Redação Pragmatismo
Meio Ambiente 13/Feb/2019 às 16:49 COMENTÁRIOS

Filha de Chico Mendes reage ao comentário de Ricardo Salles

"Enquanto a luta do Chico é pela defesa da vida, o modelo de desenvolvimento proposto por Ricardo Salles só leva à morte e destruição"

Angela Filha de Chico Mendes reage ao comentário de Ricardo Salles
Ricardo Salles e Angela Mendes (Imagem: Captura de tela e Cristina Uchôae Galuco Faria | RBA)

Glauco Faria, RBA

Angela Mendes, coordenadora do Comitê Chico Mendes e filha do líder seringueiro, falou sobre a declaração do ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, que, em entrevista no programa Roda Vida, da TV Cultura, afirmou não conhecer um dos principais nomes da defesa ambiental no mundo. “Que diferença faz quem é o Chico Mendes neste momento?“, questionou.

Entendo perfeitamente a posição e o questionamento desse ministro do Meio Ambiente, considerando quem ele é, quem ele defende, e como ele tenta minimizar e relativizar esses crimes ambientais em Mariana, Brumadinho e tantos outros que vão ser facilitados por essa flexibilização da legislação ambiental e principalmente dos licenciamentos para essas obras“, comenta Angela. “O resultado é esse que estamos vendo no país, só tragédias.”

Ela também contesta o modelo de desenvolvimento defendido pelo governo de Jair Bolsonaro. “O que tenho para dizer a esse ministro é que o Chico, e a luta que ele liderou, tem um legado positivo de floresta preservada, de vidas preservadas. Enquanto a luta do Chico é pela defesa da vida, o modelo de desenvolvimento proposto por esse governo só leva à morte e destruição“, pontua.

Quem é esse ministro – que talvez a gente não possa dizer que é o ministro do Meio Ambiente, mas ministro da Mineração – que defende justamente o lado de quem mata, dos assassinos de Chico, de quem tenta destruir a Amazônia e o meio ambiente? Ele defende o lado dele, das grandes mineradoras que querem a qualquer custo entrar na Amazônia e, com certeza, se ele continuar como ministro do Meio Ambiente, a gente vai ter tragédias, crimes absurdos pela frente. Por esse pensamento desse senhor já percebemos o que nos aguarda para esse futuro.”

“Pequenez ética do ministro”

Na noite desta terça-feira (12), o Comitê Chico Mendes também divulgou nota a respeito da entrevista de Ricardo Salles.

Leia também: Quem sustenta o ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro?

Segundo o texto, a afirmação de não conhecer “a história de um dos Heróis da Pátria, conhecido e reconhecido nacional e internacionalmente“, por si, “já deveria ser seguida por um ato de grandeza: o pedido de demissão. Mas é esperar demais de alguém com a pequenez ética desse senhor“.

A relevância de Chico Mendes, senhor ministro, está no fato de que, como seringueiro, político militante, liderança sindical, presidente de um sindicato de trabalhadores rurais nos confins da Amazônia ocidental, em Xapuri, conseguiu, com sua incrível capacidade de situar-se à frente de seu tempo, perceber que não estava lutando só pelas seringueiras ou pela floresta, mas que estava lutando, como ele mesmo disse, ‘pela humanidade’“, diz a nota, lembrando, como um dos legados a instituição das reservas extrativistas.

Se ele não tivesse sido, lá atrás, um porta voz tão respeitado – e temido pelos que pensam que o mataram – não teríamos conseguido preservar milhões de hectares de floresta e de outros biomas e milhares de empregos e ocupações para populações tradicionais.”

Confira abaixo a íntegra da nota do Comitê Chico Mendes:

Ao lado dos assassinos

Desde cedo, hoje, começamos a receber inúmeras mensagens que nos repassavam as absurdas falas do ministro (assim mesmo, com “m” minúsculo, como o “tamanho” intelectual dele) do meio (só meio, pois, do ambiente, com certeza, não é!) sobre a “irrelevância” de Chico Mendes.

