Mãe de Eduarda Campopiano é beneficiária de programa assistencial há 8 anos, mas deputada se elegeu criticando políticas sociais
Mãe de Eduarda Campopiano recebe BPC desde 2019 e já recebeu R$ 113 mil. Entenda os critérios do benefício e a repercussão política do caso

A mãe de Eduarda Campopiano (PL), deputada estadual eleita mais votada de São Paulo, recebe um benefício assistencial do governo federal desde janeiro de 2019. A revelação, publicada neste sábado (10), chama atenção pelo contraste com o discurso político da parlamentar, que ganhou projeção nacional com críticas a políticas sociais voltadas a mulheres e minorias. Segundo dados do Portal da Transparência divulgados pela imprensa, Débora Campopiano recebeu mais de R$ 113 mil em pagamentos do Benefício de Prestação Continuada (BPC).
A informação foi revelada pela coluna de Lauro Jardim, em O Globo, e detalhada por veículos como UOL e Terra.
O caso levanta questionamentos sobre o discurso político da deputada eleita, mas não constitui, por si só, evidência de irregularidade no recebimento do benefício pela mãe.
Benefício é pago desde janeiro de 2019
Débora Campopiano, de 59 anos, é artesã e recebe o Benefício de Prestação Continuada, conhecido como BPC, pago pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Segundo levantamento do Terra, baseado em registros do Portal da Transparência da Controladoria-Geral da União (CGU), os pagamentos feitos a Débora somaram R$ 113.129,16 entre janeiro de 2019 e agosto de 2026.
O último pagamento disponível na consulta era de R$ 1.621, equivalente ao salário mínimo vigente em 2026.
O histórico consultado também apresenta alterações nos valores pagos durante a pandemia de covid-19, período em que foram adotadas medidas excepcionais relacionadas aos benefícios assistenciais.
A documentação permite confirmar a existência dos pagamentos no período analisado, mas não esclarece todas as condições consideradas pelo INSS para a concessão e manutenção do benefício.
Quem tem direito ao BPC?
O Benefício de Prestação Continuada está previsto na Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) e garante um salário mínimo mensal a pessoas que atendam aos requisitos legais.
O programa contempla dois grupos principais.
O primeiro é formado por idosos com 65 anos ou mais que se enquadrem nos critérios socioeconômicos.
O segundo é composto por pessoas com deficiência de qualquer idade, desde que atendam aos requisitos de impedimento de longo prazo e vulnerabilidade econômica.
O BPC não é uma aposentadoria. Trata-se de um benefício assistencial que não exige contribuições prévias ao INSS.
Como Débora Campopiano tem 59 anos, ela não se enquadra na modalidade destinada a idosos.
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Seu eventual enquadramento legal, portanto, depende das regras aplicáveis às pessoas com deficiência.
As reportagens publicadas até 10 de outubro não esclarecem se Débora possui uma condição de saúde ou deficiência que justifique a concessão.
A ausência dessa informação não permite concluir que o benefício tenha sido concedido indevidamente.
Mãe da deputada vende cursos de artesanato
Além de receber o BPC, Débora Campopiano mantém atividades relacionadas ao artesanato.
Segundo as reportagens, ela possui um perfil no Instagram com mais de 28 mil seguidores, utilizado para divulgar trabalhos manuais e cursos de confecção de bonecas artesanais.
A existência dessa atividade chamou atenção porque o BPC está sujeito a critérios de renda e, na modalidade destinada a pessoas com deficiência, a regras específicas relacionadas ao exercício de atividade remunerada.
Entretanto, a divulgação de produtos ou cursos na internet não comprova, isoladamente, a existência de renda incompatível com o benefício.
Para avaliar a regularidade dos pagamentos, seria necessário conhecer a situação cadastral da beneficiária, sua eventual renda, a composição do grupo familiar e as condições consideradas pelo INSS.
Essas informações não foram integralmente apresentadas nas reportagens.
Portanto, não há elementos suficientes para afirmar que Débora tenha cometido fraude ou recebido recursos públicos de maneira irregular.
Salário de Eduarda também gera questionamentos
Outro aspecto abordado pela imprensa envolve a remuneração de Eduarda Campopiano como vereadora de Praia Grande, no litoral paulista.
