Redação Pragmatismo
Ciência 06/Feb/2019 às 13:00 COMENTÁRIOS

As ondas de rádio e os problemas para uma configuração de terra esférica (parte II)

A questão mais importante sobre as discussões acerca da condição da terra é a força da verdade estabelecida.

ondas de rádio e os problemas para uma configuração de terra esférica

Eduardo Bonzatto*, Pragmatismo Político

Unicórnios, salamandras, harpias, hamadríades, sereias e ogros. Talvez acredite em fadas também, orixás quem sabe? Ou átomos, buracos negros, anãs brancas, quasars e protozoários. E diria com aquele ar ‘levemente pedante’:- “Quem só acredita no visível tem um mundo muito pequeno”.
Caio Fernando Abreu

As ondas de rádio carregam uma propriedade que normalmente é incompatível com a esfericidade terrestre. Diante de obstáculos severos, essas ondas simplesmente se dispersam. O que tornaria impossível a transmissão dessas ondas para além das distâncias em que a curvatura funcione como um impedimento natural a sua expansão.

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Aqui temos uma questão importante sobre os princípios de propagação de ondas.

Onda é a propriedade física em todos os meios de perturbação. A teoria geral de propagação de ondas de rádio trata de um conjunto de técnicas que permite transmitir a grandes distâncias e através do espaço. Mas essa propagação depende do meio em que se propaga.

ondas de rádio e os problemas para uma configuração de terra esférica

As ondas de rádio são retilíneas em sua propagação, acompanhando as placas tectônicas do planeta. O modo de explicação que justifique as grandes distâncias de sua propagação para muito além da curvatura da terra se resume ao fenômeno chamado de “pulo”.

O comprimento do pulo é a distancia no chão coberta por um sinal de radio apos ter sido refratado a partir da ionosfera e retornado a Terra. O limite superior do comprimento do pulo é determinado pelo comprimento da ionosfera e a curvatura da Terra. Para as alturas de 100 km e 300 km das regiões E e F, os comprimentos máximos dos pulos com um angulo de elevação de 4 graus, são 1800 km e 3200 km, respectivamente. Distancias maiores que estas irão requerer mais que um pulo. Por exemplo, a distancia de 6100 km iriam requerer um mínimo de 4 pulos pela região E, 2 pulos via região F com tal angulo de elevação. Mais pulos podem ser necessários com ângulos de elevação de antenas maiores.

Comprimento de pulos baseados no angulo de elevação da antena de 4 graus e alturas de 100 km e 30 km, respectivamente para as camadas E e F

ondas de rádio e os problemas para uma configuração de terra esférica
Comprimento de pulos baseados no angulo de elevação da antena de 4 graus e alturas de 100 km e 30 km, respectivamente para as camadas E e F

Segundo esses estudos, não há limites a essa propagação por conta justamente do pulo. Chamam de zona de sombra a esses limites quando efetivam sua incompletude. Daí para o desvanecimento, ou seja, para o confuso trajeto da onda que implique em sua dispersão é um pulo. Aqui temos o paradoxo dos pulos. Há zonas de sombra e de desvanecimentos.

Claro está que o recurso da ionosfera é também um recurso limitado. Por exemplo, quando tais ondas se dirigem ao outro lado do planeta. Não há ângulo para que tais trajetórias se efetivem. Eis o limite do pulo. Todavia, as ondas de rádio enviadas ao espaço (radiotelescópio de Arecibo em Porto Rico e o radiotelescópio Parkes, na Austrália, dentre tantos, todos receptores e emissores de ondas de rádio) não retornam para o planeta impedidas pela ionosfera (“Astrônomos enviaram uma mensagem por rádio em direção a uma estrela que fica a pouco mais de 12 anos-luz do nosso planeta; se houver resposta, ela chegará em 25 anos-luz”). É uma contradição irreconciliável. Os radiotelescópios são a principal ferramenta da radioastronomia, atividade que remonta aos anos 30 do século passado, quando Karl Guthe Jansky passou a investigar a origem da estática que interferia na operação de circuitos de radiotelefone em comunicações transoceânicas. Parece ser mais fácil acreditar que uma onda retilínea se dirija de forma reta para a ionosfera e lá rebata para formar outra reta em ângulo. Quando a única explicação plausível é a de que a terra é plana e as ondas de rádio viajam de modo retilíneo e uniforme em direção aos rádios receptores, estejam onde estiveram nesse planeta. Pois, afinal, podemos captar tais ondas nessas zonas, como provam os antigos rádios dos anos pós guerra.

