FAB mobiliza aviões militares para combater incêndios no Amazonas, que já registra 1,6 mil focos em outubro
Aeronaves KC-390 Millennium têm capacidade de lançar 12 mil litros de água sobre as chamas. Crise ambiental atinge 36 municípios, compromete a qualidade do ar em Manaus e levanta suspeitas de incêndios criminosos em áreas de floresta preservada

A Força Aérea Brasileira (FAB) iniciou nesta segunda-feira (12) uma operação com aviões militares KC-390 Millennium para combater os incêndios florestais que avançam pelo Amazonas. Uma das aeronaves foi equipada com um sistema capaz de lançar até 12 mil litros de água pressurizada por missão, enquanto a segunda atua no transporte de equipamentos e materiais de apoio. A mobilização ocorre em meio a uma grave crise ambiental que já levou 36 municípios a declarar situação de emergência e deixou Manaus encoberta por uma densa camada de fumaça. Dados do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) apontam aproximadamente 1,6 mil registros de fogo ativo no estado entre os dias 1º e 12 de outubro, aumento de cerca de 260% em relação ao mesmo período de 2025.
O KC-390 Millennium, desenvolvido pela Embraer, é considerado o avião militar mais avançado projetado na América Latina. Para o combate às queimadas, a aeronave utiliza o Sistema Modular Aerotransportado de Combate a Incêndios (MAFFS), que permite despejar grandes volumes de água diretamente sobre áreas atingidas. O primeiro voo desta segunda-feira foi dedicado ao reconhecimento e mapeamento dos focos ativos. Na segunda decolagem, a tripulação realizou o lançamento de água. A previsão da FAB é executar aproximadamente três missões por dia, enquanto houver necessidade operacional.
A força-tarefa federal reúne 11 aeronaves, incluindo aviões especializados no combate ao fogo e helicópteros, além de 290 brigadistas mobilizados por órgãos como o Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Equipes de bombeiros e da Defesa Civil também atuam na região. A operação envolve os governos federal, estadual e municipais, com apoio da Força Nacional do SUS para atender comunidades afetadas pela fumaça e pelos incêndios.
Ministro identifica indícios de incêndios criminosos em floresta preservada
Após sobrevoar áreas atingidas no domingo (11), o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, afirmou ter encontrado uma situação mais grave do que imaginava. Segundo ele, as equipes identificaram diversos focos de incêndio no interior de áreas de floresta preservada, e não apenas em pastagens ou terrenos já desmatados.
O ministro avalia que a localização desses focos constitui um forte indício de ação humana intencional, possivelmente destinada a degradar a vegetação e facilitar o desmatamento posterior. Capobianco cobrou o reforço da fiscalização e a responsabilização dos envolvidos.
A suspeita de incêndios criminosos ainda depende de investigação para identificar autores e circunstâncias. O uso irregular do fogo, entretanto, é uma preocupação central das autoridades, especialmente em um período de estiagem intensa, quando as chamas podem se espalhar rapidamente e atingir extensas áreas florestais.
Fumaça transforma Manaus em cenário de emergência sanitária
Os efeitos da crise já ultrapassam as áreas diretamente atingidas pelo fogo. Manaus enfrenta sucessivos dias de fumaça intensa, com índices de poluição considerados perigosos para a saúde.

Nesta segunda-feira, medições do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas, apontaram concentrações de material particulado de até 219 microgramas por metro cúbico em um dos pontos monitorados da capital. A exposição a essas partículas pode provocar irritação nos olhos, tosse, falta de ar e agravamento de doenças respiratórias, especialmente entre crianças, idosos e pessoas com problemas de saúde preexistentes.
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A deterioração da qualidade do ar levou à suspensão de aulas e de atividades ao ar livre em Manaus. A Defesa Civil também emitiu alertas à população, recomendando medidas para reduzir a exposição à fumaça.
No interior, a situação é igualmente preocupante. Em Itacoatiara, uma força-tarefa com mais de 150 pessoas tenta conter incêndios que já atingiram milhares de hectares. Em Careiro da Várzea, a proximidade das chamas obrigou famílias a deixar suas residências. Em Boa Vista do Ramos, centenas de voluntários participam dos trabalhos de contenção.
Combate ao fogo mobiliza governos e recursos federais
O governo federal reconheceu a situação de emergência em 36 municípios amazonenses e ampliou o envio de aeronaves, brigadistas, equipamentos e equipes de assistência humanitária.
O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional informou que a operação permanecerá ativa enquanto houver necessidade de resposta aos incêndios. Além do combate direto às chamas, a mobilização inclui atendimento médico, transporte de insumos e assistência às populações atingidas.
O Amazonas também recebe recursos do projeto ProAmazon, apoiado pelo Fundo Amazônia, que prevê R$ 45 milhões para fortalecer a estrutura do Corpo de Bombeiros Militar e ampliar a capacidade de prevenção e combate aos incêndios florestais.
A crise ocorre em um cenário de estiagem agravada pelas condições climáticas associadas ao El Niño. Embora a seca favoreça a propagação das chamas, autoridades ambientais alertam que a origem dos incêndios precisa ser investigada, especialmente diante dos focos identificados em áreas preservadas.
A chegada dos aviões militares amplia a capacidade de resposta à emergência, mas o enfrentamento da crise também depende de fiscalização, prevenção e responsabilização por queimadas ilegais. Enquanto as equipes tentam conter o avanço do fogo, milhares de moradores do Amazonas continuam expostos aos efeitos de uma das situações ambientais mais preocupantes enfrentadas pelo estado neste ano.
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