Luis Soares
Colunista
Ditadura Militar 04/Jun/2012 às 20:27
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Ex-governador de São Paulo assume que Herzog foi assassinado: 'Maquiou-se um suicídio'

Segundo Paulo Egydio, que foi governador nomeado pela ditadura entre 1975 e 1979, o pano de fundo da morte do jornalista era a briga entre as duas facções de militares: a Linha Dura, de Emílio Garrastazu Médici e Silvio Frota, e a Linha Branda, do então presidente Geisel e seu chefe da Casa Civil, o também general Golbery do Couto e Silva.

Paulo Egydio Vladimir Herzog

“Maquiou-se um suicídio (de Herzog). Não houve suicídio, ele foi assassinado dentro das dependências do 2º Exército na rua Tutóia, em São Paulo”, sustenta Paulo Egydio Martins. Foto: arquivo

A morte do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do Exército brasileiro, em São Paulo, em 25 de outubro de 1975, é um dos episódios emblemáticos da ditadura que comandou o País entre 1964 e 1985. No último sábado 2, o ex-governador de São Paulo à época, Paulo Egydio Martins, deu sua versão para o caso e se declarou apto a prestar depoimento à Comissão da Verdade sobre o tema.

Egydio afirma que Vladimir Herzog foi mesmo assassinado, como sustentam os familiares – a versão oficial dos militares dizia que ele se enforcou na cela. “Maquiou-se um suicídio (de Herzog), não houve suicídio, ele foi assassinado dentro das dependências do 2º Exército na rua Tutóia, em São Paulo”. Egydio também afirma que a morte do jornalista tinha como pano de fundo uma briga entre facções do Exército brasileiro à época.

O ex-governador paulista falou ao jornalista Geneton Moraes Neto, no programa Dossiê Globo News. Segundo Egydio, a questão com Vladimir Herzog, então diretor do Jornal da tevê Cultura (que já pertencia ao governo do estado), começou quando o secretário paulista da Cultura, José Mindlin, pediu a ele que checasse junto aos militares sobre a ficha do jornalista, suspeito de ser comunista.

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“’Esse indivíduo está sendo acusado pela imprensa marrom de ser comunista’ (dizia Mindlin). Eu não tinha ideia, o jornal da Cultura deveria ter 0.001% de audiência. Eu não sabia quem era (Herzog). (…) Mindlin pediu que eu investigasse, ‘isso aqui tá causando incômodo e preciso que você verifique se procede ou não’. Então desci instruções específicas querendo informações do serviço secreto do Exército, da Marinha, Aeronáutica e SNI se alguma coisa constava. (…) Estava provado que não procedia.”

Herzog foi chamado para depor no DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) e de lá só saiu morto.”Maquiou-se um suicídio, não houve suicídio. Ele foi assassinado dentro das dependências do DOI-CODI na rua Tutóia, em São Paulo.”

Segundo Egydio, que foi governador nomeado pela ditadura entre 1975 e 1979, o pano de fundo da morte do jornalista era a briga entre as duas facções de militares: a Linha Dura, da qual os principais artífices eram os generais Emílio Garrastazu Médici e Silvio Frota, entre outros, e a Linha Branda, que tinha como artífices o então presidente Gal. Ernesto Geisel e seu chefe da Casa Civil, o também general Golbery do Couto e Silva.

“Esse negócio (a morte de Vladimir Herzog) era uma armação, não estavam atrás de comunista, estavam querendo criar um incidente de natureza política. Era uma briga interna do Exército e nós civis não avaliamos. Era um embate de duas facções do Exército que disputavam o poder. Isso começar em 31 de março de 1964, se repetiu no AI-2 (que extinguiu as eleições diretas no País), que até hoje nunca foi devidamente estudado, e isso se repetiu no episódio de Herzog e do Manuel Fiel Filho.”

Manuel Fiel Filho era um metalúrgico que distribuía panfletos do Voz Operária, jornal do Partido Comunista, em portas de fábrica. Foi torturado e morto três meses também no DOI-CODI apenas três meses do incidente com Herzog, em janeiro de 1976. As duas mortes causaram a exoneração do chefe 2º Exército, Gal. Ednardo D´Avila – na prática, foi a única “demissão” de um general quatro estrelas da história recente do Brasil, e são consideradas marcos do início do fim da ditadura civil-militar, que teria fim definitivo somente com as eleições de 1989.

CartaCapital

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