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ELEIÇÕES 2026 12/Out/2026 às 17:49 COMENTÁRIOS
ELEIÇÕES 2026

Armas, chicotes e referências ao nazismo: o que a extrema direita revelou após o primeiro turno

Publicado em 12 Out, 2026 às 17h49

Armas, chicotes e referências ao nazismo após o primeiro turno reacendem debate sobre violência política, autoritarismo e democracia no Brasil

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Criança segurando objeto que parece ser uma arma de fogo

Uma criança de 9 anos exibindo um objeto semelhante a uma arma, uma deputada comemorando a vitória com um chicote e um parlamentar comparando a reação da direita à ascensão do nazismo. Os episódios registrados após as eleições de 4 de outubro reacenderam uma discussão sobre violência simbólica, memória histórica e os riscos da naturalização do autoritarismo no Brasil.

O primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 foi seguido por cenas e declarações que provocaram indignação e questionamentos sobre os valores disseminados por setores da extrema direita brasileira. Em diferentes estados, episódios envolvendo armas, instrumentos associados à violência e referências ao nazismo passaram a ocupar o debate público, justamente quando o país se prepara para decidir quem ocupará a Presidência da República pelos próximos quatro anos.

Embora tenham ocorrido em contextos distintos, os acontecimentos compartilham uma característica importante. Todos colocaram a violência, ou sua representação simbólica, no centro de manifestações políticas.

Isso não significa que seus protagonistas tenham necessariamente defendido a prática de violência ou que os episódios integrem uma ação coordenada. Mas a repetição dessas imagens e discursos oferece elementos para examinar como determinadas formas de intimidação, agressividade e autoritarismo podem ser normalizadas na vida pública.

Criança de 9 anos aparece com objeto semelhante a arma em comemoração bolsonarista

Na noite de domingo, 4 de outubro, enquanto apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL) comemoravam o resultado do primeiro turno em Parnamirim, na Região Metropolitana de Natal, uma criança de 9 anos foi filmada sobre um automóvel segurando um objeto semelhante a uma arma de fogo.

Vestido com uma camiseta verde e amarela, o menino dançava enquanto adultos acompanhavam a celebração.


As imagens circularam nas redes sociais e provocaram preocupação com a exposição da criança e com a possibilidade de o objeto ser confundido com uma arma verdadeira.

O pai afirmou que se tratava de um brinquedo. Até a divulgação das informações sobre a investigação, não havia confirmação oficial de que fosse uma arma real.

A mãe soube do episódio por meio dos vídeos compartilhados na internet e procurou as autoridades.

O Conselho Tutelar foi acionado. A Polícia Civil e o Ministério Público do Rio Grande do Norte também passaram a apurar as circunstâncias do caso.

A investigação busca esclarecer a natureza do objeto, as responsabilidades dos adultos envolvidos e a eventual exposição da criança a uma situação de risco.

A distinção entre uma arma verdadeira e um brinquedo é juridicamente importante. Entretanto, a preocupação com a proteção da infância não depende exclusivamente dessa resposta.

Uma criança exibindo um objeto que simula uma arma, em meio a uma comemoração política e diante de adultos, pode ser exposta a riscos que ultrapassam a intenção declarada pelos responsáveis.

O próprio Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece a prioridade absoluta da proteção de crianças e adolescentes.

O episódio também suscita uma reflexão sobre o tipo de comportamento que os adultos transformam em exemplo público.

Quando a arma se transforma em símbolo de identidade política

A associação entre armas de fogo e a comunicação política não surgiu nas eleições de 2026.

Durante a trajetória do bolsonarismo, gestos que simulam disparos e manifestações públicas favoráveis à ampliação do acesso a armamentos foram utilizados como elementos de identificação entre lideranças e apoiadores.

Jair Bolsonaro fez da flexibilização das regras sobre armas uma de suas principais bandeiras políticas.

O debate sobre o direito à posse e ao porte de armas é legítimo em uma democracia. Há diferentes posições sobre segurança pública, autodefesa e regulação estatal.

Mas existe uma diferença entre discutir uma política pública e transformar a representação de uma arma em símbolo de celebração, pertencimento ou superioridade política.

Quando crianças passam a reproduzir essa linguagem, a questão deixa de envolver apenas a liberdade de expressão dos adultos.

Passa também a envolver a responsabilidade de proteger pessoas em desenvolvimento da exposição a riscos e da associação entre reconhecimento social e demonstrações de força.

