Flávio, Tarcísio e aliados espalham fake news sobre ato de Lula; TSE aponta grave manipulação

A disseminação de notícias falsas durante as eleições de 2026 deixou de ser um fenômeno restrito a perfis anônimos e páginas obscuras da internet. Deputados federais, parlamentares estaduais, influenciadores ligados à campanha presidencial e até o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, participaram da divulgação de um vídeo enganoso para atacar a manifestação de apoiadores de Lula na Avenida Paulista. A gravação, que apresentava uma mulher aparentemente consumindo uma substância pelo nariz, foi utilizada para associar os participantes do ato ao uso de drogas. O problema é que as imagens já circulavam na internet antes da manifestação acontecer.
O material foi compartilhado por integrantes do campo bolsonarista e chegou ao canal oficial de WhatsApp da campanha de Flávio Bolsonaro, a Tropa do Flávio. Nesta segunda-feira (12), o Tribunal Superior Eleitoral determinou a retirada de publicações relacionadas ao episódio. O ministro Marco Aurélio Bellizze identificou indícios de grave manipulação por descontextualização. O caso expõe uma contradição particularmente séria. Enquanto a campanha bolsonarista recorre à Justiça para tentar restringir canais de comunicação adversários sob acusações de desinformação, integrantes de sua própria estrutura política ajudam a colocar em circulação conteúdos comprovadamente enganosos.
Não são perfis anônimos. São autoridades eleitas e lideranças políticas
Um dos aspectos mais preocupantes desse episódio é a posição ocupada por quem participou da divulgação do material.
Não estamos falando apenas de usuários comuns que receberam um vídeo pelo WhatsApp e o encaminharam sem verificar sua procedência. Estamos falando de políticos profissionais, representantes eleitos, autoridades públicas e integrantes de uma campanha presidencial que dispõe de equipes de comunicação, assessorias e instrumentos para conferir a autenticidade das informações antes de divulgá-las.
A campanha de Lula citou em sua representação nomes como Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, Rony Gabriel e Pablo Marçal. O governador Tarcísio de Freitas também compartilhou o vídeo, embora não figurasse entre os alvos identificados na ação.
São personagens com ampla experiência na utilização das redes sociais e profundo conhecimento do alcance de suas publicações.
Não é razoável tratar a circulação desse material como se fosse apenas um equívoco irrelevante de comunicação.
Quando uma autoridade compartilha uma gravação para acusar adversários políticos de comportamentos moralmente condenáveis, assume a responsabilidade pública de verificar se aquilo realmente aconteceu.
Essa obrigação se torna ainda mais evidente quando o vídeo é utilizado para atacar uma manifestação com milhares de participantes.
O desmentido já existia. Por que a mentira continuou circulando?
A agência Aos Fatos publicou, às 13h09 desta segunda-feira (12), uma checagem demonstrando que a gravação já havia aparecido em perfis estrangeiros no sábado (10), antes do ato na Avenida Paulista.
A agência Lupa também confirmou a circulação anterior das imagens.
A constatação derrubou o elemento central da narrativa bolsonarista. A mulher filmada não estava sendo registrada naquele momento durante a manifestação de Lula.
Nem sequer foi possível identificar com segurança qual substância aparecia nas imagens.
Ainda assim, segundo o material reunido na representação, Tarcísio divulgou a gravação depois da publicação do desmentido, utilizando-a para estabelecer uma comparação depreciativa entre apoiadores da direita e participantes do ato petista.
A cronologia torna o episódio ainda mais grave.
Não há prova de que todos os responsáveis pelas publicações soubessem da falsidade do conteúdo antes de compartilhá-lo. Mas, uma vez disponibilizada uma checagem pública, a manutenção ou a reprodução da acusação exige explicações.
O mínimo esperado de uma autoridade pública diante de uma informação comprovadamente descontextualizada é corrigir o conteúdo, esclarecer o erro e evitar que a acusação continue alcançando novos públicos.
