Redação Pragmatismo
Saúde 30/Mar/2026 às 23:28 COMENTÁRIOS
Saúde

CFM pede proibição do PMMA para fins estéticos; Anvisa alerta para riscos

Publicado em 30 Mar, 2026 às 23h28

O uso do polimetilmetacrilato (PMMA) em procedimentos estéticos voltou ao centro das discussões sobre segurança após uma sequência de relatos de complicações graves envolvendo preenchimentos corporais. O Conselho Federal de Medicina (CFM) defende que a substância deixe de ser comercializada no Brasil como preenchedor estético, enquanto a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mantém sua utilização apenas dentro das indicações reparadoras aprovadas e reforça os riscos de aplicações inadequadas.

O pedido formal do CFM foi entregue à Anvisa em janeiro de 2025. Em um documento de 35 páginas, a entidade sustentou que o uso indiscriminado do PMMA, principalmente em grandes volumes e para aumentar glúteos e outras regiões do corpo, transformou-se em um problema de saúde pública. A solicitação se refere especificamente ao PMMA injetável utilizado como preenchedor, e não a outras aplicações médicas do material, como cimento ósseo e lentes intraoculares.

A preocupação decorre de uma característica fundamental do produto: diferentemente de substâncias absorvíveis, o PMMA é um implante permanente. Suas microesferas permanecem no organismo e podem ficar entremeadas aos tecidos, o que torna extremamente difícil sua retirada caso ocorram complicações.

Anvisa decidiu manter usos reparadores

Após receber a manifestação do CFM, a Anvisa realizou uma reavaliação do perfil de risco e benefício dos preenchedores à base de PMMA. A agência analisou literatura científica, experiências internacionais, notificações de eventos adversos e realizou inspeções nos fabricantes dos produtos registrados no país.

Em julho de 2025, a Anvisa concluiu que não havia elementos suficientes para retirar do mercado o PMMA quando utilizado estritamente dentro das indicações aprovadas. A agência decidiu, portanto, manter os produtos registrados, mas ressaltou que essas autorizações não contemplam o uso indiscriminado para fins estéticos.

Atualmente, a Anvisa informa expressamente que o PMMA não é indicado para procedimentos destinados simplesmente ao aumento de volume corporal ou facial. As autorizações existentes estão relacionadas a tratamentos reparadores, como correções volumétricas decorrentes de determinadas doenças e o tratamento de lipodistrofia associada ao uso de antirretrovirais em pessoas com HIV/Aids.

No caso dos glúteos, por exemplo, a existência de uma indicação reparadora específica não significa autorização para aplicações de grandes quantidades destinadas ao aumento estético da região.

Complicações podem aparecer anos depois

Um dos principais problemas apontados por especialistas é que as complicações relacionadas ao PMMA nem sempre aparecem imediatamente após a aplicação. Reações podem surgir meses ou até anos depois, mesmo quando o paciente inicialmente apresenta um resultado considerado satisfatório.

Entre os eventos adversos associados aos preenchedores permanentes estão inflamações, edemas, nódulos, granulomas, infecções, deformidades e necrose de tecidos. Em situações mais graves, há relatos de embolia pulmonar, alterações visuais provocadas por oclusão vascular, hipercalcemia, cálculos renais e insuficiência renal que pode chegar à necessidade de hemodiálise.

A Anvisa publicou novo alerta em 2026 destacando que aplicações em regiões anatômicas não autorizadas ou em volumes superiores aos previstos aumentam a probabilidade de complicações graves e de difícil tratamento.

O caráter permanente do PMMA torna esses quadros particularmente complexos. Como as microesferas podem se espalhar e se integrar aos tecidos, uma eventual cirurgia de retirada pode exigir também a remoção de tecido saudável e não necessariamente consegue eliminar completamente o material.

Problema preocupa médicos há anos

As advertências não são recentes. Sociedades médicas brasileiras vêm discutindo há anos os riscos da utilização indiscriminada do PMMA. Um levantamento realizado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica em meados da década passada estimou milhares de atendimentos relacionados a deformidades e outras complicações provocadas pelo produto.

Casos de grande repercussão também ajudaram a chamar atenção para o problema. O PMMA ganhou notoriedade nacional após pacientes e personalidades públicas relatarem infecções, deformidades e outras sequelas depois de procedimentos de preenchimento.

Para o CFM, as tentativas anteriores de restringir o produto a pequenas quantidades e indicações reparadoras não foram suficientes para impedir aplicações de grandes volumes com objetivos exclusivamente estéticos.

A entidade argumenta ainda que atualmente existem alternativas absorvíveis ou técnicas reparadoras com perfis diferentes de segurança, que podem ser avaliadas de acordo com cada situação clínica.

PMMA não é ácido hialurônico

Embora ambos sejam chamados popularmente de “preenchedores”, PMMA e ácido hialurônico têm características muito diferentes.

O PMMA é permanente e não absorvível. Já o ácido hialurônico utilizado em preenchimentos é biodegradável e seus efeitos tendem a diminuir com o passar do tempo. Isso não significa que o ácido hialurônico seja livre de riscos: qualquer procedimento injetável pode provocar complicações graves, especialmente quando realizado de maneira inadequada.

A diferença é particularmente relevante quando surge uma complicação. No caso do PMMA, não existe uma substância capaz de simplesmente dissolver todo o material implantado, e sua retirada cirúrgica pode ser extremamente difícil.

Agência reforça cuidados antes de procedimentos

A Anvisa recomenda que pacientes verifiquem se o produto utilizado possui registro, se o estabelecimento está autorizado e se o profissional é habilitado para realizar o procedimento. Também é importante conhecer previamente o nome do produto, as áreas em que será aplicado, a quantidade prevista e os possíveis efeitos adversos.

No caso do PMMA, o paciente tem ainda direito à documentação de rastreabilidade do produto, com informações como fabricante, registro e lote. Esses dados podem ser fundamentais caso uma complicação apareça posteriormente.

A posição atual da Anvisa, portanto, não é de proibição completa do PMMA no Brasil. A agência mantém determinadas aplicações reparadoras autorizadas, mas alerta que o produto não deve ser empregado indiscriminadamente para aumento estético de volume.

Já o CFM sustenta uma posição mais restritiva: diante da gravidade e da dificuldade de tratamento das complicações, a entidade considera que a permanência do PMMA como substância preenchedora representa um risco que já não se justificaria diante das alternativas disponíveis.

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