O caso de Parnamirim não autoriza concluir que a criança tenha cometido qualquer infração ou que compreendesse plenamente o significado político da cena.

A responsabilidade pelo ambiente em que ela foi colocada deve ser examinada em relação aos adultos.

Júlia Zanatta comemora reeleição com um chicote

Também no domingo (4), a deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC) comemorou sua reeleição exibindo um chicote, conhecido regionalmente como relho.

A parlamentar recebeu 560.223 votos e alcançou a maior votação já registrada para a Câmara dos Deputados em Santa Catarina.

Durante a celebração, percorreu ruas de Florianópolis acompanhada de apoiadores, levando um microfone em uma das mãos e o chicote na outra.

Em imagens divulgadas nas redes sociais, a deputada aparece golpeando o asfalto com o objeto.

A cena provocou críticas pelo simbolismo associado ao chicote, instrumento historicamente utilizado para castigar, intimidar e submeter pessoas.

No Brasil, o objeto remete especialmente à violência da escravidão, período em que castigos físicos integravam um sistema de exploração sustentado pelo Estado e pelas elites econômicas.

Zanatta apresentou outra explicação.

Segundo a parlamentar, o relho fazia referência a uma expressão regional utilizada para descrever uma vitória expressiva, equivalente a vencer de maneira esmagadora.

Ela classificou a comemoração como uma brincadeira simbólica e negou que o gesto tivesse a intenção de ameaçar alguém.

Sua justificativa deve ser considerada. Não há demonstração de que a deputada pretendesse fazer apologia à escravidão ou intimidar adversários com o objeto.

Mas o significado público de um símbolo não se limita à intenção declarada por quem o utiliza.

Em uma sociedade marcada por séculos de escravidão e violência política, a imagem de uma representante eleita celebrando sua vitória com um chicote inevitavelmente desperta interpretações que ultrapassam uma expressão regional.

A controvérsia evidencia como símbolos podem carregar memórias históricas diferentes para grupos distintos da população.

O histórico de imagens com armas na trajetória da deputada

A controvérsia envolvendo Zanatta também recuperou episódios anteriores de sua atuação pública.

Em 2023, a deputada divulgou uma fotografia na qual aparecia segurando uma arma de fogo e usando uma camiseta com uma ilustração que sugeria disparos contra uma mão associada ao presidente Lula.

A publicação provocou críticas e questionamentos sobre a utilização de imagens violentas no debate político.

A parlamentar rejeitou interpretações que associavam sua imagem à defesa de agressões contra o presidente.

Outra fotografia, na qual aparecia com uma tiara de flores e uma arma, também foi objeto de controvérsias e acusações de associação com símbolos extremistas, rejeitadas por Zanatta.

É necessário distinguir essas acusações dos fatos demonstrados. O uso de uma tiara, isoladamente, não comprova qualquer identificação com o nazismo ou com organizações extremistas.

O aspecto relevante para a discussão é a recorrência de armas e objetos associados à força em imagens de comunicação política.

Essa linguagem não é exclusiva de uma única parlamentar, mas sua presença entre representantes eleitos merece ser examinada porque contribui para definir os padrões de comportamento aceitos no espaço público.

Cabo Gilberto compara reação da direita à ascensão do nazismo

Na segunda-feira (5), outro episódio ampliou a discussão.

Reeleito deputado federal pela Paraíba com 267.142 votos, Cabo Gilberto Silva (PL-PB) concedeu entrevista à Rádio Arapuan, em João Pessoa, na qual utilizou a ascensão do nazismo na Alemanha como referência para explicar o fortalecimento eleitoral da direita brasileira.

O parlamentar afirmou que a atuação do Supremo Tribunal Federal, especialmente as punições relacionadas à tentativa de golpe de Estado, estaria produzindo um sentimento de humilhação entre apoiadores de Jair Bolsonaro.

Para desenvolver seu argumento, mencionou o tratamento imposto à Alemanha após a Primeira Guerra Mundial e o ressentimento que teria favorecido o crescimento de Adolf Hitler.

Cabo Gilberto também defendeu o impeachment do ministro Alexandre de Moraes.

Questionado pelo jornalista Luís Torres sobre a comparação, negou estar equiparando Jair Bolsonaro a Hitler.

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Segundo o deputado, sua intenção era utilizar um exemplo histórico para demonstrar que situações de humilhação e ressentimento poderiam provocar reações políticas.

