Redação Pragmatismo
Curiosidades 24/Nov/2018 às 12:33 COMENTÁRIOS

Anotações do americano morto em Sentinela do Norte são reveladas

Um dia antes de morrer, americano conseguiu um primeiro contato físico com o povo mais isolado do mundo. John anotou em seu diário detalhes da experiência. Conteúdo confirma que jovem pretendia evangelizar tribo, embora estivesse assustado

John Allen Chau sentinela do norte
John Allen Chau

Anotações reveladas do diário de John Allen Chau mostram que o jovem acreditava que Deus o estava ajudando a evitar as autoridades para que ele pudesse ‘evangelizar’ os habitantes da ilha Sentinela do Norte — mundialmente conhecida por seu total isolamento.

A ilha indiana cujo povo tem resistido ao mundo exterior por milhares de anos fica no arquipélago de Andaman e Nicobar.

SAIBA MAIS: A história por trás da morte do americano na ilha mais isolada do mundo

“Deus me protegeu e camuflou-me contra a guarda costeira e a marinha”, escreveu John Chau antes de ser morto no último dia 16 de novembro. Os detalhes da história ganharam repercussão na imprensa internacional.

Navios indianos monitoram as águas ao redor da ilha, tentando garantir que os estrangeiros não cheguem perto dos Sentineleses, que repetidamente deixaram claro que querem ficar sozinhos.

“Essa tragédia nunca deveria ter acontecido. Os habitantes daquela tribo já mostraram repetidas vezes que querem ser deixados sozinhos, e seus desejos devem ser respeitados”, disse Stephen Corry, diretor da Survival International, ao lamentar o episódio.

Anotações: a noite antes da expedição

Na noite de 14 de novembro de 2018, um dia antes da expedição, John escreveu de uma “casa segura” em Port Blair. Ele revela detalhes do encontro com os pescadores contratados para levá-lo a Sentinela do Norte. Segundo John, os pescadores concordaram em deixá-lo sozinho na ilha.

“A reunião ocorreu bem. Sou o único que fala inglês, então há uma grande lacuna de linguagem, mas confio neles. Eu estou confiando no Espírito Santo para nos guiar”, escreveu ele.

Nesta mesma página, John descreve a si próprio como “um cidadão americano, parte irlandês, parte nativo-americano, parte africano, parte chinês e sudeste asiático — grupos que têm histórias dolorosas de invasão, colonização e ‘civilização’ forçada”.

“Deus, eu te agradeço por me escolher antes mesmo de me formar no ventre de minha mãe […] de suas boas novas para o povo da Ilha Sentinela do Norte”, escreveu ele, ao expressar esperança de que a tribo aceitaria Jesus e o Cristianismo com um coração aberto.

Segundo John, o plano era embarcar de madrugada e chegar na ilha às 4 da manhã. Quando estivesse no local, o contato seria feito de “maneira progressiva, oferecendo peixe e outros presentes, durante 4 dias”.

“Deus, sua vontade será bem-sucedida. Eu oro: não sejam feitas as minhas vontades, mas somente as do Deus voluntarioso. Para sempre você, Jesus”, escreveu ele, antes de assinar seu nome seguido da frase “Soli Deo Gloria”. Em latim: glória somente a Deus.

Às 5h30 da manhã do dia 15 de novembro, John escreveu que eles estavam no barco prestes a desembarcar na ilha para o primeiro contato com os Sentineleses. O missionário explicou como eles escaparam da Guarda Costeira Indiana e dos barcos de patrulha da Marinha:

“Saímos ontem à noite, mas quando seguimos para o norte ao longo da costa leste, vimos as luzes de barcos-patrulha distantes e nos viramos. Regredimos para o sul ao longo da margem leste e os evitamos. Percorremos uma rota alternativa. Ao longo do caminho, nosso barco foi iluminado por plânctons bioluminescentes — e quando os peixes pularam nas proximidades, pudemos ver as ‘sereias’ em movimento brilhando ao longe. A Via Láctea estava acima e o próprio Deus estava nos protegendo da guarda costeira e das patrulhas da marinha”.

“O sol começou a se erguer no leste e decidiu esperar que os Sentineleses saíssem da densa floresta que está em sua ilha”.

Anotações: primeiro contato

Quando um menino da tribo isolada tentou acertá-lo com uma flecha em seu primeiro dia na ilha, Chau nadou de volta para o barco de pesca que ele havia providenciado para esperar por ele no mar. A flecha, ele escreveu, atingiu uma Bíblia que ele estava carregando.

“Por que um garotinho atirou em mim hoje? Sua voz aguda ainda permanece na minha cabeça.”, escreveu John. As anotações foram deixadas com os pescadores antes de John retornar à ilha na manhã seguinte, dia de sua morte.

A polícia indiana diz que John Chau sabia que os Sentineleses resistiam a todos os contatos de forasteiros, disparando flechas e lanças contra helicópteros que passavam e matando pescadores que chegavam à costa.

Suas anotações, que foram reveladas nesta sexta-feira (23) em jornais indianos e confirmadas pela polícia, deixam claro que ele sabia que poderia ser morto, embora estivesse convicto de que precisava pregar o cristianismo para aquele povo.

“Deus, eu não quero morrer. Seria mais esperto ir embora e deixar outra pessoa continuar. Não, eu acho que não”, diz trecho das anotações.

“Eu gritei ‘Meu nome é John, eu amo vocês e Jesus ama vocês’”, ele escreveu, relatando a primeira tentativa de contato, que terminou com a flecha disparada pelo menino.

“Vocês podem achar que eu sou maluco com tudo isso, mas eu acho que vale a pena apresentar Jesus para essas pessoas. Por que esse lugar lindo tem que ter tanta morte? Espero que esta não seja uma das minhas últimas anotações, mas se for, ‘Glória a Deus”, diz mais um trecho revelado.

Sentinela do Norte

Atualmente, a ilha de Sentinela do Norte é considerada como uma zona de exclusão, o que significa que o acesso a ela é terminantemente proibido.

Antes da morte de John Chau, o último incidente envolvendo os Sentineleses havia acontecido em 2006, quando dois pescadores indianos decidiram quebrar as regras e se aproximar demais — e também foram mortos a flechadas por membros da tribo.

Os antropólogos que tentam estudar a tribo acreditam que seus integrantes provavelmente sejam descendentes dos primeiros humanos que saíram da África e chegaram à região há cerca de 60 mil anos.

Os Sentineleses se comunicam entre si por meio de um dialeto completamente diferente dos utilizados pelos outros indígenas do arquipélago, o que sugere que eles tiveram muito pouco contato com seus “vizinhos” ao longo dos milênios.

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