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Era absolutamente comum que os aparelhos de rádio desse período alcançassem as emissoras de rádio do mundo todo.

Sou um colecionador de rádios antigos. Esse a seguir é muito significativo para as discussões que proponho aqui.

Observe como bem ao lado da rádio Moscou está Paramaribo:

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Nas fotos podemos ver o dial que captura rádios transmissoras de todo mundo. Considerando os pulos e as zonas de sombras, isso seria impossível, exceto se a terra fosse plana. Aliás, isso também explicaria a desnecessária existência de satélites, uma vez que a transmissão de todas as comunicações planetárias poderia, e está sendo, ser efetuada por ondas de rádio, infinitamente mais baratas e econômicas e infinitamente mais eficazes.

Ciência como um sistema fechado de crenças: demonstrar que a terra é plana basta um prumo e uma curva de nível. Já para demonstrar que ela é redonda se fazem necessários cálculos matemáticos misteriosos que se transformam em verdades absolutas inquestionáveis.

Curva de nível é o nome usado para designar uma linha imaginária que agrupa dois pontos que possuem a mesma altitude. Por meio dela são confeccionados os mapas topográficos, pois a partir da observação o técnico pode interpretar suas informações através de uma visão tridimensional do relevo.

O prumo é um instrumento para detectar ou conferir a vertical do lugar e elevar o ponto. Ele pode ser adaptado a um prisma ortogonal ou um tripé. Sua utilização é obrigatória na construção civil, uma vez que os traços providenciados pela engenharia passam por ângulos retos.

Hoje em dia, estão se tornando cada vez mais comuns meios simples, precisos e rápidos de conferir o prumo com instrumentos de medição como o nível laser, que projetam linhas verticais e horizontais.

A questão mais importante sobre as discussões acerca da condição da terra é a força da verdade estabelecida.

Venho trilhando um caminho de dúvidas acerca do mundo que recebi de presente completamente pronto quando por aqui cheguei. Agora tenho mais de sessenta anos e creio que a última fronteira dessa jornada é justamente a dúvida acerca da forma do planeta em que vivo.

Mas essa dúvida é atacada com tamanha veemência por pessoas tão ou mais ignorantes como eu que me levo a crer que todo o arcabouço que justifique a forma consagrada é frágil como uma faiança.

A primeira reação é de ridicularizar minha dúvida. A segunda é de que o inverso apontaria para uma teoria da conspiração sem propósito ou razão. Afinal, quem ganharia em fraudar tamanha mentira.

O mundo anterior à modernidade era radicalmente diverso do que conhecemos hoje em dia. Era um mundo tribal e quase toda sua sabedoria vinha dos sentidos e não da razão. O mundo da razão é moderno e Descartes (penso, logo existo) foi um de seus patronos.

Essa operação foi simples e complexa. O mundo tribal é marcado pela presença de um mistério insolúvel: deus está no centro da aldeia. Seja ele a natureza, as entidades, o senhor do mundo. Deus está no centro de todas as formas de existência. É o mistério. E isso é absolutamente sensível. A operação necessária a quebrar essa centralidade caminhou por uma senda simples e ao mesmo tempo complexa: o homem só poderia ser a medida de tudo se nele estivesse depositada a verdade.

A verdade é uma coisa fantástica. É em si a revelação do mistério. Ou a propriedade de estar conforme os fatos e a realidade. É uma forma intraduzível de ligar a percepção, a sensibilidade, ao que podemos provar. Para isso, o sentido de fidelidade, de constância ou sinceridade em atos, palavras e caráter torna a verdade algo que acontece dentro de um sistema de valores.

Nesse primeiro movimento da modernidade, foi preciso estabelecer que tipo de coisa é verdadeira ou falsa. Mas primeiramente foi preciso admitir o que torna verdadeiro ou falso o portador da verdade. Descartes simplificou muito a questão quando reconheceu que é a certeza o critério maior da verdade. Ora, quem detém a certeza? O filósofo!