Primeiro, o ministro afirma “não conhecer” Chico Mendes. Só essa afirmação, partindo de quem ocupa a pasta que ocupa, já deveria ser seguida por um ato de grandeza: o pedido de demissão. Mas é esperar demais de alguém com a pequenez ética desse senhor.

Mas, não contente em afirmar que desconhece a história de um dos Heróis da Pátria, conhecido e reconhecido nacional e internacionalmente por ter dado a vida em defesa da Amazônia e de suas populações tradicionais, o ministro ainda foi mais longe: repetiu e aliou-se ao discurso dos assassinos e de seus apoiadores.

A questão não é, obviamente, pessoal, é POLÍTICA! É uma questão de LADO! De IDEOLOGIA! De CLASSE! E é assim que deve ser tratada: o ministro reafirmou o seu LADO: ele está ao lado dos que PENSAM que MATARAM CHICO MENDES, que são os mesmos que continuam matando ou apoiando a morte de lideranças de populações tradicionais (extrativistas, coletores, quilombolas, indígenas, pescadores, entre outros) e seus apoiadores e aliados, mas não só, são os mesmos que, de forma kamikaze, destroem as florestas para a introdução da monocultura sem levar em conta que isso, dentro de curto espaço de tempo, fará com que não seja mais possível manter a agricultura, a pecuária, o “agronegócio”, enfim, pois as florestas são fundamentais para manter o equilíbrio do regime de chuvas e estas são indispensáveis para o cultivo e a criação de animais.

O senhor ministro sabe, por acaso, o que são as Reservas Extrativistas?

Com certeza, NÃO! Pois, se soubesse, não falaria as besteiras que falou. Então, vamos lá, começando do começo:

A relevância de Chico Mendes, senhor ministro, está no fato de que, como seringueiro, político militante, liderança sindical, presidente de um sindicato de trabalhadores rurais nos confins da Amazônia ocidental, em Xapuri, conseguiu, com sua incrível capacidade de situar-se à frente de seu tempo, perceber que não estava lutando só pelas seringueiras ou pela floresta, mas que estava lutando, como ele mesmo disse, “pela humanidade”. Essa percepção fez com que ele buscasse apoio para a luta não só organizando seus e suas companheiros e companheiras nos Empates, criado por trabalhadores de Brasileia e mantido pelos de Xapuri, após o assassinato de Wilson Pinheiro, primeira grande liderança assassinada por defender a floresta, em 1980, mas, também, procurando cientistas, professores, militantes políticos e partidários, trabalhadores urbanos e ambientalistas do Brasil e do mundo.

Chico Mendes, com sua capacidade e os apoios iniciais, convocou, como presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, o I Encontro Nacional de Seringueiros, que se realizou de 10 a 17 de outubro de 1985, na UnB, em Brasília, com mais de 120 seringueiros e seringueiras da Amazônia toda.

Nesse encontro, além de mostrar ao mundo que a floresta amazônica não era um “vazio demográfico”, como diziam as políticas oficiais, mas sim, que havia populações residindo dentro dela e que a faziam produtiva, ao mesmo tempo em que a preservavam e conservavam para as gerações futuras, lançaram ideias novas.

