Redação Pragmatismo
Ciência 05/Feb/2019 às 16:53 COMENTÁRIOS

Drauzio Varella: por que acredito que estamos sós no universo

"Ainda que exista vida num planeta distante, encontrarmos um ser semelhante a nós, com quem sejamos capazes de nos comunicar, é altamente improvável", diz Drauzio Varella

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Imagem: WPT Blog

Drauzio Varella, em seu blog

Estamos sós no Universo.

Ainda que exista vida num planeta distante, encontrarmos um ser semelhante a nós, com quem sejamos capazes de nos comunicar, é altamente improvável.

Os hominídeos que nasceram nas savanas da África, há 6 milhões de anos, foram frutos de adaptações a mudanças ambientais e eventos aleatórios, que jamais se repetiriam em outro corpo celeste na ordem cronológica em que ocorreram aqui.

Para não recuarmos até as intempéries envolvidas nas origens da vida, há mais de 3 bilhões de anos, vamos partir de uma época muito mais recente, quando surgiram os mamíferos, conforme descreveram os paleontólogos Stephen Brusatte, da Universidade de Edimburgo, e Zhe-Xi Luo, da Universidade de Chicago, numa revisão para o “Scientific American”.

As primeiras criaturas semelhantes aos mamíferos não esperaram a extinção dos dinossauros para nascer (como se imaginava); surgiram há cerca de 210 milhões de anos, época em que os cinco continentes ainda estavam unidos, formando a Pangeia.

Algumas dezenas de milhões de anos antes, solavancos nas placas tectônicas tinham provocado erupções simultâneas de vulcões espalhados pela Pangeia. A poluição atmosférica resultante causou uma extinção em massa que quase acabou com a vida na Terra.

A seleção natural eliminou os anfíbios e répteis gigantes que dominavam o mundo. Tartarugas, sapos, crocodilos, dinossauros e os primeiros ancestrais dos mamíferos se aproveitaram do vazio deixado pelos antigos dominadores, para ocupar novos nichos ecológicos.

Esses mamíferos primordiais já apresentavam características que reconhecemos familiares: dentes de leite na infância, saliências e sulcos nos molares, pelos no corpo, musculatura mastigatória robusta e cérebros grandes.

Eram insignificantes comedores de insetos, pequenos como os ratos, que mantinham hábitos noturnos, cuidado providencial para escapar dos crocodilos e dinossauros que não paravam de aumentar de tamanho, na vizinhança.

Há 200 milhões de anos, um cataclismo monumental fraturou a Pangeia em diversas áreas. No final, os cinco continentes estavam separados.

A atividade vulcânica causou nova extinção em massa, oportunidade aproveitada pelos animais que souberam ocupar os espaços abandonados pelos que se foram; entre eles, os dinossauros e os mamíferos.

Cerca de 145 milhões de anos atrás, uma variação anatômica foi decisiva para a sobrevivência dos mamíferos: o encaixe dos dentes entre as arcadas superior e inferior, inovação que ampliou a possibilidade de alimentação mais variada.

Ao redor de 100 a 120 milhões de anos, outra surpresa: apareceram as angiospermas, plantas que dão flores e frutos acessíveis a animais com a dentição apta para mastigá-los.

Apesar da performance ecológica razoável, esses pequenos mamíferos chegaram perto da extinção por culpa dos dinossauros, brutamontes insaciáveis, acostumados a devorar tudo o que viam pela frente.

Foi quando um asteroide de 180 km de comprimento cismou de cair no México, há 66 milhões de anos. O impacto foi tão brutal que abriu uma cratera de 1,5 km de profundidade.

O choque provocou terremotos, tsunamis com ondas de mais de cem metros e, como sempre, a erupção dos benditos vulcões. Digo benditos, porque os dinossauros não resistiram, sobreviveram apenas os ancestrais que dariam origem às aves. Azar deles, sorte dos mamíferos que se espalharam e se diversificaram num mundo livre daqueles mastodontes.

No estado americano do Novo México foi desenterrado o esqueleto de um mamífero que viveu há 63 milhões de anos. É provável que se trate do primata mais velho já descrito, ancestral longínquo dos que desceram das árvores nas savanas da África, há 6 milhões de anos, e começaram a andar em pé com a coluna ereta.

Imagine, você, que exista vida noutro planeta. Qual a probabilidade da repetição desses e de milhares de outros eventos ao acaso que eliminaram tantos competidores, para que nós estejamos aqui no dia de hoje?

Vulcões em erupção, placas tectônicas que se chocam nas profundezas, continentes que se separam, árvores que dão frutos, um asteroide que provoca terremotos, tsunamis, incêndios e poluição ambiental astronômica. Faltasse um desses fenômenos, não haveria ninguém para contar essa história ou compor sinfonias.

São tantas e tão complexas as variáveis para explicar nossa existência, que fica mais fácil atribuí-la a um ser poderoso que tudo criou num passe de mágica.

*Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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