Denis Castilho
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Colunistas 27/Set/2026 às 13:50 COMENTÁRIOS
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BETS: o jogo continua

Denis Castilho Denis Castilho
Publicado em 27 Set, 2026 às 13h50

Imagem: gembla.net

Denis Castilho*, Pragmatismo Político

O que explica o desespero de certos setores e de candidatos da extrema direita diante da acertada decisão contra as bets? Tomada poucos dias antes do primeiro turno, essa decisão, tida por esses mesmos setores como eleitoreira, foi uma jogada calculada, embora arriscada. Ocorre que, se a decisão fosse tomada fora do contexto quente das eleições, a turma do Congresso alinhada às bets, teria tempo para reagir. Jogar no tempo certo, neste caso, diz tudo porque a arena não é exatamente aquela utilizada pelas bets, programada para sugar o dinheiro das famílias, em um circuito no qual os bancos também lucram muito com empréstimos a juros altos.
É preciso reiterar que a legalização ocorreu em 2018 com Temer. Entre 2019 e 2022, no governo seguinte, houve uma explosão das bets sem qualquer regulamentação específica no país. O nome disso é conivência implícita ou explícita? Nesse jogo, há quem atue nos bastidores. Publicamente, se dizem contra as bets, mas, na surdina, atuam a favor delas.

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A complexa relação de poder em torno dessas plataformas não daria vazão para uma cartada no momento errado. Por trás das bets, há uma trama de interesses, bastando citar conglomerados financeiros, de mídia e uma porção de parlamentares que aparecem como braços fortes da jogatina. O patrocínio à equipes de futebol é apenas uma das pontas.
Somente em 2025, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets, conforme dados do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), com base em estatísticas de pagamento do Banco Central. Nos últimos cinco anos, houve aumento de 140% na procura por atendimento no SUS relacionada à dependência de apostas online e jogos de azar. Os dados são do Ministério da Saúde e o impacto estimado chega a R$ 30,6 bilhões por ano, considerando despesas associadas ao tratamento de depressão e custos decorrentes de mortes por suicídio.
Apenas neste ano, 1,2 milhão de brasileiros já solicitaram a autoexclusão na plataforma centralizada do governo, que permite bloquear o acesso às bets, tendo como principal justificativa a perda de controle e saúde mental. Enquanto milhares de famílias lidam com as consequências do adoecimento, do endividamento ou do suicídio de seus entes, influenciadores e celebridades promovem as bets com seus dentes de neon, correntes de ouro e aquele linguajar caricato.
Se a complexa trama de aliados construída pelas bets montou sua própria arena e dificultou a ação do Estado, a manobra rápida, a poucos dias das eleições, foi decisiva porque captura o debate público em um momento quente e coloca os apoiadores das bets, sobretudo candidatos, em uma sinuca de bico.
Foi uma cartada em momento decisivo do jogo. Contudo, uma enxurrada de narrativas e de defesa dissimulada das bets, na tentativa de relativizar seus efeitos, vêm aí. E elas terão como interlocutores candidatos, apresentadores de TV, comentaristas de jornais, celebridades, influenciadores digitais, presidentes de clubes de futebol (os mais ávidos são de Goiás) e aqueles rostos estéticos cheios de dentes de neon e saliva de sanguessuga.
A disputa não termina. De um lado, o vampirismo de quem lucra com a expansão desenfreada das apostas – os mesmos que tentarão, a todo custo, reverter a decisão pelas portas do Congresso. De outro, uma sociedade que começa a perceber os prejuízos que recaem sobre vidas e famílias. Resta a ela compreender que, no mundo real, a besta também joga pesado e banca “homens de bem” – os mesmos que se dissimulam em público são cúmplices no privado.

*Denis Castilho é doutor em geografia e professor do Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás.

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