Ameaçados pela política de “ocupação da Amazônia”, promovida, desde a implantação da ditadura militar, com a facilitação da devastação para os “grandes fazendeiros”, que expulsavam os posseiros e ocupantes tradicionais, os seringueiros discutiram que queriam uma garantia de que poderiam continuar vivendo como tais, na floresta, usando-a, sem destruí-la e sem necessidade de serem os “donos” da terra, mas, apenas e tão somente, que pudessem usufruir das riquezas da floresta que deveria continuar como “BEM PÚBLICO”, patrimônio da União, de todo o povo, portanto, conservado pelas populações tradicionais, como eram – e este foi o exemplo – as Reservas Indígenas. A partir de tal ideia, criaram o conceito de RESERVA EXTRATIVISTA que era – e continua sendo – extremamente avançado, pois propõe a possibilidade da CONSERVAÇÃO do MEIO AMBIENTE através das POPULAÇÕES TRADICIONAIS que já o manejam há séculos, ao mesmo tempo em que o faz produtivo, gerando emprego e renda a MILHARES DE FAMÍLIAS e, mais, uma REFORMA AGRÁRIA adequada para a Amazônia, sem a busca da PROPRIEDADE DA TERRA, um dos pilares da nossa sociedade sesmariana, que se estende ao longo de mais de 500 anos.

A proposta, inicialmente vista com reservas pelos “ambientalistas puros”, que sempre acharam que o ser humano não consegue ser conservacionista e produtor ao mesmo tempo, foi, exatamente em função da atuação de Chico Mendes como porta voz, explicando a todos como isso era possível e mostrando a prática mais que centenária dos seringueiros da Amazônia, ganhou o mundo, passou a ter o apoio dos mais diferentes setores da sociedade brasileira e dos ambientalistas pelo mundo. Foi por isso que Chico Mendes ganhou o GLOBAL 500, como o primeiro brasileiro a fazer parte do rol de 500 ambientalistas de todo o mundo a serem homenageados na ECO-92, no Rio de Janeiro, reconhecimento concedido pelo Programa para o Meio Ambiente da ONU, em 1987, e o prêmio da Better World Society (Sociedade para um Mundo Melhor), entidade criada por Ted Turner, nos Estados Unidos, como o “ambientalista do ano”, também em 1987.

A ideia, nascida genuinamente dos seringueiros da Amazônia em seu encontro em Brasília, tornou-se tão grande que pode ser adaptada para diferentes populações tradicionais e biomas. Assim, hoje, há Reservas Extrativistas não só de seringueiros, mas, também, de pescadores, de coletores de castanha e açaí, de quebradeiras de coco babaçu, de coletores de caranguejo, enfim, o “CONCEITO” de Reserva Extrativista foi usado para criar um grande número de RESEX em diferentes biomas e Estados brasileiros, desde todos da Amazônia até alguns do Nordeste e, até, do Sul e Sudeste do Brasil.

O modelo, hoje, entre RESEX e Reserva de Desenvolvimento Sustentável, uma derivação, somente na Amazônia, trouxe a preservação e garantia de mais de 25 MILHÕES de hectares de floresta, beneficiando mais de 1,5 milhão de pessoas. Mas há mais de 500 mil hectares de outros biomas preservados, em outras regiões do país.

No total, a preservação/conservação ambiental, com RESEX, RDS e Florestas Nacionais e Estaduais, trazida pelo legado de Chico Mendes é de cerca de 66 MILHÕES de hectares de floresta, ou 13,18% da Amazônia. Está bom para que se entenda a RELEVÂNCIA de Chico Mendes para o presente? Se ele não tivesse sido, lá atrás, um porta voz tão respeitado – e temido pelos que pensam que o mataram – não teríamos conseguido preservar milhões de hectares de floresta e de outros biomas e milhares de empregos e ocupações para populações tradicionais.

É disto que estamos falando, mas, é exatamente CONTRA ISSO que se insurge o “ministro do meio” porque ele está ali por defender uma posição ideológica de INTERESSE do grande capital, do agronegócio, das mineradoras, enfim, DOS QUE TEM INTERESSE NA DEVASTAÇÃO, NA DESTRUIÇÃO, NA MORTE… das populações e do meio ambiente. Ele, o ministro, é o porta-voz atual da morte e está ao lado dos assassinos!

Os que atiraram no Chico Mendes, perderam o tiro, erraram o alvo!

Os que pensam que o mataram, na verdade, tornaram-no IMORTAL!

Comitê Chico Mendes

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