio de Janeiro, onde mora. É pobre e negro. Seus pais são dona Darcy, doméstica, e Lauro, motorista de ônibus; ambos cidadãos trabalhadores e moradores de uma comunidade distante da zona sul do Rio de Janeiro. Deram o máximo para o filho, que sempre esteve na escola e contou com o amor de seus pais dentro de casa. Nestes últimos tempos, Glerickson tem estado em dúvida sobre si mesmo e sobre nossa cidade. Ao ler as notícias na internet, começou a perceber como funciona o Brasil, e em específico o Rio. No caso dos arrastões na Zona Sul, ele reconheceu um dos menores por uma foto, pois tinha estudado com ele. O menor em questão tem o apelido de Lulinha. Ele também é pobre, negro e filho de dois trabalhadores corretos. Lulinha, ao contrário de Glerickson, nunca gostou de estudar, nunca respeitou o próximo, sempre foi um adepto assumido da malandragem carioca, e, com seus 15 anos, já passou em todas delegacias possíveis, acusado e condenado por toda sorte de crimes. Glerickson entrou no Facebook de Lulinha e viu que o mesmo 'ostentava', em fotos, os produtos que acabara de roubar na zona sul. Cordão, celular, pulseira e relógios. Embaixo das fotos, comentários de apoio dos amigos e risadas cúmplices de outros parceiros do crime. Glerickson sentia um pouco de inveja daquela fama passageira do amigo. Resolveu ir mais fundo e ver outras redes sociais. No Facebook do maior jornal carioca, ele descobriu que o amigo era tratado como vítima. Vítima da polícia militar e vítima da sociedade como um todo. Chegou, inclusive, a descobrir que ele, por ser negro e pobre, tinha uma espécie de salvo conduto para o que quisesse diante da imprensa. Era negro e pobre? Ok. Tal qual um 007, você tem licença para matar. A culpa sempre será da sociedade. E Glerickson achou tal pensamento, além de totalmente errado, muito racista. Por que a mídia tinha o direito de generalizar o comportamento de seres humanos baseado unicamente na cor de suas peles? Glerickson, com uma reflexão básica, pensou no branquelo Hitler e se revoltou mais ainda com o vitimismo com que Lulinha e seus parceiros eram mencionados nas matérias. Glerickson sabia, pois era observador, que o pobre é quem mais sofre com a violência desenfreada nas grandes cidades. Os intelectuais de plantão, os chamados 'especialistas', falam demais e vivem de menos o problema. Glerickson lembrou de quantas vezes seus pais, honestos, pobres e trabalhadores, não saíram de casa depois de tal hora da noite, quantas vezes eles não foram assaltados, quantas vezes eles perderam o salário do mês inteiro para um cara que não tinha coragem de tirar uma carteira de trabalho. Aonde estavam os direitos dos cidadãos, independentemente de cor e classe social, da cidade onde morava? Será que não valia a pena ser honesto, perguntava-se. E a investigação particular de Glerickson acabou na rede social de um famoso deputado carioca, Marcelo Freixo, para ler qual era a opinião do parlamentar sobre o assunto. Achou uma postagem recente, do dia 26 de agosto de 2015, onde lia-se 'Apartheid carioca', em referência ao acontecido na África do Sul, onde uma minoria branca decidia o destino da maioria negra daquele país. Mais uma vez, o menino percebeu que era, como negro e pobre, vitimizado por mais uma pessoa, desta vez um político. Político branco. Rico. Morador da Zona Sul. E sentiu raiva. Raiva do parlamentar, por desacreditar todos os negros como se bandido fossem, raiva por achar que pobreza financeira é sinônimo de vontade de assaltar. Raiva por ver um sujeito informado como Freixo fingir que não entendia que 99% da população pobre do Rio de Janeiro é quem sofria nas mãos de 'meninos' como Lulinha e cia. Os ricos ainda podiam blindar seus carros, podiam ficar, como seus próprios pais, reféns dentro de um condomínio com grades, podiam viajar pro exterior para espairecer, podiam desabafar nas redes sociais e, inclusive, podiam virar políticos para se eleger como paladinos da 'justiça social'. Quem defendia os verdadeiros interesses das pessoas que mais sofrem? Ele não conseguia encontrar. E percebeu que havia uma verdadeira indústria da miséria, de políticos a especialistas que, como urubus, sobrevivem do caos. Precisam de carniça diariamente. Por fim, Glerickson ainda tentou recorrer à autoridade máxima do poder Executivo, e visitou o perfil de Dilma Rousseff, presidente de seu país. Dilma era uma defensora incansável da manutenção da maioridade penal aos 18 anos. Dilma era companheira de muitos companheiros de partido presos nos últimos anos, por roubos muito piores que os praticados por Lulinha nas praias do Rio de Janeiro. E Glerickson novamente percebeu que a situação era complicada, porque se a presidente da República tinha amigos mais 'barra pesada' que ele próprio, como poderia, então, ter alguma medida que fosse contra toda a violência que prejudicava seus pais, sua vida e seu país? E de clique em clique, de página em página, Glerickson descobriu que estivera no caminho errado. Estudar, trabalhar e perseverar no difícil caminho da honestidade era para os trouxas. 'Malandro é malandro e mané, pode crer que é', como dizia a letra de uma novela. Glerickson tinha, agora, raiva de si e dos pais. Por que não o educaram para ser esperto, com sotaque bem carioca? Por que não o ensinaram que eles, por serem negros e pobres, estavam condenados por uma sociedade doente e por uma mídia esquizofrênica ao mundo do crime? Glerickson tinha entendido que Lulinha era o verdadeiro gênio: roubava, postava no 'Face' e ria. E no entanto o marginal era o policial militar, também negro, que tentara prender os menores. Assim disse a defensora pública Eufrasia das Virgens, e foi além: os detidos numa operação recente pela PM poderiam buscar indenizações do Estado. É ou não é genial? Glerickson tinha a certeza em cada célula de seu corpo que hoje, 2ª feira, sua vida teria novos rumos: seu sonho era se tornar uma vítima da sociedade opressora capitalista. E estava ansioso pelo próximo fim de semana ensolarado no Rio de Janeiro.

  18. Paulo Postado em 23/Sep/2015 às 10:48

    E qual é o solução proposta pela socióloga a curto prazo? Porque a longo prazo eu sei.

  19. Lopes Postado em 25/Sep/2015 às 17:46

    O direito de ir e vir está garantido na CF para todos cidadãos, com ou sem camisa, com ou sem sandalia, com ou sem dinheiro no bolso!