Quando isso não acontece, a questão deixa de ser apenas a origem da mentira e passa a envolver a responsabilidade de quem contribui para sua permanência no debate público.
A fabricação de uma imagem moral do adversário
O vídeo não foi utilizado para discutir uma proposta de governo ou contestar uma declaração de Lula.
Sua função na narrativa eleitoral era outra.
Ao apresentar uma cena sem relação comprovada com a manifestação, os responsáveis pelas publicações procuraram associar os participantes do ato ao consumo de drogas, à desordem e à falta de civilidade.
É uma maneira de transformar adversários políticos em pessoas supostamente inferiores do ponto de vista moral.
Nesse tipo de comunicação, não é necessário demonstrar que determinado programa econômico está errado ou que uma política pública produziu resultados negativos.
Basta oferecer ao público uma imagem impactante, acompanhada de uma legenda acusatória, para estimular indignação e rejeição.
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O método é especialmente eficaz nas redes sociais, onde vídeos curtos circulam rapidamente e muitas vezes são consumidos sem qualquer verificação.
A mentira pode alcançar milhões de pessoas antes que a correção seja publicada.
E, mesmo depois do desmentido, a impressão inicial pode permanecer.
Quem exige punição por fake news precisa responder pelas próprias publicações
A contradição se torna ainda mais evidente quando o episódio é confrontado com a tentativa de suspensão do canal Exército do Lula.
No domingo (11), Kassio Nunes Marques determinou a interrupção de um canal de WhatsApp acompanhado por mais de 3 milhões de pessoas, atendendo a um pedido da campanha de Flávio Bolsonaro.
A decisão foi revertida horas depois pelo corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva.
No dia seguinte, técnicos do próprio TSE informaram que não haviam encontrado, no período analisado, os conteúdos falsos específicos apontados pela campanha bolsonarista.
Saiba mais: TSE não encontra fake news em canal pró-Lula após Kassio suspender página a pedido de Flávio
Enquanto isso, o canal oficial Tropa do Flávio havia divulgado uma gravação comprovadamente descontextualizada para atacar o ato da Paulista.
A comparação não significa que os dois processos sejam juridicamente idênticos.
Mas evidencia a necessidade de coerência.
Não é aceitável transformar o combate à desinformação em uma exigência rigorosa apenas para os adversários, enquanto conteúdos enganosos difundidos pelo próprio campo político são tratados como erros menores.
A Justiça Eleitoral precisa examinar cada conduta segundo as provas disponíveis, sem distinção partidária.
E os eleitores têm o direito de cobrar dos candidatos o mesmo padrão de responsabilidade que eles exigem dos outros.
A democracia não pode tratar a mentira deliberada como estratégia normal de campanha
A gravidade do episódio não se resume à imagem de uma mulher em um vídeo.
O que está em discussão é a disposição de lideranças políticas de utilizar conteúdos sem relação com os fatos para comprometer a reputação de adversários e de cidadãos comuns.
A crítica política pode ser dura, irônica e contundente. Pode questionar governos, denunciar irregularidades e confrontar ideias.
Mas há uma diferença entre criticar um acontecimento real e inventar, por meio de imagens descontextualizadas, um acontecimento que não existiu.
Essa diferença precisa continuar sendo reconhecida, sobretudo por quem ocupa cargos públicos.
Quando deputados, governadores e integrantes de campanhas presidenciais ajudam a disseminar informações enganosas, o problema deixa de ser apenas a existência de fake news na internet.
Passa a ser a utilização da autoridade política para ampliar sua credibilidade e seu alcance.
A responsabilização não pode depender da identidade partidária de quem divulga o conteúdo.
Se a democracia exige que o cidadão responda por suas condutas, exige ainda mais responsabilidade daqueles que receberam votos, exercem mandatos e dispõem de estruturas profissionais de comunicação.
O episódio da Avenida Paulista demonstra por que o combate à desinformação não pode ser seletivo. E por que a mentira, quando utilizada como instrumento de disputa pelo poder, precisa ser confrontada com fatos, transparência e responsabilização.
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