Delmar Bertuol
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Colunistas 20/Mai/2026 às 17:33 COMENTÁRIOS
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CHAMA (DEIXA) O CARA

Delmar Bertuol Delmar Bertuol
Publicado em 20 Mai, 2026 às 17h33

Delmar Bertuol*, Pragmatismo Político

A janela emperrou. Mexi daqui, mexi dali. Peguei o martelo. Ainda bem que não usei. Peguei a chave de fenda. A fiz de alavanca. Nada. Não tinha solução. O jeito era ir chamar o Cara.

O Cara, cês sabem, é aquele cara que entende do assunto. Que resolve um problemão como se fora um pormenor.

Cheguei na fábrica de esquadrias envaidecido do meu problema, que homem que é homem tem problemas sérios na vida. Expliquei que a janela emperrara. E com a legitimidade de um homem com a testosterona em dia, adverti que não era coisa pouca. E eu não tinha até tentado fazer uma alavanca com a chave de fenda?

Dada a urgência, o Cara prometeu visita à tarde. E foi. Mostrei a ele o problemão. Puft, ele arrumou. Sim, sim, foi ao tempo de um puft. Cabe numa frase curta. Não vi o que ele fez. Não usou qualquer tipo de ferramenta. Nem uma chave de fenda. Não me cobrou pelo puft. E minha testosterona diminuiu.

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Doutra feita foi um vazamento na pia. Vazamento na pia, cês sabem, é só fechar o registro, desenroscar o cano, passar veda-rosca, enroscar o cano, abrir o registro, “fecha, fecha ligeiro, que tá vazando”, desenroscar o cano, passar mais veda-rosca, enroscar o cano com mais sutileza desta vez, abrir o registro, “fecha, fecha…”

A teoria é fácil. Mas depois de fechar e abrir o registro uma dúzia de vezes, xingar de filho da puta quem fez a hidráulica da casa, que na verdade nem ele e nem a sua mãe tem culpa… Bem, depois disso tudo, derrotado, chama-se o Cara, que chega com uma maleta azul cheia de ferramentas e resolve o problema fechando o registro no máximo duas vezes. E por pura precaução.

O que parece fácil pode definitivamente não ser. Eu morava sozinho. Tinha uma tomada que não funcionava. Eu poderia acionar a imobiliária, já que não se tratava de uma obrigação do inquilino. Mas só que me faltava chamar o Cara pra engatar um fiozinho.

Como um Aristóteles da elétrica, observei bem o interior da tomada. Deduzi que o homem é um empírico nato. Desliguei o disjuntor. Liguei o fiozinho ali naquele buraco. Respirei fundo e envaidecido. Fui ligar o disjuntor aristotelicamente. O condomínio inteiro sem luz. O porteiro apavorado na minha porta, prestes a só juntar um corpo eletrificado, pois, segundo ele, viu pela minha janela uma explosão acompanhada dum estrondo. E depois, fez-se o escuro.

Como explicar sem constrangimento que eu certamente ligara um fio no lugar errado?

No outro dia, indicado pelo próprio porteiro, apareceu o Cara. Desfez a ligação quase suicida. Religou a energia do meu apartamento. E arrumou a tomada que, agora eu percebia, nem me fazia tanta falta.

fonte: ChatGPT

Após alguns percalços desses, aprendi. Se acho que não vou conseguir fazer ou resolver, chamo o Cara. Pode ser um serviço do mais complexo ou algo bem simples. Muitas vezes, troco a satisfação de fazer pela comodidade de ver pronto. E com segurança.

O que quero dizer é que o homem não sabe de tudo, não é obrigado a dominar todas as áreas, por mais fáceis que possam parecer. Não sabe trocar chuveiro? Sem problemas, chama o Cara, que ele faz o serviço caprichado.

Isso vale, como eu disse, para todas as áreas da vida. Das mais simples às mais complexas. E aí podemos exemplificar: governar o Brasil não é para qualquer um. Teve quem se aventurasse e não deu bom. Para governar o Brasil, precisa ser o Cara. Do contrário, poderemos passar quatro anos de vazamento e levando choques, numa escuridão de obscurantismo. Não duvidem, até explosões podem ocorrer. Por isso digo, para presidente, chamemos (deixemos) o Cara.

*Delmar Bertuol é professor de história

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