Preencha o nome e sobrenome!
Administrador(a)
Política 17/Apr/2019 às 22:00 COMENTÁRIOS

O caos que impera no Brasil não é acaso, é projeto

O Brasil segue rumo ao colapso e o caos perpetrado atualmente no país não é acaso, é projeto. Enquanto a oposição não entender isso, irá continuar a dançar o baile da morte

caos impera Brasil não é acaso projeto governo bolsonaro
Jair Messias Bolsonaro e Dias Toffoli (Imagem: Marcos Corrêa | PR)

Sérgio Guedes Reis*, Jornal GGN

O conflito pesado, mas subterrâneo no interior do núcleo das principais instituições públicas do Brasil finalmente transbordou e se tornou guerra aberta. As entranhas do sistema estão agora expostas, e agora permitem mesmo aos olhos mais míopes ver o tamanho da crise política pela qual passa o país.

Na superfície, a briga entre STF, PGR e parte da imprensa desnuda o perigo da censura, indício clássico do fechamento dos regimes. Mas ela também mostra que atores do STF “piscaram”, como nos filmes de bang-bang. Parece que alguns deles finalmente perceberam que não ficarão para o final da festa.

Afinal, desde 2016 as facções saborearam e deglutiram todas juntas com extrema volúpia os quitutes que conseguiram amealhar – às expensas da Constituição. Quantas vezes nós ouvimos até há pouco tempo atrás, dos mesmos atores que agora se digladiam a céu aberto, que “as instituições estão funcionando”?

Saiba mais: O que sobrou do Brasil após o golpe de 2016?

O quão herético era questionar determinados métodos de combate à corrupção em 2015, quando então se dizia que o país estava sendo “passado a limpo”?

Mas o projeto que venceu em 2018 – e que só pôde fazê-lo em virtude de 2016 – ambiciona um horizonte de eventos próprio, no qual nada que soar institucional e democrático poderá lhe escapar.

É um projeto que ocupa as ruas para esvaziá-las, que nomeia quadros para Ministérios para des-institucionalizá-los, que formula leis para desconstitucionalizar a Constituição, que promete a “ponta da praia” para seus adversários.

Há segmentos que se aliaram a esse projeto há um bom tempo, seja por convicção, por aliança tática ou mesmo por omissão. Alertados de que o seguido rompimento das leis como instrumento para causas maiores era uma espécie de buraco negro insaciável, deram de ombros. O importante era tirar “sabe-se quem” do poder. O pensamento utilitário é central para explicar a forma de raciocínio dessa gente.

Em algum momento chegaríamos ao dia em que quem se regozijou pela suspensão arbitrária dos direitos dos adversários padeceria do mesmo achaque. É difícil acreditar que os freios que não foram postos no passado serão, dessa vez, colocados. Como na tira de Laerte, o pequeno cão agressivo, depois de solto, retorna contra seu dono como um imenso predador voraz.

A questão é que dentro das elites dirigentes não houve – e não há – qualquer modalidade de competição valorativa substancial. Em seu esforço por reassumir o poder, que vozes liberais no topo puseram a mão no ombro dos seus pares e disseram: “ei, calma aí, não vamos por aí, não”? Quem, dirigindo as instituições republicanas, clamou: “isso está fora da lei”, ou “você chama isso aqui de evidência? Daqui por diante não vou”. Onde esteve nosso Marechal Lott?

A competição, para relembrar Wanderley Guilherme dos Santos, parece ser realmente sobre “quem dará o golpe”. Tanto em 1962 como em 2019, a fresta de luz democrática parece cada vez mais ofuscada. Lá, como cá, parece não haver muita preocupação com esse porvir. Juscelino é favorito nas próximas eleições, e Lacerda governa a Guanabara pensando em voos mais altos.

A derrocada das democracias no mundo de hoje não depende mais da súbita presença de tanques de guerra nas ruas – ainda que, ao final do processo, eles possam aparecer. O desgaste é lento, a gestação é longa, a (des)obra depende da remoção diária de um, ou dois tijolinhos. Mas, no fim, o bebê de Rosemary é o mesmo.

Quem dá a cara a esse projeto soa como um grande arlequim para muitos. E talvez o seja, mesmo. Mas o projeto não precisa ser sofisticado ou erudito para ser bem-sucedido. E, em miúdos, ele pode ser bem eficaz, mesmo. Depende de enquadrar o Congresso e o STF. Para emparedar o primeiro, a receita passa pelo fantasma da Lava Jato. Rodrigo Maia já sentiu e percebeu isso. Para dominar o segundo, é válido ameaçá-lo, via Senado, com CPIs (como a da “Lava Toga”), com aberturas de processos de Impeachment e emendas voltadas a “acelerar” a aposentadoria de Ministros.

Enquanto joga uma instituição contra a outra e aguarda a oportunidade de nomear seus pit-bulls para o Supremo, tenta manter a chama acesa de sua claque – atacando figuras as quais, sabemos, foram fundamentais para dar sustentação institucional a esse projeto. Quanto mais crise, mais desconfiança. Quanto mais desconfiança, mais apelo à ordem.

De todo modo, alguns perguntariam: mas e a economia? Já caiu por dois meses seguidos, um resultado que nem os mais pessimistas poderiam prever, dado o banho de expectativas positivas apontado nas pesquisas pós-eleitorais. E ainda poderá piorar muito. Há quem possa transformar essa crise em oportunidade.

A “piscada” de Toffoli, Moraes e outros é aquela que se espera de quem dispõe de munição e se encontra sob ameaça real de perda de posição. Foi o mesmo tipo de “piscada” dada pela Lava Jato ao ver seu prestígio abalroado em virtude do escândalo da criação da fundação privada pra gerir a indenização da Petrobras – a “piscada”, no caso, foi prender o Temer, basicamente com fulcro em delações de 2017 (!). São bons exemplos de reações de elites que sentem o risco de se verem alijadas do butim e que, ao resistirem, se comportam de forma idêntica aos grupos que as pressionam. Nesse contexto, não há muito risco de as instituições darem certo. A corrida ao colapso ocorre a todo o vapor.

Meu ponto, parafraseando Darcy Ribeiro, é que o caos não é acaso, é projeto. É paradigma de gestão. E enquanto a oposição não entender isso, irá continuar a dançar o baile da morte, em meio aos convescotes regados a muita lacração. Sem formar uma coalizão que tenha no centro a defesa da Constituição, naufragaremos.

Leia também:
Presença de ministros folclóricos no governo Bolsonaro é estratégica
Números de três institutos revelam a deterioração do governo Bolsonaro
Bolsonaro é tão populista quanto Collor, revela estudo
Bolsonaro abraça a “velha política” e pede desculpas a Kassab
Bolsonaro é o 1º presidente brasileiro a não aceitar dados do IBGE

*Sergio Guedes Reis é Mestre em Ciências Sociais pela University of California, Los Angeles (UCLA), Mestre em Políticas Públicas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP).

Siga-nos no InstagramTwitter | Facebook

Recomendações

Comentários

  1. Hernando Monção Postado em 05/Jul/2019 às 16:36

    Quanta empolação e arrogância para descrever o óbvio: a esquerda acabou com o Brasil de tanto nos roubar. Tudo isso, através do absoluto aparelhamento do estado. Basta ter dois neurônios para constatar que o cidadão fez um retrato da esquerda, mesmo tentando insinuar que se trata de um governo que mal começou. Este, pode até ser uma incógnita, porque, ainda não temos elementos para avaliação. Aquele, é a certeza da continuidade da corrupção desenfreada. Só para lembrar: o lula está preso, babaca.