O ESTADISTA
Perdeu ainda moleque a presença de um pai.
Perdeu o dedo mindinho.
Por rebuliço, quando reclamar salários era crime, perdeu a liberdade.
Perdeu a esposa.
Perdeu eleição em São Paulo.
Até pro Collor ele perdeu.
Efe Agá Cê lhe venceu duas vezes, sem nem mesmo carecer segundo turno.
Até que venceu. Aparou a barba, vestiu gravata e conversou com o dono da Gradiente. Escreveu carta ao deus Mercado. E venceu.
Líder de popularidade, venceu de novo.
E não satisfeito, venceu mais uma por tabela.
Venceria ainda outra indiretamente, até que perdeu. Perdemos.
Sim, foi Golpe.
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Perdeu a Marisa Letícia.
E o Golpe só estaria completo com ele de novo perdendo a liberdade.
Mas não o queriam preso. Queriam apenas que ele não ganhasse de novo.
Ofereceram-lhe abrigos em embaixadas. “Agradecido.”
Fuga para algum país amigo? “Não saio do Brasil.”
Coloque essa tornozeleira e volte pra casa. “Não sou pombo.”
E perdeu a liberdade por 580 dias.
Nesse ínterim, perde um neto de tenra idade.
E o Brasil passou a perder. Perdeu setecentos mil.
Perdeu a Ciência. Perdeu a Arte. Perdeu a soberania.
Na ONU, perdemos o respeito alheio.
Perdemos o amor e ganhamos armas.
Que hoje matam mulheres.
E os canalhas se fazem de sonso, culpando-o.
(canalhas! canalhas! canalhas!)
Mas ele venceu de novo. Dessa vez, a Injustiça.
E nos vingou vencendo o obscurantismo e o negacionismo.
Precisou vencer o mapa da fome.
E veio a Eleição. E de novo ele ganhou. Da milícia cínica. Da Pátria entreguista. Do Cristianismo do ódio. Da Família promíscua.
Ele não é grande só pelas vitórias.
Ele é grandioso porque muitas vezes perdeu.
Mas em todas as derrotas, aprendeu e aceitou com a resiliência que só homens de verdade conseguem ter.
Quando o pai lhe deixou e à família, não se rebelou.
Amadureceu.
Quando a máquina insalubre cortou seu dedo, ele pediu apenas um analgésico.
Quando Deus levou pra si entes queridos, não perguntou em desespero “por que eu? Por que comigo?”
Só pediu a Ele que, se pudesse, lhe emprestasse um pouco mais de força.
Quando preso a primeira vez, só reclamou um cigarro decente.
Na segunda, leu uma biblioteca.
Quando perdia as eleições, não reclamava das cédulas ou do código-fonte.
Suspirava fundo, balbuciava um puta-merda e desejava sorte ao oponente.
Quando por último perdeu o primeiro turno, sabia que não podia perder o próximo.
Não por ele, não por vaidade.
Mas pela democracia.
Democracia essa que que tanto lhe fez perder justa e injustamente.
(ainda a de cobrar de Deus, em franca conversa molhada à aguardente, a derrota para o Collor e a perda do neto.)
Mas essa mesma democracia, que à sua revelia, lhe faz o maior estadista deste século.
*Delmar Bertuol é professor de história
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