Aí ficou fácil, pois dependia de um percurso singular o acesso à verdade, um percurso que nem todos poderiam seguir. Escolas, universidades, teorias, conhecimento foram então agendados para estabelecer o nascimento dos filósofos e com eles o reconhecimento das certezas que produziriam a verdade.

Mas a certeza teria que sofrer um apanágio de mistério cuja função foi a de restringir a seus decifradores o poder necessário a alterar a rota final do mistério. Dessa vez qualquer mistério seria demonstrável. Dessa forma, a antiga linhagem do mistério passou na modernidade a ser administrada por novos herdeiros, os filósofos e seus comparsas, a demonstrar que a verdade poderia ser traduzida por fórmulas.

Assim o cânon foi sendo estabelecido e verificado. Matemáticos, filósofos, dentre outros tramaram a partir do humanismo o iluminismo. A enciclopédia foi o ápice desse cânon. Depois, escolas, alfabetização, controle.

A rigor, o que estava ali podia ser verificado (fazer verdades) com os testes matemáticos, físicos, químicos para reconhecer a verdade das afirmações. Chamaram a isso de método científico, algo que só os cientistas, ou aqueles que conheciam tal método poderiam partilhar. Todos os outros tiveram que acreditar nessas verificações.

Até o início da modernidade a forma prevalecente da terra era plana. Depois o orbe se tornaria a forma, pautada sobre ombros de gigante, ou seja, de que foi Pitágoras quem, na antiguidade perdida, primeiro estabeleceu sua forma. Galileu, no alvorecer desse novo tempo moderno, reconheceu que o centro do universo era o sol e não a terra. E com isso centrou também a forma do planeta no grande jogo dos movimentos estelares. Tudo isso a despeito da percepção que todos tinham da terra como centro em torno do qual circulavam o sol e a lua. Mas agora era a astronomia, a matemática, a filosofia quem ditava as novas regras da percepção.

Pouco importou que em 1616 a Inquisição tenha se pronunciado contra a teoria heliocêntrica de que o sol é o centro imóvel do universo, pois a igreja também assumiu o orbe dentre seus símbolos. Afinal, para nós a inquisição é a representação violenta para a manutenção da fé. Mas tanto o livro de Copérnico, da revolução das órbitas celestes, quanto o princípio estabelecido por Galileu, foi proibido como realidade física, mas permitido como hipótese matemática e ferramenta conveniente para descrever o movimento dos corpos celestes. Aí iniciou sua jornada rumo à verdade que hoje compartilhamos.

A hegemonia é um processo tipicamente moderno. Pois ela é um alastramento pelo consenso. Mas carece também de instituições que possam transmitir tais certezas de tal sorte que todos aqueles que resistam a seus protocolos sejam ridicularizados. A hegemonia é um agregado de que a percepção divulgada é a melhor e condena qualquer um que não esteja de acordo com suas verdades à posição de inferioridade.

Foi exatamente assim que os artesãos que edificavam casas de taipa de barro foram substituídos pelos cálculos dos engenheiros e do uso de alvenaria. É um exemplo do número de fazeres que desapareceram diante dos modelos que se hegemonizaram.

Mas esse conjunto de certezas e de verdades engendrou um mundo totalmente diverso da trajetória humana anterior. Tecnologia, arte, educação, desenvolvimento, progresso, futuro, expansão do modelo único de racionalidade instrumental, pensamento dicotômico, trabalho, opressão, poder, tipos de família, enfim, uma forma de vida unidimensional que tem causado impactos diversos sobre a vida.

A fé na ciência e na medicina necessária a que um pai, uma mãe, deixe que alguém enfie uma agulha no filho recém nascido pautado na crença de que a vacina irá imunizar a criança de tais e quais doenças é prova de nossa relação com a verdade estabelecida.

Mas também uma forma de crença na política em que a representatividade pode promover, algum dia, o aparecimento de um salvador da pátria capaz de trazer, num mundo de desigualdades, a igualdade e a justiça.

Depois de uma vida seguindo os protocolos da hegemonia, hoje eu abraço a dúvida em seu maior edifício: a forma do planeta terra, que se não fosse plano, chamaria redondeta.