A declaração, contudo, recebeu críticas pela maneira como apresentou a ascensão do nazismo e por estabelecer uma analogia entre a responsabilização judicial de envolvidos em uma tentativa de golpe e o contexto histórico alemão.

O problema não está em estudar o nazismo ou recorrer a comparações históricas. Está no risco de utilizar uma explicação simplificada de sua ascensão para justificar politicamente sentimentos de revanche contra instituições democráticas.

O que realmente levou Hitler ao poder

A ascensão do nazismo não pode ser explicada apenas pelo Tratado de Versalhes, assinado em 1919 após a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial.

O acordo impôs perdas territoriais, limitações militares e obrigações econômicas à Alemanha, contribuindo para o ressentimento nacionalista.

Entretanto, o nazismo resultou de uma combinação muito mais complexa de fatores.

A República de Weimar enfrentou instabilidade política, conflitos sociais, tentativas de ruptura institucional e dificuldades econômicas.

A crise mundial iniciada em 1929 agravou drasticamente o desemprego e a pobreza, ampliando o espaço para movimentos extremistas.

Ao mesmo tempo, os nazistas organizaram campanhas de propaganda, exploraram o antissemitismo, estimularam o ultranacionalismo e utilizaram a violência contra adversários políticos.

O Partido Nazista obteve apenas 2,6% dos votos nas eleições de 1928, embora o Tratado de Versalhes estivesse em vigor havia quase uma década.

Seu crescimento eleitoral mais expressivo ocorreu depois do agravamento da crise econômica.

Hitler também não chegou ao poder simplesmente por vencer uma eleição presidencial.

Em janeiro de 1933, foi nomeado chanceler pelo presidente Paul von Hindenburg, em meio a negociações entre setores conservadores que acreditavam ser possível controlá-lo.

A partir do governo, os nazistas utilizaram mecanismos institucionais, violência política e medidas de exceção para destruir progressivamente a democracia alemã.

O incêndio do Reichstag, a suspensão de direitos fundamentais e a aprovação da Lei de Plenos Poderes foram etapas decisivas desse processo.

A lição histórica é que uma democracia pode ser enfraquecida não apenas por um golpe militar clássico, mas também pela combinação de apoio popular, colaboração de elites políticas e utilização das próprias instituições contra o pluralismo.

Historiador rebate comparação e alerta contra simplificação

O professor Emilio Figueiredo, mestre em Ensino de História, contestou a interpretação apresentada por Cabo Gilberto.

Em sua análise, explicou que o ressentimento provocado pelo Tratado de Versalhes foi um dos elementos do contexto alemão, mas não pode ser tratado como causa suficiente da ascensão de Hitler.

O historiador destacou a importância da crise de 1929, da instabilidade institucional, da propaganda extremista, do antissemitismo e da violência política.

Também lembrou que os nazistas não chegaram ao governo como resultado automático de uma reação popular à humilhação nacional.

A chegada de Hitler ao poder envolveu decisões de lideranças políticas e setores conservadores que contribuíram para abrir espaço ao movimento nazista.

A crítica de Figueiredo aponta para um problema recorrente no debate contemporâneo. Analogias históricas podem ser úteis, mas tornam-se perigosas quando reduzem processos complexos a explicações destinadas apenas a confirmar posições políticas previamente assumidas.

A história do nazismo não deve ser utilizada como metáfora superficial para qualquer conflito entre um grupo político e o Poder Judiciário.

Ela exige o reconhecimento de elementos centrais, como racismo de Estado, antissemitismo, perseguição sistemática a opositores, violência organizada e destruição das instituições democráticas.

O fascismo não começou com campos de concentração

A experiência europeia do século XX demonstra que regimes fascistas não surgiram imediatamente com todas as estruturas de repressão que depois os caracterizariam.

Antes da consolidação das ditaduras, houve a disseminação de discursos que apresentavam adversários como inimigos da nação, estimulavam ressentimentos coletivos e deslegitimavam instituições democráticas.

Na Itália, o movimento liderado por Benito Mussolini utilizou grupos paramilitares para atacar sindicatos, organizações de trabalhadores e adversários políticos.

Na Alemanha, a propaganda nazista combinou promessas de restauração nacional com perseguição a minorias, teorias conspiratórias e violência contra opositores.

Esses movimentos se fortaleceram também porque setores influentes da sociedade passaram a acreditar que poderiam utilizá-los para atingir objetivos políticos e econômicos.

