Redação Pragmatismo
Desenvolvimento Brasileiro 05/Feb/2019 às 16:36 COMENTÁRIOS

Divididos cairemos: Brasil quebrantado e a centelha de esperança

Vivemos tempos obscuros, trágicos – na América Latina e no mundo. Divididos cairemos. E essa queda custará vidas, verterá sangue e será histórica.

Divididos cairemos Brasil centelha de esperança
Imagem: MTST

Luís Felipe Machado de Genaro*, Pragmatismo Político

Em 08 de setembro de 2017 redigi meu último artigo para o Pragmatismo Político. Nele, fazia uma breve, mas contundente crítica ao Brasil do presidente Lula. Relembrava as semelhanças e diferenças entre o presidente operário e Getúlio Vargas. Hoje, quando me sentei para redigir este texto, que mais se assemelha a um desabafo após longos meses irrequieto, o país mudou. Mudou muito. E para pior.

Desde setembro de 2017, assassinatos políticos e perseguição a lideranças à esquerda do espectro político tornaram-se cotidianas. Marielle Franco, combativa vereadora do PSOL carioca fora executada. Luís Inácio Lula da Silva, o primeiro colocado nas pesquisas para presidir a nação, fora preso – prisão contestada por centenas de advogados e juristas mundo a fora, simpáticos ou não a pessoa do ex-presidente. Jean Willys, também eleito pelo PSOL do Rio, temendo pela sua vida, se exilou.

Nesta toada, uma escancarada violência política contra petistas e simpatizantes declarados (mesmo de outros partidos, como PSOL e PCdoB) tornou-se recorrente. Espancamentos, tiros, facadas. Em outubro, uma eleição como nenhuma outra, onde uma máquina de mentiras e desinformação funcionou 24 horas por dia, todos os dias da semana, sem cessar – galgando à presidência da República uma das figuras mais vis e grotescas da política brasileira em décadas. Recentemente, algumas personalidades soltaram o verbo. O jornalista Mino Carta foi categórico: “o Brasil estabeleceu a demência como forma de governo”. Já o ator Wagner Moura, sintetizou: “Vivemos uma ode à mediocridade”.

De 2017 para 2018, entrando em 2019, páginas infelizes da nossa História escritas com sangue. Não fora uma ou duas pessoas que apontaram o golpe jurídico-parlamentar contra Dilma Rousseff, desfechado em 2016, como um acontecimento perigoso, como um abismo que se abriria de forma profunda na vida nacional, onde monstros e demônios (por favor, expressões metafóricas), voariam em busca e com o intuito de destruir os parcos avanços sociais, políticos e educacionais conquistados nos últimos anos, que remontariam aos governos de Fernando Henrique (PSDB), Lula e Dilma (PT). Não obstante, destruir com unhas e dentes os resquícios de civilidade e cidadania conquistados pelo sofrido povo brasileiro – aqui, na acepção de Darcy Ribeiro – excluindo, logicamente, a classe dominante nacional.

O tempo passou. A realidade se impôs. O Brasil de 2019 é horrendo, quebrantado e vilipendiado. A única arma que constava no coldre no ex-capitão – o discurso anticorrupção –, em apenas um mês de governo foi retirada e posta à prova. E de nada mais adianta o ex-juiz tagarelar…

O castelo desmorona: mesmo bolsonaristas convictos olham torto, de canto, pensativos em erros cometidos em um passado recente, inclusive inverdades e descalabros insanamente compartilhados em suas redes sociais. Tudo nos levou ao fatídico 28 de Outubro. Dia triste, onde tantos choraram. As coisas não faziam sentido. Almejávamos estar vivendo em realidade paralela – realidade onde o racismo, o machismo, a truculência e a desmemoria não teriam afetado em cheio o coração do brasileiro.

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Fevereiro de 2019. É chegado o momento. A esquerda brasileira, como nunca antes, carece de união. No Parlamento, ecos que anunciam o fim da fragmentação são ouvidos. Sabemos que a “união” nunca fora o mote das esquerdas brasileira e latino-americana. Cá está o nosso maior erro no trilhar da História.

As Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo precisam se agitar, voltar às ruas. Os sindicatos e sindicalistas combativos, os movimentos estudantis em escolas e universidades, ocupações periféricas e faveladas, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), nos campos, e o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), nas cidades, precisam, por fim, radicalizar.

Estamos atordoados, cansados e confusos. Todos foram tragados por este mar de sentimentos que tanto nos causou tristeza e sofrimento. Se não me falha a memória, foi o saudoso Leonel Brizola quem comentou, dentre tantas frases memoráveis: “divididos seremos sempre degraus para a direita subir”.

Vivemos tempos obscuros, trágicos – na América Latina e no mundo. Divididos cairemos. E essa queda custará vidas, verterá sangue e será histórica.

*Luís Felipe Machado de Genaro é historiador e mestre em história pela UFPR

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