Delmar Bertuol
Colaborador(a)
Exploração Trabalhador 01/May/2019 às 12:00 COMENTÁRIOS

Um bom dia do trabalho, trabalhadores!

Mas hoje não é uma data de felicidade pela sua representação, embora possa ser comemorada com churrasco (como os que ganham com o suor alheio estão certamente fazendo). É antes uma data de reflexão. E de luta, sempre.

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Imagem: reprodução

Delmar Bertuol*, Pragmatismo Político

Há uns poucos anos, quando passava este feriado na casa do então meu sogro, ele comentou que, no tempo em que trabalhava, não se podia enxergar o céu. A cidade estava tomada pelas fumaças das churrasqueiras, seja nas casas, mas também nas empresas, que ofereciam almoço aos funcionários e às famílias.

De fato, de umas décadas pra cá, não obstante alguns avanços (conseguidos com, amiúde, esforço e empenho dos sindicatos), a situação dos trabalhadores piorou em alguns aspectos. Difícil o assalariado que consegue fazer churrasco todos os finais de semana. Ou mesmo num feriado como este. Eu, depois que terminar estas mal traçadas linhas, vou pôr ao fogo meu almoço. Guisado com batata.

Até mesmo a folga resta comprometida. Hoje, com as mudanças nas dinâmicas das relações trabalhistas (eufemismo para precarização do trabalho), cada vez mais não só os trabalhadores de áreas essenciais labutam nos feriados. Comércios e serviços não necessariamente ligados ao lazer abrem suas portas nos dias que seriam de descanso. O lucro não tem tempo pro ócio.

O Dia do Trabalho remonta a uma greve geral por melhores condições de trabalho, em Chicago, nos Estados Unidos, em meados do século XIX. Mas a data só foi chancelada como uma homenagem ao trabalhador numa assembleia sindical realizada na França, no final daquele mesmo século. Os líderes desse movimento eram ligados aos ideais socialistas.

Já no Brasil, um pouco depois, em 1º de maio de 1943, o melhor presidente que os trabalhadores brasileiros tiveram, Getúlio Vargas, anunciou a criação da CLT. Exatamente quatro anos antes, já havia criado a Justiça do Trabalho.

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Mas o destino é irônico. Ou as pessoas é que são perversas?

Hoje o Brasil é comandado por um grupo de economistas que seguem a ideologia da Faculdade de Economia de Chicago. Para eles, para que a economia vá bem e agrade ao (deus) mercado, os trabalhadores de todos os setores devem ter diminuídos seus direitos para que se aumentem os lucros das empresas e, daí sim, parte disso reverta aos empregados. Em tese. O desemprego e a miséria causados nesse ínterim não são considerados.

E a política brasileira, seja no Executivo, seja no Legislativo e, ao que parece, até mesmo no Judiciário (que, em teoricamente, devia ser indiferente à política), está alinhada a ideias defenestradoras da luta sindical e trabalhista.

Daqui um pouco, em tevê aberta, Bolsonaro fará discurso lendo dificultosamente um teleprompter referenciando os trabalhadores brasileiros e falando da legitimidade das nossas lutas. Falará também do empenho que o governo está fazendo para criar empregos e aumentar o poder de compra dos salários.

Findado o discurso (a gravação, pois não é ingênuo de falar ao vivo), irá negociar com o Congresso e dará quarenta milhões de bons motivos para que cada deputado vote por acabar com a Previdência e concorde com a defasagem do aumento do salário mínimo. Esses mesmos legisladores que, há pouco, fragilizaram a citada CLT.

Pelo exposto, desejo a todos os colegas, públicos e privados, que sejam felizes com suas vidas pessoais, com suas famílias e com seus empregos. Mas hoje não é uma data de felicidade pela sua representação, embora possa ser comemorada com churrasco (como os que ganham com o suor alheio estão certamente fazendo). É antes uma data de reflexão. E de luta, sempre.

Por isso, não um feliz Dia do Trabalho. Um bom Dia do Trabalho, colegas!

*Delmar Bertuol é professor de história da rede municipal e estadual, escritor, autor de “Transbordo, Reminiscências da tua gestação, filha” e 1º Secretário do Simpo”

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