Nikola Tesla foi o maior dos cientistas modernos e descreveu a Relatividade como “um mendigo vestido de púrpura que os ignorantes tomam por um rei“. A teoria, disse ele, “envolve todos esses erros e falácias e veste-os em magnífica vestimenta matemática que fascina, deslumbra e deixa as pessoas cegas aos erros subjacentes. A teoria é como um mendigo vestido de púrpura que os ignorantes tomam por um rei. Seus expoentes são homens muito brilhantes, mas são metafísicos e não cientistas. Nenhuma das proposições da Relatividade foi provada. Eu defendo que o espaço não pode ser curvado, pela simples razão de que ele não pode ter propriedades. De propriedades só podemos falar quando se lida com a matéria preenchendo o espaço. Para dizer que na presença de grandes corpos, espaço torna-se curvado é equivalente a afirmar que algo pode agir sobre o nada. Eu, por exemplo, me recuso a assinar a tal ponto de vista. Os cientistas de hoje substituíram experiências pela matemática e vagueiam equação após a equação, eventualmente construindo uma estrutura que não tem relação alguma com a realidade.”

A dureza e o peso da racionalidade, nossa insensibilidade para a aventura e para o mistério, nossa incapacidade em ver o invisível, tudo que é diáfano e fluido e cujo peso de nossas crenças nos valores do pensamento nos isola de um mundo mágico que, no entanto, está aí, ao nosso redor, o tempo todo. Deus não constrói linhas retas.

A força básica que explica e justifica a esfericidade da terra é a gravidade. “Em 1687, Isaac Newton descreveu a gravidade, uma força de atração proporcional à massa dos corpos em interação e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre eles. Sua teoria explica rigorosamente tudo o que acontece em nosso planeta, e mesmo até onde nossas viagens espaciais alcançam. Há pouco mais de cem anos, em 1915, com a Teoria da Relatividade Geral, Albert Einstein refinou a teoria de Newton, que dava conta da escala de tamanho do nosso planeta, mas não explicava a gravidade mais perto do Sol, por exemplo. Para Einstein, a gravidade é resultado da curvatura do espaço-tempo, que regula a movimentação de todo objeto. E pronto. Não havia nada a questionar aí.”

Aqui a questão da gravidade encontra seus limites teóricos. Afinal é sempre de teorias que vivemos na modernidade. E é pela teoria que ela funciona bem.

Até o presente momento, os teóricos descrevem quatro forças naturais atuantes: o eletromagnetismo, as forças nucleares fortes e fracas e a gravidade. Erik Verlinde, um físico holandês, diz que a gravidade não é uma dessas forças. Criou a teoria do cabelo em dia úmido:

Funcionaria mais ou menos assim: seu cabelo fica cheio de frizz no calor e na umidade porque há mais possibilidades de ele estar ondulado do que liso, e a natureza gosta de opções. Então, deixar o cabelo liso exige o emprego de uma força que elimina as opções da natureza. A força que nós chamamos de gravidade seria simplesmente um produto da tendência da natureza de maximizar a desordem.”

A questão é que tanto a relatividade geral proposta por Einstein, que serve para explicar movimentos de corpos gigantescos como planetas, quanto a mecânica quântica, que regula o universo microscópico de partículas menores do que um átomo são incompatíveis.

São teorias que separadamente funcionam, mas no momento em que se pretende unificar as forças, se revelam como epistemologias muito diversas que explicam, cada uma, universos distintos.

O que a modernidade se esforçou para empreender no mundo físico foi uma necessidade absoluta de ordem, de ordenamentos, de um ordenamento que hierarquizasse tudo e todos. Esse esforço teórico e prático, contudo, encontra suas próprias limitações, pois o movimento sempre será caótico. É o caos que movimenta toda vida. O caos e nada mais.

Leia aqui todos os textos de Eduardo Bonzatto

Somos como que prisioneiros da gravidade. Um conceito que escapa a qualquer prova nos envolve e limita nossos movimentos para o voo. Ao crermos na gravidade, nos mantemos sob o peso de sua ação. Me lembro quando li Carlos Castañeda e ouvi bem dentro da minha cabeça a voz melíflua de Dom Juan dizendo a seu aprendiz: agora pule e voe! E ele pulou e voou.

