Redação Pragmatismo
Desenvolvimento Brasileiro 07/Mar/2019 às 17:47 COMENTÁRIOS

Resistir às trevas e revisitar o Brasil

É chegado o momento de nós, professores, jornalistas, músicos e artistas críticos e progressistas, retornarmos aos clássicos

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Imagem: Arquivo público do Distrito Federal

Luís Felipe Machado de Genaro*, Pragmatismo Político

No Brasil de Março de 2019, conhecimento é lixo. Debate é descartável. Crítica é subversão (em um período de esvaziamento cognitivo, só comparado aos anos áureos da ditadura civil-militar, não faltam segmentos da sociedade para ‘delatar’ aqueles que acreditam destruir os ‘valores’ e a ‘moralidade’).

Mesmo na ditadura, muitos procuravam ficar a parte ou distantes dos acontecimentos políticos – por temerem a própria vida ou a de seus filhos, ou simplesmente por ignorarem conscientemente o que ocorria. Hoje, não. A horda bolsonarista rechaça o conhecimento sério; ataca debates e encontros acadêmicos; e, por ignorância também consciente, almeja eliminar os que são críticos, sejam professores, jornalistas, músicos ou artistas.

Se o mundo descontrolado e entorpecente da internet, com seus portais de notícias falsas e sites descaradamente duvidosos, e ‘obras’ de caráter sensacionalista que recheiam livrarias, rasas e cheias dos mais baixos preconceitos, corroem as mentes e corações brasileiros, foi por que nós, progressistas, assim deixamos. O sinal mais vívido desta derrota foi o último dia 28 de Outubro de 2018.

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O nosso trabalho é árduo. Como escrevi em último artigo publicado pelo Pragmatismo, a resistência ocorrerá nas ruas e no Parlamento. Porém, pode e deve ocorrer nas escolas e nas universidades, nas praças e campi de todo o Brasil. Não como forma de doutrinação, mas construção de conhecimentos.

Em um período onde a formação histórica da sociedade brasileira passa por tamanho revisionismo (visto que muitos acreditam ‘não ter existido ditadura’, ou que ‘São Paulo sempre foi o motor do Brasil’, e mesmo que ‘os escravos tinham outros escravos e a escravidão foi branda’), temos, como disse acima, um trabalho difícil pela frente.

Difícil, mas não impossível.

Precisamos revisitar os clássicos brasileiros: Darcy Ribeiro, Sérgio Buarque, Florestan Fernandes, Caio Prado Junior, Raymundo Faoro, Josué de Castro, Celso Furtado, entre tantos outros interpretes do Brasil profundo, das mazelas nacionais e de seus processos históricos estruturais.

Outros grandes nomes do nosso pensamento crítico que despontaram nas últimas décadas e mesmo nos últimos anos, como Ricardo Antunes, Carlos Fico, Djalma Ribeiro, Lilia Schwarcz, Vladimir Safatle, Marcio Poshman, André Singer, etc, carecem de mais leitura e atenção. Urge devorarmos suas ideias com o intuito de transformá-las em realidade: políticas públicas e resistência contra toda forma de descriminação e perda de direitos historicamente conquistados.

Em tempos sombrios, onde se louva a irracionalidade e se compartilham impropérios e inverdades, mesmo a respeito de fatos fartamente documentados como a história da ditadura civil-militar de 1964, precisamos transformar conhecimentos por vezes elitistas e floreados por um academicismo distante em saberes de todos e para todos.

É chegado o momento de nós, professores, jornalistas, músicos e artistas críticos e progressistas, retornarmos aos clássicos, debater obras de grande valor para a atualidade e encontrar maneiras de compreender, transformar e debater com os milhares de milhões de brasileiros que ainda se encontram distantes destes conhecimentos.

Entre a urgência e a angustia, de forma horizontal e solidária, precisamos revisitar o Brasil.

*Luís Felipe Machado de Genaro é historiador e mestre em história pela UFPR

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Comentários

  1. Edison Carleti Postado em 05/Jul/2019 às 16:37

    Excelente texto! A falta de uma politização foi determinante às recentes quedas sofridas pela esquerda mundial nos últimos tempos. E aqui no Brasil o aconteceu com nossa esquerda não foi nada muito diferente disso. Basta analisarmos com olhar crítico o que foram os governos do PT. Ao invés de politizarem os trabalhadores para transformá-los agentes combativos ao capitalismo imperialista, os governos do PT preferiram dar um cartão de crédito para cada trabalhador, criando assim uma classe trabalhadora consumista, ao invés de comunista. Essa classe teve um curto período mágico, típico dos contos de fada, ao emergir nas "delícias" do capitalismo. Pois bem, o encanto acabou, a carruagem virou abóbora e os trabalhadores voltaram a ser ratos. Revoltados, esses pobres, que um dia foram emergentes sociais, mas ainda analfabetos na política, se juntaram à burguesia contra o PT. É a criatura voltando-se contra o criador. Sem uma conscientização política decente, infelizmente o que sempre iremos ver é povo trabalhador elegendo bestas, todas lacaias do poder econômico e mais precupadas em divulgar na internet coisas sobre o ânus alheio.