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Contra o Preconceito 26/Fev/2019 às 15:15 COMENTÁRIOS
Contra o Preconceito

Equipe de futebol homossexual coleciona títulos e muda vida de jogadores

Publicado em 26 Fev, 2019 às 15h15

"Não é só um jogo, não é só futebol. Eu era um antes do time, agora eu sou outro [...]"

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Equipe BeesCats Soccer Boys (Imagem: Reprodução Instagram)

Anna Virginia, CartaCapital

Não é só um jogo, não é só futebol. Como dito por Flávio Amaral, artilheiro do BeesCats Soccer Boys, “não é só pelo time, é pela iniciativa”. Às quartas, treinos dignos da equipe competitiva que, em menos de dois anos de criação, já coleciona dois títulos e outras quatro finais de campeonatos. Já durante uma sexta-feira do mês, o futebol fica em segundo plano: é hora de reunir amigos, conversar e se divertir. Eu não ousaria apontar qual dos dias é mais significativo.

Flávio explica que a ideia para a criação de um time de futebol para gays no Rio de Janeiro surgiu quando André Machado – fundador da equipe – assistiu uma reportagem sobre o Unicorns Futebol Clube, equipe de São Paulo criada em 2015 com o intuito de ser um espaço para homossexuais praticarem futebol society. “Por que não tentar algo similar no Rio?”, pensou.

A ideia de André não era montar um time, ele só queria organizar uma pelada entre amigos. Da surpreendente quantidade de pessoas que apareceram para jogar e da constância dos encontros, nasceu o BeesCats Soccer Boys em maio de 2017.

 

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Registro do nosso primeiro encontro 🐝🐈

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Os encontros lúdicos às sextas, na Guanabara, recebem mais de 40 pessoas. Ali, com o esporte tratado como brincadeira, é que se entende a filosofia do time: “Mostrar que podemos ser nós mesmos jogando bola”, diz Flávio. O jogador conta que a equipe de futebol mudou sua vida e o ajudou a lidar com sua orientação sexual.

O fato de ser jornalista esportivo me fez fechar para isso durante toda a faculdade e, através da participação no BeesCats, eu me aceitei melhor e me entendi enquanto LGBT+. Eu era um antes do time, agora eu sou outro”, revela.

Vamos jogar futebol?

Flávio explica que muitos homossexuais se afastaram do esporte ainda na adolescência, por conta de preconceito e de bullying no ambiente escolar. A existência dos times LGBT+ permite que as pessoas pratiquem o futebol com o sentimento de libertação, além de ser uma forma de conscientizar a sociedade.

Através desses times, as pessoas estão trabalhando questões que ficaram mal resolvidas no passado. Por isso eu falo que essas equipes são espaços de cura – curam traumas e transformam a visão desses homens sobre o esporte”, ressalta o jogador.

Os jogadores do BeesCats desejam que mais equipes sejam criadas no Brasil e lançou uma campanha na qual entrava em contato com pessoas que já tinham demonstrado interesse pela iniciativa e os convocaram para fundar um time. As redes sociais foram aliadas no processo e o saldo foi positivo: hoje existem mais de 50 equipes LGBT+ no país.

A gente está fazendo um trabalho de formiguinha e saber que inspiramos o surgimento desses novos times é muito recompensador”, garante Flávio. Ele conta que alguns times LGBT+ também possuem times femininos e que é importante que esse processo de estenda para todos. “Quero que todo mundo tenha essa relação positiva com o esporte que nós estamos tendo hoje”, conclui.

Além de torcer para que o movimento atinja cada vez mais pessoas, Flávio também contribui na divulgação das equipes através da coluna que escreve para o site Pop Bola, chamada “Orgulho em campo”.

“Eu apresento um panorama das competições e do ambiente dos eventos, sempre buscando trazer informações na palavra de quem participa e de quem organiza os torneios”, relata.

Sucesso em campo

A história da equipe em competições começou vitoriosa. Logo no primeiro torneio disputado – 1ª Taça Hornet de Futebol da Diversidade, em São Paulo – a equipe do Rio de Janeiro foi campeã e Flávio foi o artilheiro da competição. A briga por títulos é algo que virou tradição do BeesCats, que foi vice-campeão de duas Champions Ligay, da 2ª Taça Hornet e da principal competição que disputaram: a Gay Games.

