Delmar Bertuol
Colaborador(a)
Meio Ambiente 30/Jan/2019 às 13:15 COMENTÁRIOS

Dos cachorros na orla a Brumadinho

Uma nação que ser quer mais desenvolvida e que isso resulte numa melhor qualidade de vida pras pessoas tem que endurecer ainda mais a legislação ambiental e aplicar severas multas e sanções aos cidadãos e empresas que ignoram as leis

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Cães farejadores ajudam em busca (Imagem: Mauro Pimentel | AFP)

Delmar Bertuol*, Pragmatismo Político

Eu tenho uma cachorrinha. Temos, na verdade. Ela concorre comigo nas visitas paternas, assim como a minha filha. Sim, exagerando, posso dizer que minha cachorrinha é como se fosse filha, a ponto de eu e minha ex julgarmos que é meu direito e saudável pra ela (pra cachorra, não sei se pra minha ex-mulher) que fique com o “pai”, de vez em quando. Da família ela é com certeza (a cachorra e, de certo modo e pra sempre, minha ex), que o conceito de família é plural, cada um faz e considera a sua.

Quando casados e assíduos frequentadores duma praia gaúcha, no entanto, nunca levamos nossa cachorra à beira mar. É proibido por lei municipal (talvez também por estadual e federal). Temos ciência que isso não é salubre aos humanos.

Há pouco e em férias, estive no litoral gaúcho. Isso antes da tragédia de Brumadinho. Pois chama a atenção, a minha, pelo menos, a quantidade de gente que, ignorando as placas proibitivas (que até citavam a lei), que levava seus cães pra orla, quando, por óbvia fisiologia, faziam xixi na areia, o vetor de doenças em humanos.

Enquanto fazia minha corridinha ou me banhava, quando, por óbvia fisiologia, fazia xixi na água, refletia que, esse pessoal irresponsável e ilegal só leva os animais, provocando o poder público, porque falta alguma autoridade que lhe aplicasse uma multa e apreendesse o cachorro até que um humano um mais racional fosse retirá-lo do canil.

É isso. Ao contrário do que prega uma onda política no Brasil, nosso país não pode afrouxar as fiscalizações ambientais. Pelo contrário. Uma nação que ser quer mais desenvolvida e que isso resulte numa melhor qualidade de vida pras pessoas tem que endurecer ainda mais a legislação ambiental e aplicar severas multas e sanções aos cidadãos e empresas que ignoram as leis e acham que seus interesses são mais importantes que os coletivos.

Não precisa ser especialista pra saber que o que aconteceu em Brumadinho é muito reflexo da falta de fiscalização (e punição!) do estado para com as grandes empresas, sobretudo neste caso, às mineradoras. Faz pouco mais de três anos que a mesma Vale foi responsável por igual desastre em Mariana e, até agora, não houve punição a ninguém e nem a empresa foi exemplarmente punida. Moradores que perderam suas casas continuam sem uma decente indenização pra (tentar) recomeçarem suas vidas.

É oceânica a diferença entre uma doença transmitida por urina de cão a uma pessoa e a tragédia mineira que, até enquanto escrevo estas linhas, conta com 89 mortos. Mas, respeitada essa proporção, elas são ambas ilustrações da falta de atuação do estado em fazer o seu papel de polícia e fiscalizar, coibir.

Leia também: Animais são executados a tiros na lama da Vale em Brumadinho

Da mesma forma que talvez soe antipático a um prefeito aplicar multa nos turistas que visitam a sua cidade e levam seus animais de estimação à praia, também é impopular (e a campanha eleitoral mostrou isso) ao governo estadual ou federal fiscalizar e, se for o caso, mandar fechar uma empresa desrespeitadora do meio ambiente.

Em ambas as situações, há chantagens “econômico-sociais”. Na primeira, os veranistas trariam arrecadação, dinheiro à cidade. Na segunda, há o discurso prevalecido do empresário evocando o desemprego. No âmago de ambos, a natureza é menos importante que o dinheiro, que o desenvolvimento econômico. Desenvolvimento esse que, do jeito que está, não melhora a qualidade de vida das pessoas.

Minhas condolências às dezenas de famílias que, em prol do dinheiro alheio, perderam entes em Brumadinho.

E, pior, meu termômetro: enquanto houver cães na praia, sei que outras tragédias causadas por grandes empresas vão acontecer.

*Delmar Bertuol é professor de história da rede municipal e estadual, escritor, autor de “Transbordo, Reminiscências da tua gestação, filha”

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