Delmar Bertuol
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Colunistas 29/Out/2026 às 16:10 COMENTÁRIOS
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O ESTADISTA

Delmar Bertuol Delmar Bertuol
Publicado em 29 Out, 2026 às 16h10
São Paulo (SP), 24/10/2026 - Presidente Lula encerra campanha das Eleições 2026 com caminhada na avenida Paulista. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil
Delmar Bertuol*, Pragmatismo Político

Perdeu ainda moleque a presença de um pai.

Perdeu o dedo mindinho.

Por rebuliço, quando reclamar salários era crime, perdeu a liberdade.

Perdeu a esposa.

Perdeu eleição em São Paulo.

Até pro Collor ele perdeu.

Efe Agá Cê lhe venceu duas vezes, sem nem mesmo carecer segundo turno.

Até que venceu. Aparou a barba, vestiu gravata e conversou com o dono da Gradiente. Escreveu carta ao deus Mercado. E venceu.

Líder de popularidade, venceu de novo.

E não satisfeito, venceu mais uma por tabela.

Venceria ainda outra indiretamente, até que perdeu. Perdemos.

Sim, foi Golpe.

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Perdeu a Marisa Letícia.

E o Golpe só estaria completo com ele de novo perdendo a liberdade.

Mas não o queriam preso. Queriam apenas que ele não ganhasse de novo.

Ofereceram-lhe abrigos em embaixadas. “Agradecido.”

Fuga para algum país amigo? “Não saio do Brasil.”

Coloque essa tornozeleira e volte pra casa. “Não sou pombo.”

E perdeu a liberdade por 580 dias.

Nesse ínterim, perde um neto de tenra idade.

E o Brasil passou a perder. Perdeu setecentos mil.

Perdeu a Ciência. Perdeu a Arte. Perdeu a soberania.

Na ONU, perdemos o respeito alheio.

Perdemos o amor e ganhamos armas.

Que hoje matam mulheres.

E os canalhas se fazem de sonso, culpando-o.

(canalhas! canalhas! canalhas!)

Mas ele venceu de novo. Dessa vez, a Injustiça.

E nos vingou vencendo o obscurantismo e o negacionismo.

Precisou vencer o mapa da fome.

E veio a Eleição. E de novo ele ganhou. Da milícia cínica. Da Pátria entreguista. Do Cristianismo do ódio. Da Família promíscua.

Ele não é grande só pelas vitórias.

Ele é grandioso porque muitas vezes perdeu.

Mas em todas as derrotas, aprendeu e aceitou com a resiliência que só homens de verdade conseguem ter.

Quando o pai lhe deixou e à família, não se rebelou.

Amadureceu.

Quando a máquina insalubre cortou seu dedo, ele pediu apenas um analgésico.

Quando Deus levou pra si entes queridos, não perguntou em desespero “por que eu? Por que comigo?”

Só pediu a Ele que, se pudesse, lhe emprestasse um pouco mais de força.

Quando preso a primeira vez, só reclamou um cigarro decente.

Na segunda, leu uma biblioteca.

Quando perdia as eleições, não reclamava das cédulas ou do código-fonte.

Suspirava fundo, balbuciava um puta-merda e desejava sorte ao oponente.

Quando por último perdeu o primeiro turno, sabia que não podia perder o próximo.

Não por ele, não por vaidade.

Mas pela democracia.

Democracia essa que que tanto lhe fez perder justa e injustamente.

(ainda a de cobrar de Deus, em franca conversa molhada à aguardente, a derrota para o Collor e a perda do neto.)

Mas essa mesma democracia, que à sua revelia, lhe faz o maior estadista deste século.

*Delmar Bertuol é professor de história

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