Redação Pragmatismo
Eleições 2018 18/Oct/2018 às 12:59 COMENTÁRIOS

Qualquer coisa e o Coiso

Será que somos assim tão poucos os que realmente acham que qualquer coisa é melhor que o Coiso?

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José Guilherme Chaui-Berlinck*, Pragmatismo Político

Decidi escrever o presente texto por um motivo simples, que será exposto na segunda parte deste. Obviamente, há, portanto, uma primeira parte, que se faz necessária para justificar o que, na minha opinião, é mais do que hora para ser feito de modo a evitar, a todo o custo, o possível, e até provável, desenlace do que motiva este texto.

O que direi na primeira parte irá desagradar petistas e uma parte de esquerdistas. Assim, talvez como um prólogo ao texto em si, quero deixar claro alguns pontos.

Não sou afiliado ao Partido dos Trabalhadores, porém sempre, notem, sempre, votei no PT e em seus candidatos a despeito de, mais recentemente, discordar de várias atitudes dos escalões decisórios do partido. Ao longo de anos panfletei, me envolvi em discussões, pus adesivo no carro, usei camisetas, etc. Atualmente, contribuí para o acampamento Lula Livre e contribuí, várias vezes, para a campanha Haddad/Manuela, e tenho plena confiança na sua capacidade para governar o Brasil.

O que irei escrever não tem nada de submissão a outras “forças”, “vontades”, e coisas que tais. Tenho, como provavelmente todos que estão a ler o presente texto, claro que vivemos sob um judiciário partidarizado e objetivado a varrer forças progressistas da cena política do país. Não causaria espanto, a nenhum de nós, se algum juiz, particularmente das coordenadas 25° 25′ 47″ S 49° 16′ 19” O, condenasse a moça, a qual teve uma suástica (seja dextrogira ou levogira, isso é irrelevante) cortada em sua pele, por ela reclamar do ocorrido, “afinal, ela estaria tentando tolher a liberdade de expressão de seus agressores”. Isso, que soaria como uma piada há alguns anos, não o é mais. Ou seja, não se pode contar com esse poder para conter nada que se alinhe com as forças completamente anacrônicas de retrocesso que estamos combatendo. Sem perder mais nosso tempo, o mesmo sabemos ser verdade quanto à mídia hegemônica golpista.

Portanto, o que tem que ser feito implica na criação de uma situação na qual tanto o judiciário quanto a mídia hegemônica possam ser levados a se desalinhar das posições neofascistas e neonazistas que vem assolando o país.

Contudo, isso não ocorrerá através de discursos inflamados e passeatas indignadas quanto ao que Bozo e seus asseclas fizeram, fazem e farão. O PT perdeu a janela temporal de ter se antecipado e evitado esse quadro funesto através de ações educativas, no sentido político-histórico, junto à população.
E isso me leva à anunciada Parte 1 …

1. O “têm” é fundamental

Qual é a essência do mote da campanha de Haddad/Manuela neste segundo turno? As forças progressistas e democráticas têm que se unir para evitar o fascismo que se avoluma. Note o “têm”, pois ele é fundamental. E é claro que este é o mote, pois Bozo quase levou de primeira. Ou seja, basicamente, temos que pegar “tudo o que não foi pro Bozo”: qualquer coisa é melhor que o Coiso.

Ao mesmo tempo, com o clima no pé em que está, pergunta-se: se Haddad ganhar, governa? Ou talvez, até mais importante, se ganhar, impede a violência que se anuncia? A resposta é: depende. Depende de como ganhar. Se levar com 52% contra 48%, vai, somente, acentuar a bestialidade vindoura e postergar por alguns meses um novo golpe. Se levar com 70% a 30%, ganha. E tem como segurar a onda.

Isso é possível? Depende do que você acredita (não em qualquer sentido transcendental). Se você acredita que os 50% que estão votando no Bozo neste momento são, todos, nazistas/fascistas e que pretendem, no dia 29 de outubro, pegar uma arma e sair para matar @ LGBT que mora ao lado, nada mais a fazer. Se você acredita que uma parte significativa do eleitorado do capitão está votando por não ver outra alternativa ou ver, no PT, as mesmas práticas do nosso milico predileto, então há o que fazer.

Não estou dizendo que a sociedade brasileira é pacata e ordeira, estou dizendo que a violência inerente a todos os seres humanos está sendo aproveitada por um grupo de pessoas. Nossa violência é contida pelos nossos acordos sociais e morais, e poucos, em sã consciência, se acham no direito de marcar uma suástica no corpo de outra pessoa.

Mas uma parcela enorme da população passou a aceitar tal prática como “nada muito bonito, mas fazer o que, né? Quem mandou ela ser vermelha?”.

Vou, agora, mudar de assunto meio drasticamente e perguntar o seguinte: como o cidadão médio, fracamente politizado e pouco inserido em contextos sociais mais amplos, vê as ações do PT?

O partido teve 8 anos de glória nos governos Lula, e teve um bom desempenho no primeiro ¾ do primeiro governo Dilma. Neste último período, com uma crise financeira mundial que ainda não tinha atingido o Brasil, não foram tomadas medidas antecipatórias para o furacão que, sem dúvida, nos atingiria. Ao contrário, para este cidadão e para esta cidadã média que descrevo, o que foi visto foi uma negação de qualquer crise. Até aí, o habitual da política. Mas, em meio a esse imbróglio financeiro, vieram as eleições de 2014, e ao invés do PT fazer alianças progressistas, refez alianças com o (P)MDB, que já anunciava, há muito, sua intenção de trair. E se espalharam, país a fora, alianças as mais esdrúxulas, o que, para o nosso cidadão e nossa cidadã é facilmente convertido em “um partido que faz qualquer negócio para se perpetuar no poder”. Um partido que fará o que bem entender para não largar o osso. Um partido sobre o qual pesavam inúmeras acusações de corrupção (não estou me fazendo de esquecido, sei que o judiciário estava e está partidarizado e atuando politicamente, mas não é esse o ponto) e o partido se faz de cego. Por que o nosso cidadão e a nossa cidadã devem, agora, reconhecer como o PT é diferente do Coiso? O que adianta falar em nazismo, fascismo, violência, etc., etc., quando a questão de base que nos levou a essa situação foi (ou é) a identificação das práticas do PT com quaisquer outras práticas autoritárias e de perpetuação no poder? É nisso que o ciclo vicioso tem que ser rompido para se ter 70% a 30%.