A história, portanto, não recomenda procurar apenas símbolos explícitos do nazismo para identificar riscos autoritários.

É necessário observar também discursos que justificam a violência, normalizam a perseguição política ou tratam direitos fundamentais como obstáculos à vontade de determinados líderes.

Isso não significa equiparar automaticamente os episódios brasileiros de outubro de 2026 aos acontecimentos que levaram ao fascismo europeu.

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As diferenças históricas, institucionais e sociais são profundas.

Mas a experiência do século XX oferece critérios para examinar práticas contemporâneas e compreender por que a preservação da democracia exige vigilância constante.

O autoritarismo brasileiro possui sua própria história

O Brasil não precisa recorrer apenas à experiência europeia para compreender os riscos da violência política.

A escravidão, a repressão a movimentos populares, o Estado Novo e a ditadura militar deixaram marcas profundas na formação do país.

Durante o regime instaurado em 1964, opositores foram perseguidos, organizações políticas sofreram intervenção e cidadãos foram presos, torturados e assassinados por agentes do Estado.

A censura também foi utilizada para impedir a circulação de denúncias e restringir a atividade jornalística e artística.

A redemocratização representou uma ruptura com esse modelo, mas não eliminou automaticamente práticas autoritárias da cultura política brasileira.

A permanência de discursos que exaltam a violência, desprezam direitos humanos ou apresentam adversários como inimigos continua sendo motivo de preocupação.

Os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 demonstraram que a rejeição aos resultados eleitorais pode ultrapassar o discurso e assumir a forma de ataques concretos às instituições.

Por isso, o debate sobre a extrema direita brasileira não deve se limitar à identificação de símbolos ou frases isoladas.

É necessário examinar propostas de governo, alianças políticas, posições sobre direitos fundamentais e a relação das lideranças com a democracia constitucional.

Maria Gadú oferece resposta sobre o significado da democracia

Em meio a esse ambiente político, uma manifestação da cantora Maria Gadú ganhou repercussão.

Durante um show, a artista foi vaiada por um espectador após se posicionar em defesa da democracia.

Em vez de pedir que o homem fosse silenciado, Gadú respondeu que lutava justamente para garantir seu direito de discordar sem sofrer ameaças.

A cantora afirmou que defender a democracia significa assegurar que pessoas com opiniões diferentes possam se manifestar livremente.

Sua resposta apresentou uma distinção essencial entre divergência política e intimidação.

Discordar de um artista, de um jornalista ou de um governante faz parte da vida democrática.

Ameaçar, perseguir ou tentar impedir alguém de se manifestar é outra coisa.

A democracia não exige unanimidade. Exige regras que permitam a convivência entre pessoas que discordam profundamente umas das outras.

O que está em jogo na normalização da violência

Os episódios registrados após o primeiro turno não demonstram, isoladamente, a existência de um projeto coordenado de violência política.

Uma criança segurando um objeto semelhante a uma arma, uma deputada comemorando uma eleição com um chicote e um parlamentar recorrendo à história do nazismo são acontecimentos distintos, com circunstâncias e responsabilidades próprias.

Mas todos provocam perguntas importantes sobre a linguagem política que o Brasil está disposto a aceitar.

Que mensagem é transmitida quando objetos associados à violência se tornam elementos de celebração eleitoral?

Quais são os riscos de apresentar o ressentimento contra instituições democráticas como justificativa histórica para movimentos políticos radicais?

E como impedir que a repetição dessas imagens reduza a capacidade da sociedade de reconhecer comportamentos autoritários?

A resposta não está em proibir toda manifestação controversa ou tratar todos os eleitores de um campo político como defensores da violência.

Está em exigir responsabilidade de representantes públicos, proteger crianças, valorizar o conhecimento histórico e preservar as garantias democráticas.

O futuro do Brasil não será definido apenas pelos resultados econômicos ou pelas promessas apresentadas na campanha presidencial.

Também dependerá da maneira como o poder político será exercido, de como as instituições serão tratadas e de quais direitos permanecerão protegidos, inclusive para aqueles que discordam dos governantes.

A história mostra que o autoritarismo se fortalece quando a violência passa a ser considerada normal e a democracia deixa de ser vista como um compromisso coletivo.

É por isso que a resposta de Maria Gadú tem significado especial neste momento. O direito de discordar não é uma concessão do vencedor de uma eleição. É uma garantia que precisa existir para todos, independentemente de quem esteja no poder.

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