Redação Pragmatismo
Mídia desonesta 21/Jun/2019 às 09:38 COMENTÁRIOS

Matéria da IstoÉ sobre "hacker" parece ter sido escrita por Carlos Bolsonaro

Repleta de conspirações e erros, matéria de capa da revista IstoÉ sobre “hacker” da Lava Jato parece ter sido escrita por Carlos Bolsonaro. Autor é jornalista que celebrou a condenação de Lula nas redes sociais

matéria da IstoÉ hacker Moro

Kiko Nogueira, DCM

A Istoé fez uma matéria no padrão Istoé para defender o ministro Sergio Moro.

O autor é o veterano jornalista Germano Oliveira, assessor informal da República de Curitiba, autor do famoso post de janeiro de 2018 comemorando a condenação de Lula com outros colegas.

“Essa turma eh da pesada e se reuniu hoje na sede do TRF4, em Porto Alegre, quando os desembargadores condenaram Lula por 3 a 0 a 12 anos e 1 mês de cadeia. Ainda da psra confiar na Justiça”, escreveu nas redes.

SAIBA MAIS: Novo vazamento mostra que Moro mentiu no Senado

Segundo a peça de propaganda, os diálogos são “fruto da violação de celulares de autoridades brasileiras”, que é a versão oficial lavajatista.

Carlos Bolsonaro, o Carluxo, poderia assinar a coisa tranquilamente.

A conta Xadrez Verbal, do Twitter, fez um bom trabalho desmontando o texto:

Uma hipótese comentada é a do uso do Telegram para desktop, ou ainda um vazamento interno.

Aí diz que “jornalista Glenn Greenwald, dono do site The Intercept Brasil”. Não, Greenwald é editor, o dono do Intercept é Pierre Omidyar, fundador do eBay.

É um erro tão grosseiro quanto dizer que o William Bonner é o dono da Globo.

Segue: “Em 2013, Snowden se aproximou dos irmãos bilionários Nikolai e Pavel Durov”. Não, Snowden, já asilado na Rússia, recebeu uma oferta de emprego por Pavel Durov como manobra publicitária, eles nunca trabalharam juntos.

Aí segue para citar novamente Bogachev, que nem naquela história do pavão, já tratei aqui nesta outra thread:

Novamente, o “Pelé dos hackers” teria sido contratado pela merreca de 300 mil dólares “em bitcoins (a moeda virtual)”. Sim, “A” moeda virtual, caro internauta.

“O dinheiro teria circulado pelo Panamá antes de chegar a Anapa, na Rússia, onde foi transformado em rublos”.(…)

Já expliquei essa história dos rublos na thread que citei.

Aí vem a ideia de que os irmãos Durov, fundadores do Telegram, estariam apoiando Greenwald por “motivações puramente ideológicas. Adeptos do islã, eles teriam ficado enfurecidos com a proverbial predileção do presidente Jair Bolsonaro por Israel”.

Não há nenhum indício de que algum dos irmãos seja muçulmano tirando o fato de serem residentes de Dubai (uma cidade com 85% da população de origem estrangeira).

O matemático Nikolai se dizia ateu e Pavel frequentemente fazia trollagens sobre o pastafari, a religião paródia do Monstro do Espaguete Voador. Além disso, o Instagram de Pavel não é o mais adequado ao pudor religioso.

Aí Germano Oliveira diz “Não custa lembrar que Greenwald e Snowden foram parceiros num trabalho desenvolvido em 2013” e que, por isso, “Greenwald se refugiou no Brasil, casando-se com o brasileiro David Miranda”.

Tudo errado. Greenwald está com Miranda desde 2005.

Teve matéria com a casa deles na Caras até!

O texto continua ligando os vazamentos a “hackers profissionais” até fazer uma ligação com uma operação da PF, chamada Chabu, que prendeu integrantes da PF.

Por vazarem dados INTERNOS da polícia, não por saíram hackeando as pessoas, é uma ligação sem pé nem cabeça. Termina falando numa conexão Brasil-Rússia-Dubai que mais parece vôo da Emirates do que jornalismo.

Para complementar e ficar mais fácil para quem ler essa thread.

O hacker citado é um dos mais famosos do mundo, é um “alvo fácil” pra acusar e 300 mil dólares é muito dinheiro pra mim e pra você; para contratar alguém que deu um golpe de mais de 20 mi dólares?

Ainda mais para hackear pessoas importantes? Não é um valor razoável

Sobre rublos: russos não confiam no rublo, uma moeda fraca, poupam em dólar ou em euro sempre que podem. Faria ainda menos sentido um hacker usar rublos.

Além disso, notem que a matéria não possui nenhuma aspa, nenhuma declaração, nada. Ou frases do Moro perante o Senado e o único nome citado é “Sob a coordenação do diretor-geral Maurício Valeixo, a PF acredita ter se aproximado dos hackers”.

Oras, claro que é sob coordenação de Maurício Valeixo, ele é chefe da PF.

É isso. Pode ter hackers? Sim. Podem ser hackers russos? Sim. Os irmãos Durov podem ter se tornado “muçulmanos malvadões”? Vai saber.

A matéria tem algo de concreto? Não. Tem um monte de erros? Sim.

Possui nenhuma aspa, nenhuma declaração, nada. Ou frases do Moro perante o Senado e o único nome citado é “Sob a coordenação do diretor-geral Maurício Valeixo, a PF acredita ter se aproximado dos hackers”.

Veja AQUI quem é o jornalista que escreveu a matéria da IstoÉ.

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