Delmar Bertuol
Colunista
Barbárie 09/Out/2021 às 09:50 COMENTÁRIOS
Barbárie

LIVRO “PARA ONDE VÃO AS BORBOLETAS À NOITE”

Delmar Bertuol Delmar Bertuol
Publicado em 09 Out, 2021 às 09h50

Delmar Bertuol*, Pragmatismo Político

Uma vez vi uma propaganda que achei muito criativa e espirituosa. Os técnicos que estavam desenvolvendo o produto discutiam que ele ainda não estava dificultando a vida dos clientes. Eles queriam que quem comprasse o anunciado tivesse muito trabalho, desafios. Era um comercial de videogame.

Lembrei dele ao ler “Para onde vão as borboletas à noite”, livro de estreias de Andreia Schefer. E faço questão de dizer que é um livro de estreia porque tenho assumida desconfiança com escritores iniciantes. Meu maior receio é que ocorra o que mais odeio em literatura: o receio do escritor, porque justamente inciante, de dizer o que deve ser dito, o que o leitor, inconscientemente, espera que seja dito. Mas Andreia, tal qual os ficcionais técnicos da marca de videogame, não nos poupa. Nos desafia a virar pra outra página, mesmo sabendo que haverá mais tragédia. É uma guerra, pois.

Só pelo título curioso, instigante e, por que não dizê-lo, com um quê de poético, já nos dá vontade de adquirir o livro e pelo menos exibir na prateleira às visitas. Mas claro que, leitores vorazes que somos, iríamos pelo menos iniciar a leitura. O término dela é facultativo, como em seguida defenderei.

 A obra trata da história de um menino, Nagib, de doze anos (ele começa a história com essa idade) em meio à guerra na Síria. Melhor dizendo, sua luta para fugir e/ou sobreviver aos horrores da guerra. Sim, aos horrores. A palavra é essa. Como disse, Andreia não nos tem protocolar benevolência. É um livro sobre guerra, e a crueza dela nos é mostrada a cada página. A leitura não é facilitada.

O abri com o meu citado preconceito com iniciantes que, corajosos, assinam um livro e assumem o risco das críticas. Ou, pior, do ostracismo, num país em que a leitura deu lugar ao grupo de Whats da família. A ignorância hoje, ao que parece, é motivo de orgulho. Mas caso não fosse bom, eu o abandonaria. Não tenho melindres quanto a isso. Se a leitura dalgum livro se torna enfadonha, eu o largo ao inóspito do armário e abro outro. Mesmo que vivesse mil anos, sequer conseguiria ler os chamados clássicos. Vou contar um segredo: já iniciei sem terminar pelo menos umas três vezes o “Cem Anos de Solidão”. Me julguem. Um colega que passou por semelhante situação me deu uma dica. Fazer uma árvore genealógica e a ir consultando durante a leitura. Farei isso.

Mas fato é que a vida é muito curta pra insistir num livro ruim, pra votar na direita e pra não dizer praquela amiga ou colega da sua intenção de lhe provar o beijo. A vida também é muito curta pra insistir num relacionamento cujo beijo é insonso.

Falo em beijos e fujo do assunto… voltemos à guerra.

Leia aqui todos os textos de Delmar Bertuol

Iniciei e leitura e não mais parei. Com poucas e objetivas personagens, a trama se desenvolve e nos instiga a continuar. A narração em primeira pessoa, do Nagib, nos causa ainda mais aflição. Sem a onisciência do narrador em terceira pessoa, acompanhamos com os olhos de Nagib a angústia da guerra. E não é a angústia dele que experimentamos. É a nossa! Andreia, sem pudor, convite ou cortesia, nos leva à Síria em guerra. Ouvimos o som dos tiros e sentimos o fétido dos corpos amontoados.

Ela poderia nos dizer do paradeiro de Hani, pai de Nagib. Se é que ele está vivo. Mas Andreia não nos tem compaixão, pois as guerras não tem compaixão. A guerra traz morte, fome, sofrimento e pessoas cujos destinos ninguém sabe. Nem os filhos e nem os leitores.

“Cutuquei Samir e mostrei a ele meus olhos fechados, para que ele fizesse a mesma coisa. Assim não veríamos aquelas cenas horríveis.” Essa passagem me marcou. A partir dela pude perceber que não me era facultado fechar os olhos. Eu teria muito sofrimento paradoxalmente desejado pela frente. A boa literatura por vezes nos dá essa satisfação incomodativa.

Andreia avisou em entrevista que, embora as possibilidades abertas pelo enredo, ela não pretende fazer uma continuação. Acho que age bem. A história contada por ela não precisa outro desfecho que não o do não-desfecho mesmo. As dúvidas e inconstâncias são parte da vida. As angústias do porvir, no caso duma guerra, talvez seja a melhor ilustração desse tipo de conflito. Se há dúvidas, veja como a cada página acontece mais um fato novo e geralmente lamentoso.

Quem quiser se alistar à Guerra da Síria pelo “Para onde vão as borboletas à noite” entre em contato com a escritora. Haverá feridas que nos marcarão para a reflexão. Mas o leitor sobreviverá mais vivo do que antes.

Eis os contatos: Whats (51) 9244 6664;

Facebook https://www.facebook.com/andreiascheferescritora

Instagran @andreiascheferescritora

*Delmar Bertuol é professor de história da rede municipal e estadual, escritor, autor de “Transbordo, Reminiscências da tua gestação, filha” Acompanhe Pragmatismo Político no Instagram, Twitter e no Facebook

Recomendações

COMENTÁRIOS