Justiça dos EUA reconhece inocência de jovem negro executado na cadeira elétrica
Condenaram e mataram um inocente. Obviamente, porque a cor da sua pele é preta. Desde o início, Tommy Lee Walker se declarou inocente e apresentou um álibi. Ele estava no hospital acompanhando o nascimento de seu filho. Esse fato foi confirmado por dez testemunhas, mas mesmo assim, de nada adiantou

por Felipe Borges
Setenta anos depois de uma condenação que terminou na cadeira elétrica, a Justiça dos Estados Unidos reconheceu oficialmente o que sempre esteve nos autos, mas foi ignorado: Tommy Lee Walker era inocente. Negro, pobre e com 19 anos à época, Walker foi condenado à morte em 1954 pelo estupro e assassinato de Venice Parker, uma mulher branca, e executado em 1956, no Texas. Na última quarta-feira (21), o Tribunal de Dallas classificou o processo como uma “profunda injustiça”.
O reconhecimento tardio não repara o dano irreversível. Mas expõe, com clareza documental, como o sistema judicial norte-americano operou — e ainda opera — sob a lógica do racismo estrutural, da coerção policial e da manipulação processual.
Um álibi ignorado
Desde o início, Walker negou o crime. Seu álibi era objetivo e verificável: ele estava em um hospital acompanhando o nascimento de seu filho. Dez testemunhas confirmaram a informação. Nenhuma delas foi suficiente para impedir a condenação.
Venice Parker foi atacada em 1953, enquanto aguardava um ônibus após o expediente em uma loja de brinquedos, nas proximidades do aeroporto Dallas Love Field. Ela chegou a pedir ajuda a um motorista e foi levada a um hospital local, onde morreu em decorrência dos ferimentos. Segundo pesquisas posteriores do Innocence Project, a vítima não conseguiu prestar depoimento formal antes de morrer. Ainda assim, um policial afirmou que ela teria identificado seu agressor como “um homem negro” — descrição genérica que, no contexto da época, bastava para direcionar uma condenação.
Testemunhos frágeis e prisão tardia
Duas pessoas disseram ter visto Walker na região naquela noite, mas nenhuma presenciou o crime. Mesmo assim, ele só foi preso quatro meses depois, pelo então chefe do Departamento de Homicídios da Polícia de Dallas, Will Fritz. Investigações posteriores apontam Fritz como integrante da Ku Klux Klan, organização supremacista branca.
A ausência de provas materiais não impediu o avanço do processo. Em vez disso, abriu espaço para métodos que hoje são reconhecidos como ilegais: interrogatórios prolongados, ameaças explícitas de execução e a apresentação de provas inexistentes.
Sob esse ambiente de intimidação, Walker assinou duas confissões. A primeira continha erros factuais que a tornavam implausível. A segunda foi ajustada pela polícia para se alinhar à narrativa do crime. Em nenhuma delas, Walker confessou ter estuprado a vítima.
Um promotor acima da lei
O caso foi conduzido por Henry Wade, então promotor distrital de Dallas — figura central em pelo menos 20 condenações injustas de homens negros, segundo investigações posteriores. Wade teria ocultado provas favoráveis à defesa, apresentado alegações falsas como fatos e, em um movimento extremo, atuado como sua própria testemunha de acusação, afirmando “saber” que Walker era culpado.
Todos os recursos apresentados pela defesa foram negados. A promessa policial de que a confissão pouparia Walker da pena capital revelou-se falsa. Ele foi executado na cadeira elétrica em 1956.
A revisão que veio tarde demais
Décadas depois, o caso foi reavaliado pela Promotoria do Condado de Dallas, em parceria com o Innocence Project e a Faculdade de Direito da Universidade Northeastern. A conclusão foi inequívoca: Walker foi condenado injustamente.
Na quarta-feira (21), o Conselho de Comissários de Dallas aprovou uma resolução que o inocenta oficialmente do assassinato de Venice Parker. A decisão reconhece que o processo foi marcado por coerção, falsificação de provas e racismo institucional.
“Agora o mundo sabe”
Edward Smith, único filho de Tommy Lee Walker, afirmou que a decisão traz sentimentos ambíguos. “Foi difícil crescer sem um pai. Isso não vai trazê-lo de volta, mas agora o mundo sabe que ele era inocente. E isso traz um pouco de paz.”
A absolvição póstuma não devolve vidas, nem reverte décadas de sofrimento. Mas desmonta, peça por peça, a engrenagem que permitiu ao Estado condenar, executar e silenciar um inocente, tendo como critério central a cor de sua pele.