 

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TAÇA HORNET DA DIVERSIDADE 2017 – SÃO PAULO (SP) RESUMO DA PARTICIPAÇÃO DOS BEESCATS Primeira rodada: BeesCats A 3×1 CapiVaras A Diferente da última competição, soubemos administrar o nervosismo da estreia e abrimos três gols de vantagem, trocando bons passes. Foram dados indícios das boas atuações que se seguiriam na Taça Hornet, como nosso goleiro Victor, preciso nas defesas nas poucas vezes em que foi exigido. Foi o início da campanha do título invicto. Gols: Flávio Amaral (2); Rodrigo Souza Segunda rodada: BeesCats A 3×0 Unicorns A O jogo cercado de maior expectativa exigiu mais do nosso sistema defensivo, mas as investidas dos adversários nos deram maior liberdade para o contra-ataque. O proveito tirado das falhas da zaga dos Unicorns foi providencial na construção do resultado, que já classificava os Beescats para as semifinais do torneio. Gols: Flávio Amaral; Rodrigo Souza; Gol contra Unicorns Terceira rodada: BeesCats A 0x0 Futeboys A Percebendo o nosso bom desempenho nas duas primeiras rodadas e precisando do empate para avançar no campeonato, os Futeboys apostaram em um jogo extremamente defensivo, praticamente abdicando do ataque. O empate garantiu os Beescats como líder de seu grupo, com saldo de gols muito positivo após os três primeiros jogos. Gols: – Semifinal: BeesCats A 3×1 Unicorns B A semifinal foi o jogo que mais exigiu concentração e vontade por parte dos BeesCats. O gol sofrido pouco antes do intervalo fez necessária uma mudança de postura para o segundo tempo. Com dois gols do atacante Flávio Amaral e um amplo domínio do nosso time na metade final da partida, seguramos o resultado e carimbamos a vaga para nossa primeira final! Gols: Flávio Amaral (2); Rodrigo Souza Final: BeesCats A 4×1 Futeboys B Nossa postura nos minutos iniciais já indicava a soberania durante a partida, com segurança na defesa e paciência para buscar boas opções de ataque. Os dois gols do capitão Rodrigo Ziegler em jogadas ofensivas a partir de cobranças de escanteio abriram o caminho para nosso tão esperado primeiro tít

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A Gay Games, realizada em Paris em 2018, é um torneio conhecido como “Olimpíada Mundial LGBT” por reunir atletas de diversas modalidades e de várias partes do mundo. O BeesCats Soccer Boys foi o único time de futebol brasileiro a participar da disputa e recebeu a medalha de prata, após perder para a equipe da casa por 3 a 2, com gol decisivo no último minuto da partida.

É importante mostrar que esse espaço também pode ser ocupado por nós. A gente sentiu na pele a honra de defender o nosso país lá fora e foi incrível conviver com pessoas de 91 países diferentes. A experiência vai muito além do esporte, eu vou levar para o resto da minha vida.”

A sequência de vice-campeonatos terminou em setembro, com a conquista da Copa Sudeste. Flávio associa a vitória com a chegada de um treinador na equipe, Alan Paschoal. “A gente vinha de quatro vice-campeonatos, uma coisa meio traumatizante para gente e o Alan Paschoal conseguiu nos dar um cara mais competitivo e tirar o melhor de cada jogador”, diz Flávio. Ele conta que o diferencial foi a experiência do treinador com a modalidade praticada pela equipe: o futebol society.

Com os investimentos dos times em treinamento, o nível de competitividade dos torneios LGBT+ aumenta. Para Flávio, a consequência é clara: maior visibilidade para as equipes. “O movimento só tende a crescer, é um caminho sem volta”, diz orgulhoso. O artilheiro revela que o que torna as competições LGBT+ especiais é a leveza, que permanece a mesma diante do crescimento da competitividade.

Você tem coisas muito mais importantes na vida do que a vitória. O que eu vejo nas competições LGBT+ é uma certa leveza, não só em campo, mas também em todo o contexto do evento. É uma energia mais leve e que permite a integração entre todos que participam. Este é um ganho muito grande, é o famoso close certo”, conclui Flávio.

 

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Primeiro amistoso do ano. BeesCats 10 X 2 FEC Preparação para Champions LiGay Brasília @ligaybr Patrocínio @269chillipepper

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Comentários

  1. chichano goncalvez Postado em 05/Jul/2019 às 16:37

    Gostaria que o nome do time fosse brasileiro, quem sabe: Rosa Grande, ou Roselandia f.c. por ai, mas está tudo bem, tudo tem seu inicio, força a todos e a todas.