Aqui chegamos no deus ex máquina de nossa estranha discussão. A que envolve de modo absolutamente randômico terra plana e ausência de gravidade.

Se a hipótese da gravidade, que explicaria a esfericidade do mundo, impede a unificação de forças que se encontram do outro lado do espectro, o mundo quântico, que por si é capaz de dobrar o tempo e o espaço, justamente devido ao fato de que no universo do caos as partículas e, por extensão, todos nós, enfim, de podermos dobrar o tempo e o espaço devido ao fato de que as forças de atração estão em nós e não dos grandes corpos siderais, o amor vence.

Me explico: para que a gravidade exista mesmo, ela só pode exercer influência sobre os corpos estelares e é incompatível com o universo interior, cuja regra são as forças quânticas. O amor, essa força de atração monumental, existe de modo irrevogável no interior da vida, num nível muito sutil, sendo ela a responsável por dobrar o tempo e o espaço aproximando os seres e disponibilizando cada célula para o encontro e para a homeostase. A unificação de todas as forças é essa aí, o amor, aquela parte íntima de cada ser vivente que em seu encontro para a força da vida emana energias tão leves que tornam a própria vida exitosa.

Talvez você ainda não tenha entendido. A gravidade exerce sua força de modo externo ao corpo. Está aprisionada à fórmula de Newton nesses termos:

Newton acabou por publicar a sua, ainda hoje famosa, lei da gravitação universal, no seu Principia Mathematica, como:
F = Gm1m2/r2
onde:
↬ F = força gravitacional entre dois objetos
↬ m1 = massa do primeiro objeto
↬ m2 = massa do segundo objeto
↬ r = distância entre os centros de massa dos objetos
↬ G = constante universal de gravitação
A força de atração entre dois objetos é chamada de peso.

Do ponto de vista prático, a atração gravitacional da Terra confere peso aos objetos e faz com que caiam ao chão quando são soltos (como a atração é mútua, a Terra também se move em direção aos objetos, mas apenas por uma ínfima fração). Ou seja, trata-se de uma atração entre corpos e suas exterioridades, aqui chamadas de massa e peso.

Faço notar que tanto o corpo de objetos quanto o de planetas funcionariam de modo similar. O problema que é a física quântica trata de movimentos infimamente pequenos, no interior dos átomos e mais além, nas cordas. Aí a gravidade entra no movimento de entropia ou de caos e não pode se sustentar. Daí a impossibilidade de fundir as forças todas, embora todas as outras se alinhem bem no nível quântico, exceto a gravidade.

No nível quântico a atração é de outra natureza. E é aqui que a homeostase acontece. Ora, a homeostase é a própria natureza da vida, ou de como ela se reequilibra para prosseguir fluindo na instabilidade.

De fato, só nesse nível existe a manifestação da energia como um quantum de afeto. Tanto a atração quanto o reequilíbrio se harmonizam nesse nível, a despeito de que todo o movimento da vida seja caótico, em busca da entropia.

A homeostase é conquistada pela forma comunicativa mais ínfima que existe, os sentimentos e nesse nível os sentimentos não só comunicam, mas também e principalmente emanam um tipo de energia que na superfície de nossa percepção chamamos de amor.

Pois a tensão entre a gravidade, ou força exterior e o movimento quântico, força interior, e aqui tanto vale para o interior nosso, como o interior dos átomos ou dos planetas, pois essa tensão entre o exterior e o interior tem necessariamente que reconhecer o movimento interior da força quântica como soberano da nossa existência.

Uma força, qualquer força, deve ser intrínseca à vida e nunca expressa de fora pra dentro.

As conexões acontecem em meio ao caos a ligar as células e os átomos em equilíbrio em meio à instabilidade.

O sentimento é esse sentir sem explicar. É o caos. A imprevisibilidade e a incerteza da vida, que estranhamente é a própria vida.

