Luis Gustavo Reis
Colunista
Religião 08/Abr/2019 às 13:47 COMENTÁRIOS
Religião

A morte do Padre Pinto para além das manchetes dos jornais

Luis Gustavo Reis Luis Gustavo Reis
Publicado em 08 Abr, 2019 às 13h47

Polêmico, irreverente, religioso e artista com uma série de exposições de quadros - inclusive em homenagem a Antônio Conselheiro, em Canudos -, Padre Pinto cumpriu sua missão. Por isso, em sua homenagem, bradamos: Sarará, Padre Pinto!

Saravá Padre Pinto salvador dançarino oxum
Padre Pinto (Imagem: reprodução)

Eduardo Bonzatto* e Luis Gustavo Reis*, Pragmatismo Político

Recentemente alguns jornais brasileiros, sobretudo os da Bahia, noticiaram a morte do padre José de Sousa Pinto. Internado devido as complicações de um Acidente Vascular Cerebral (AVC), o religioso faleceu aos 72 anos no hospital soteropolitano Jorge Valente.

Até aí nenhuma informação que salte aos olhos. Embora a morte ainda nos cause dor, pessoas são sepultadas diariamente por diferentes motivos. A morte de um idoso, ainda mais, é parte do que chamamos de “ciclo natural da vida”.

Ora, mas o que nos leva a escrever sobre o personagem supracitado? Uma leitura que ultrapassasse as manchetes dos periódicos, se depararia com a informação de que o pároco foi pivô de diferentes polêmicas anos atrás. Chamado por seus conterrâneos de Padre Pinto, o religioso ficou nacionalmente conhecido janeiro de 2006, após celebrar a Festa de Reis vestido de índio, incrementado com roupas e adornos do candomblé, na igreja da Lapinha, em Salvador.

A festividade chamou a atenção da opinião pública, já que não é usual um sacerdote substituir o terço por fios de conta, rezar a missa vestido de índio guerreiro e de Oxum (orixá das águas doces), bem como estar maquiado e com grandes argolas penduradas nas orelhas. O episódio ganhou repercussão e o padre foi imediatamente afastado de suas atribuições. A comunidade da Lapinha saiu em peso para protestar contra o afastamento do padre, mas como é habitual em instituições mediadas pela hierarquia, suas vozes foram radicalmente ignoradas.

Apesar da excentricidade que o caso aparentemente despertou, padre Pinto atuou na Lapinha durante 30 anos, fundou uma creche que atende cerca de 520 crianças e ressignificou o funcionamento de uma região marcada pelo descaso do poder público. Suas missas estavam sempre lotadas, eram acompanhadas com entusiasmo por devotos que cantavam e dançavam junto ao padre festivo. Quando foi afastado pelo arcebispado, um fiel lamentou: “Só quem pode julgá-lo é Deus. Para a comunidade, não têm padre melhor”.

A Festa de Reis era o evento mais esperado pela comunidade da Lapinha, quando uma multidão desfilava efusiva pelas ruas. Sobre o amalgama entre aspectos religiosos e profanos, o padre dizia: “Encaramos a festa popular como extensão, visto que estão presentes a solidariedade, fraternidade e alegria de viver.”

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O Padre Pinto não foi o primeiro a misturar elementos das culturas afro-indígena aos rituais do catolicismo. Desta vez no Maranhão, cerca de quatro séculos antes, outro religioso, ordenado jesuíta, curiosamente de nome Francisco Pinto, ficou conhecido por ter organizado uma expedição, em 1605, que partiu de Pernambuco rumo ao Maranhão com o objetivo de estabelecer contato com indígenas Tupinambá. Descrita pelo francês Claude d’Abbeville, a expedição de Padre Pinto era composta de “um seu companheiro, alguns portugueses e de oito a dez mil índios, entre mulheres e crianças, todos da mesma nação. Não se sabe se suas intenções [ do padre] eram boas ou se o guiava um intuito mau. Mas foi por certo estranha resolução e particular objetivo, que o levou a empreender tão longa viagem, de quinhentas a seiscentas léguas através de florestas tenebrosas, horríveis desertos e grandes incômodos, e também a aprender a língua dos ditos índios de modo a dela se servir tão perfeitamente quanto os naturais do país. […] Nada representava para essa pobre gente a fadiga de tão longa e penosa viagem, de tal modo respeitavam o personagem e tal amizade lhe tributavam por ter ele adquirido entre os índios a reputação de Profeta.”