Eleita para o cargo municipal em 2024, Eduarda passou a receber remuneração parlamentar em 2025.
Segundo informações publicadas pelo UOL, o salário da vereadora ultrapassa R$ 15 mil mensais.
A existência dessa remuneração pode ser relevante para a análise do BPC caso mãe e filha integrem o mesmo grupo familiar considerado pela legislação assistencial.
Isso, porém, depende de condições específicas.
A renda de uma filha adulta não é automaticamente incorporada ao cálculo do benefício da mãe apenas porque existe parentesco.
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É necessário verificar, entre outros fatores, se ambas residem no mesmo domicílio e se integram o grupo familiar definido pelas regras do programa.
As informações divulgadas não permitem estabelecer essas circunstâncias.
Por isso, também não é possível concluir que a remuneração parlamentar de Eduarda tenha tornado irregular o recebimento do benefício por Débora.
O contraste com o discurso político da deputada
A revelação ganhou repercussão principalmente pela trajetória política de Eduarda Campopiano.
A parlamentar, de 23 anos, foi eleita deputada estadual por São Paulo com aproximadamente 1,9 milhão de votos, tornando-se a candidata mais votada para a Assembleia Legislativa paulista.
Sua campanha teve forte presença nas redes sociais e destacou pautas conservadoras, especialmente críticas ao feminismo, às cotas raciais e a políticas públicas direcionadas a determinados grupos sociais.
Em entrevistas concedidas após a eleição, Eduarda afirmou que pretende concentrar sua atuação no enfrentamento de pautas que identifica com movimentos progressistas.
O fato de sua mãe receber um benefício assistencial federal passou a ser apontado como uma contradição por críticos da deputada.
Entretanto, é importante distinguir a oposição a determinadas políticas sociais da rejeição a todos os programas de assistência.
As posições públicas conhecidas de Eduarda não demonstram, necessariamente, que ela tenha defendido a extinção do BPC.
O contraste político está na existência de uma proteção social importante dentro de sua própria família, enquanto sua atuação pública inclui críticas a políticas destinadas a grupos vulneráveis.
A importância do BPC para milhões de brasileiros
O Benefício de Prestação Continuada integra a rede de proteção social brasileira e representa uma fonte essencial de renda para idosos e pessoas com deficiência em situação de vulnerabilidade.
O pagamento mensal de um salário mínimo permite que beneficiários tenham recursos para despesas básicas, como alimentação, medicamentos, transporte e moradia.
A assistência social não depende de uma posição partidária ou ideológica.
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Seu acesso deve observar critérios legais e administrativos aplicáveis a todos os cidadãos.
O caso da família Campopiano ajuda a ilustrar como políticas públicas frequentemente alcançam pessoas de diferentes origens e posições políticas.
Também demonstra a importância de discutir esses programas a partir de seus objetivos, critérios de acesso e mecanismos de fiscalização, sem transformar o simples recebimento de um benefício em suspeita de irregularidade.
O que ainda precisa ser esclarecido?
As reportagens publicadas em 10 de outubro apresentam informações documentais sobre os pagamentos, mas deixam questões importantes em aberto.
Não foram esclarecidas as condições que fundamentaram a concessão do BPC a Débora, a composição de sua renda familiar nem a eventual existência de rendimentos decorrentes das atividades de artesanato.
Segundo o UOL, a assessoria de Eduarda Campopiano não respondeu aos questionamentos encaminhados até a publicação da reportagem.
A deputada e sua mãe têm direito de apresentar esclarecimentos sobre os fatos divulgados, assim como deve ser preservada a privacidade de eventuais informações médicas.
O recebimento de um benefício assistencial não representa qualquer infração quando os requisitos legais são cumpridos.
A discussão pública, portanto, envolve duas questões distintas.
A primeira é administrativa e depende de informações capazes de demonstrar a regularidade da concessão e manutenção do BPC.
A segunda é política e diz respeito à relação entre o discurso de representantes eleitos e a importância concreta das políticas sociais na vida das famílias brasileiras.
O episódio reforça que programas de assistência devem ser avaliados com base em dados, critérios legais e seus efeitos sobre a população, e não apenas pelas disputas ideológicas que os cercam.
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