Einstein escreveu à sua filha antes de morrer:

Quando propus a teoria da relatividade, muito poucos me entenderam, e o que lhe revelarei agora para que o transmita à humanidade, também se chocará contra a incompreensão e os preconceitos do mundo. Peço-lhe mesmo assim, que o guarde o tempo todo que seja necessário, anos, décadas, até que a sociedade haja avançado o suficiente para acolher o que lhe explico a seguir. Existe uma força extremamente poderosa para a qual a ciência não encontrou ainda uma explicação formal. É uma força que inclui e governa todas as outras, e que está inclusa dentro de qualquer fenômeno que atua no universo e que ainda não foi identificada por nós. Esta força universal é o Amor. Quando os cientistas buscam uma teoria unificada do universo, esquecem da mais invisível e poderosa das forças. O amor é luz, já que ilumina quem o dá e o recebe. O amor é gravidade porque faz com que umas pessoas sejam atraídas por outras. O amor é potencia, porque multiplica o melhor que temos e permite que a humanidade não se extinga no seu egoísmo cego. O amor revela e desvela. Por amor se vive e se morre. Esta força explica tudo e dá sentido em maiúscula à vida. Esta é a variável que temos evitado durante tempo demais, talvez porque o amor nos dá medo, já que é a única energia do universo que o ser humano não aprendeu a manobrar segundo seu bel prazer. Para dar visibilidade ao amor, fiz uma simples substituição na minha mais célebre equação. Se no lugar de E=mc² aceitamos que a energia necessária para sanar o mundo pode ser obtida através do amor multiplicado pela velocidade da luz ao quadrado, chegaremos à conclusão de que o amor é a força mais poderosa que existe, porque não tem limite. Após o fracasso da humanidade no uso e controle das outras forças do universo que se voltaram contra nós, é urgente que nos alimentemos de outro tipo de energia. Se quisermos que nossa espécie sobreviva, se nos propusermos encontrar um sentido à vida, se desejarmos salvar o mundo e que cada ser sinta que nele habita, o amor é a única e última resposta. Talvez ainda não estejamos preparados para fabricar uma bomba de amor, um artefato bastante potente para destruir todo o ódio, o egoísmo e a avareza que assolam o planeta. Porém, cada individuo leva no seu Interior , um pequeno mas poderoso gerador de amor cuja energia espera ser liberada. Quando aprendermos a dar e receber esta energia universal, querida Lieserl, comprovaremos que o amor tudo vence, tudo transcende e tudo pode, porque o amor é a quintessência da vida. Lamento profundamente não ter sabido expressar o que abriga meu coração, que há batido silenciosamente por você toda minha vida. Talvez seja tarde demais para pedir-lhe perdão, mas como o tempo é relativo, preciso dizer-lhe que a amo e que graças a você, cheguei à ultima resposta. Seu pai,…

Tarkovsky deixa uma pista da força que a racionalidade tem para a estabilidade da percepção. Em algum momento do filme Stalkers, diz:

Hoje sabemos que, para a humanidade como um todo, a Visita transcorreu em grande medida sem deixar traços. Para a humanidade, tudo passa sem deixar traços. Naturalmente, é possível que, colhendo castanhas nessa fogueira, venhamos a nos deparar com algo que torne a vida na terra absolutamente insuportável. A humanidade como um todo é um sistema por demais estável, nada a perturba.”

Isso vale para extraterrestres, para a planicidade da terra, para as fadas.

A estabilidade se manifesta em tudo ao ressignificar e manter os princípios, como nos sete pecados capitais atualizados:

A gula é o ifood; a ira o twitter; a luxúria, o tinder; a inveja, o facebook; a preguiça, o netflix; a soberba, o linkedin; a vaidade, o instagram.

Enquanto isso, “em algumas línguas de Moçambique não existe a palavra “pobre”. O indivíduo é pobre quando não têm parentes. A pobreza é a solidão, a ruptura das relações familiares que, nas sociedades rurais, servem de apoio à sobrevivência. Os consultores internacionais especialistas em elaborar relatórios sobre a miséria, talvez não tenham em conta o impacto dramático das relações familiares e das relações de entre ajuda. Nações inteiras estão se tornando “órfãs”, e a mendicidade parece ser a única via de uma agonizante sobrevivência”. (Mia Couto, E se Obama fosse africano?, 2009)

Retomando aqui o princípio dessas lógicas, um acredita no que existe enquanto o outro existe no que acredita.

A primeira parte desse texto está disponível aqui.

*Eduardo Bonzatto é professor da Universidade do Sul da Bahia, permacultor e colaborou para Pragmatismo Político

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