O Padre Pinto setecentista, missionário experimentado na lida catequética com os índios do Rio Grande, é apreendido na memória jesuítica como pioneiro e fundador das missões no Maranhão e, ainda, como um modelo a ser seguido pelos jesuítas nas entradas missionárias ao sertão colonial. Por outro lado, o velho sacerdote, que teria sido curado milagrosamente pelo padre José de Anchieta, também era chamado de Paí-Pina pelos indígenas que viviam na Bahia; e, por seus milagres em fazer chover no árido sertão, fora apreendido na cosmologia tupi como sendo Amanaiara, o senhor da chuva. O fim dessa experiência missionária foi trágico, com a violenta perda do padre Francisco Pinto, morto a pauladas por índios tarairiú, em 1608.

A crer nos viajantes que trataram das aventuras do jesuíta, o Padre Pinto transcendeu religiosidades. Na cosmologia dos tupinambá, ele tornou-se o grande xamã. Era Deus caído do céu, grande caraíba, homem-deus descido do céu como o próprio religioso havia se identificado, líder que conduziria os nativos que fugiam dos portugueses que no Maranhão chegavam para se apossar da terra dos homens. Em suma, Padre Pinto brilhou como uma estrela em festa na fronteira das religiosidades católicas e indígenas.

Já o Padre Pinto do século XXI, ao celebrar missa com trajes da deusa das águas doces (Oxum), escancarou a presença religiosa de matriz afro-brasileira e possibilitou o desenvolvimento de uma sociabilidade específica, por meio da qual diversos elementos religiosos dialogavam entre si. Num gesto emblemático, a Festa de Reis organizada pelo pároco evidenciou um sincretismo entre o catolicismo, o candomblé e a religiosidade indígena.

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Na Bahia de todos os santos, de todas as religiosidades, de segredos expostos como furúnculos na pele da cidade, um vórtice se formou na pequena paróquia onde Padre Pinto era vigário, e atraiu uma imensidão de energias difusas a representarem diacrônica e sincronicamente uma multiplicidade de referências, todas vindas dos horizontes polimórficos que cercam a normalidade.

Como uma represa que rompe os diques limitantes que a continham, os territórios tímidos da Bahia foram também alargados e os horizontes polimórficos deixaram vislumbrar toda a extensão daquela festa, daquela RELIGIÃO, daquela religação entre o sagrado e o profano, entre o divino e o humano, que no final estraçalha as limitações entre o poder e a liberdade.

Na imediata consequência do gesto capitaneado por Padre Pinto, depois das notícias mastigadas pelas mídias, depois da ampliação nacional pelos pantógrafos usuais, depois do espanto e do júbilo daqueles que não viram in locu, mas viram in telus, pois todo o evento foi televisionado, o padre capitalizou ainda um tempo de fama.

Uma manchete de jornal destacou na época: “Depois de três meses de briga com a cúpula da Igreja Católica, o polêmico religioso vira zelador de uma mansão e promete lançar livro e uma grife com seu nome”.

Visto desse ângulo poderíamos acreditar que o sucesso duraria um tanto mais. Mas o preço a se pagar por ações midiáticas é muito alto e o Padre Pinto passou a viver na penúria e no esquecimento. Sem seu salário, teve que abandonar a casa paroquial que o acolheu por mais de 35 anos. Nunca lançou o tal livro bombástico que iria abalar os fundamentos da fé, nenhuma grife sua apareceu e a ocupação de zelador também acabou desandando.

Condenado ao silêncio obsequioso por ter causado profundo desconforto nas artérias clericais de Salvador, da Bahia e do Brasil, o celibatário passou seus últimos dias de forma discreta e quase invisível. Polêmico, irreverente, religioso e artista com uma série de exposições de quadros – inclusive em homenagem a Antônio Conselheiro, em Canudos -, Padre Pinto cumpriu sua missão. Por isso, em sua homenagem, bradamos: Sarará, Padre Pinto!

*Eduardo Bonzatto é professor da Universidade do Sul da Bahia (UFSB), permacultor e escritor; *Luis Gustavo Reis é professor e editor de livros didáticos.

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