Eduardo Bonzatto
Colunista
Política 29/Mai/2023 às 12:14 COMENTÁRIOS
Política

MÚSICA, PINTURA, QUADRINHOS, GEOCULTURA EM FUSÃO

Eduardo Bonzatto Eduardo Bonzatto
Publicado em 29 Mai, 2023 às 12h14

Eduardo Bonzatto*, Pragmatismo Político</span

Os Ainu são os povos indígenas da ilha de Hokkaido. Povo de pele escura e hábitos rudes. Com uma história de rebeldia, a ilha mantém até hoje uma aura de primitiva insurgência.
As tentativas de enquadrar os ainu como burakumin, aqueles que realizam serviços impuros segundo código japonês, foram inúteis e esse grupo que é marcado pela pele mais escura, configura talvez nos mais altivos indígenas do Japão moderno.
A mítica de japoneses negros resiste bem até os dias de hoje.
Por vezes, as repercussões culturais dentro de um Japão difuso e nada ortodoxo, emergem para nossa alegria.
O Japão é a terra da fusão, entre o antigo e o moderno, entre a tradição e a vanguarda, entre os sentimentos de pertencimento e de exclusão. Estão muito longe da imagem que normalmente associamos ao Japão.
Ao observarmos uma das pinturas mais imersivas da modernidade japonesa, a Grande Onda de Hokusai, veremos mais do que tradição.
“A Grande Onda de Hokusai só alcançou praias estrangeiras 18 anos após a morte do autor, e mais de 35 depois de sua criação, já que o Japão ficou isolado por dois séculos.
Desde 1640, o país estava praticamente fechado para o mundo, e apenas uma interação limitada com a China e a Holanda era permitida.
Embora estrangeiros não pudessem entrar no Japão, coisas estrangeiras podiam, algo que é visto claramente em A Grande Onda.
Está impressa em papel tradicional de amora japonesa em tons sutis de amarelo, cinza e rosa. Mas a cor dominante é um azul intenso e profundo… um azul que não era japonês.
É azul da Prússia, inventado a meio mundo de distância, na Alemanha, 130 anos antes da quebra da onda de Hokusai.
E mais: a série da qual A Grande Onda fazia parte foi divulgada ao público em parte com base naquele azul exótico e lindo, apreciado por sua estranheza.
E essa não foi a única importação da qual Hokusai se aproveitou.
Com a perspectiva matemática que aprendeu com as gravuras europeias trazidas por mercadores holandeses, ele empurrou o Monte Fuji para o fundo da cena.
Portanto, A Grande Onda, aponta o historiador e ex-diretor do Museu Britânico Neil MacGregor na reportagem da BBC “A História do Mundo em 100 Objetos”, está longe de ser essencialmente japonesa, como costumamos pensar.
É uma obra híbrida, uma fusão de materiais e tecnologia europeus com uma sensibilidade japonesa.
“Não é de se estranhar que tenham gostado tanto dela quando veio para a Europa. Não era um estranho, mas um parente exótico.”
‘A Grande Onda de Kanagawa’: o curioso percurso da gravura até virar um ícone

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Mas o conjunto de pinturas em que está inserida foi popularizado ainda ao tempo de vida do autor e a forma pulp que recebeu para venda ficou conhecida como Mangá, ou seja, inaugurou uma vasta e popular linha de criação das revistas em quadrinhos japoneses, os Mangás e que marcou a cultura nipônica no último século, invadindo o ocidente e provocando novos contágios.
Hokusai nasceu no sul do Japão, província de Kanagawa.
Ali também nasceu em 1934, Akira Ishikawa que, antes de sua morte em 2002, desejou ardentemente se transformar em negro, tomando o caminho inverso de Michael Jackson.
Baterista de jazz criativo e sanguíneo, Ishikawa começou sua carreira musical com Shin Matsumoto e New Pacific. Nos anos seguintes excursionou com suas próprias formações como Akira Miyazawa Modern Allstars e Toshio Hosaka. Anos depois, ele tocou com Toshiyuki Miyama e sua banda New Herd; 1964/65 fez gravações com Miyamas Modern Jazz Highlights e Modern Jukebox. A partir do final dos anos 60, gravou LPs em nome próprio como Soul Session (1969) e The Gentures in Beat Pops (1970), com, entre outros, Hiromasa Suzuki, Kiyoshi Sugimoto e Masaoki Terakawa. Com sua banda Count Buffaloes, o álbum de jazz-rock Electrum foi lançado em 1970, seguido por Drums Concerto (1971), African Rock (1972), Uganda (1972) e Get Up! (1975). Ele também trabalhou com Yoshiko Goto, Koichi Oki, Kiyoshi Sugimoto (Our Time, 1974) e Akio Sasaki (Berklee Connection, 1980) na década de 1970. No campo do jazz esteve envolvido entre 1964 e 1980 em 14 sessões de gravação
Um fato curioso nas capas de seu disco é que ele é sempre representado como um japonês de pele escura, para além de sua tonalidade natural (além de ter cultivado um cabelo afro); fato que poderia remeter a questões mais complexas como o colorismo ou quem sabe até a blackface. Todavia, a dinâmica racista existente no Ocidente não é a mesma que se vê historicamente no Oriente. O diálogo entre África e Ásia existe pelo menos desde o séc. VII; muito antes do expansionismo colonial europeu. Histórias reais únicas como a de Yasuke, um africano levado ao Japão durante as investidas europeias no extremo oriente que rapidamente se tornou um samurai, está aí para provar essa diferença. Inclusive, a um artigo em inglês muito interessante sobre essa temática chamado African Odisseys que retrata e se aprofunda muito bem nessa questão. Obviamente, isso não significa negar a existência de racismo no Japão, tampouco dizer que não é problemática a pigmentação em capas de discos. Apenas há uma diferença real em como as dinâmicas raciais se dão em cada parte do mundo.

Akira Ishikawa: o jazzista japonês que queria ser negro!

Completamente influenciado pela cultura africana, imprimiu às suas músicas uma alma negra, feroz, dinâmica e profundamente criativa e inovadora.
Ouvi-lo é carregar toda vibração sonora que faz com que as fronteiras, todas as fronteiras, geopolíticas, culturais, musicais, sejam demolidas e passamos a sentir que vivemos em Gaia, um único mundo em que cabe todos.

*Eduardo Bonzatto é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) escritor e compositor

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