Qualquer coisa é melhor que o Coiso. Você acredita nisso? Eu acredito. O PT que faz esse discurso acredita?

Você se lembra do tal “têm” que eu disse, mais acima, ser fundamental? “As forças progressistas e democráticas têm que se unir para evitar o fascismo que se avoluma”. O que aos olhos da nossa cidadã e do nosso cidadão isso quer dizer? O que eu vejo, se me coloco no lugar deles, é mais uma tentativa de se manter indefinidamente no poder.

Desde o começo de 2018, se clama, dentro do conjunto das esquerdas, por uma união contra o quadro que se anunciava. O que o PT fez, aos olhos da nossa cidadã e do nosso cidadão? Mais uma aliança espúria, visando tirar Ciro Gomes da partida. Pergunto, aonde está o “têm”? São os outros que “têm”? “Ah, mas o Ciro Gomes é duas caras”, você vai ouvir. Mas, qualquer coisa não é melhor que o Coiso? Ou não? “Ah, mas o Cabo Daciolo é pregador”? Mas, qualquer coisa não é melhor que o Coiso? Ou não?

Então, pergunto, aonde a nossa cidadã e o nosso cidadão vão enxergar que o PT fez e faz qualquer coisa para não termos o Coiso? Aonde o PT cede? Aonde o PT negocia, não cargos, mas programas? “Ah, mas não podemos ceder os nossos programas” (o que, em muitas outras situações, estaria eu dizendo). Mas, qualquer coisa não é melhor que o Coiso? Ou não?

Em que momento nós vimos a direção do PT tomar a frente, não para ganhar eleições, mas para termos um governo sanado do nazi-fascismo que se apresenta e não é de hoje? Minha resposta é: eu não vi. E, muito menos, viram nossos compatriotas menos politizados. Não. O que eles viram foi o “fazemos qualquer negócio”. Na presente eleição, em que momento o PT (sua direção, que fique subentendido) teve o altruísmo para, ao estar se encaminhando ao segundo turno, se adiantar em propor alianças (subentenda-se, programáticas), já em caráter preventivo? Não teve.

Ora, se qualquer coisa é melhor que o Coiso, o “têm” tem que ser de mão-dupla. É inaceitável o PT se sentar e cobrar dos outros que venham à nossa sapiência e benção. Tome a dianteira, negocie programas, faça concessões. Certamente não serão maiores das que foram feitas, de maneira espontânea, para reeleger Dilma Rousseff e nos lançaram na situação em que estamos.

Concordo com as ideias e programa do Partido Novo? Não! Mas, se qualquer coisa é melhor que o Coiso, e você acredita nisso, tem que negociar com eles. Concordo com o programa da Rede? Não! Mas, se qualquer coisa é melhor que o Coiso, tem que negociar com eles. Tem que negociar com o PSDB? Tem. Tem que negociar com todos, possíveis e impossíveis. Por que? Porque qualquer coisa é melhor que o Coiso? Sem dúvida … mas é muito mais do que isso: é a questão de quebrar o ciclo vicioso no qual o PT transparece como procurando se perpetuar no poder a todo custo. Se quebramos esse ciclo, quebra-se a omissão do judiciário no tocante ao capitão, quebra-se o silêncio da imprensa hegemônica quanto à barbárie trazida por nosso milico predileto. E a cidadã e o cidadão que recebem a sua informação e formação filtradas por essa mídia serão libertos das cordas que lhes foram amarradas ao Bozo e teremos os 70% necessários para estancar a onda de violência que, claramente, está sendo colocada à mesa como “aceitável”. E isto me leva à segunda parte deste texto, parte que é, na verdade, minha única motivação para escreve-lo.

2. O motivo deste texto

A violência física, desde agressões leves como empurrões, até assassinatos, já está presente. Nenhum de nós conta com o judiciário para colocar as focinheiras na matilha que acompanha o capitão. Tampouco contamos com a voz da imprensa hegemônica para se levantar contra estes atos. E quem, está, de fato, sofrendo com isso? Não são as cúpulas dirigentes. É o pessoal do chão-de-fábrica do ativismo. Somos nós, as diversas militâncias. Mas será também, no caso da vitória de nosso milico predileto, a pessoa comum. A feminista e a mulher, @ LGBT, o negro e o pardo e o índio, independentemente de seus ativismos políticos e de suas crenças ideológicas.

Há pouco, Lula comparou esse segundo turno com a luta de Muhammad Ali contra George Foreman, quando o primeiro, acossado nas cordas a maior parte do tempo, se recupera e derrota o oponente. Ali foi famoso por suportar a pancadaria para vencer no final, cansando o adversário não por bater, mas por levar. Teve mal de Parkinson precoce, aos 40 anos de idade, devido às micro concussões no sistema nervoso central. Não podemos nos dar ao luxo de ter uma vitória incerta. Não haverá nenhuma comemoração numa vitória apertada, na qual tenhamos sido e estejamos sendo espancados.

Covardia, de minha parte, querer que se façam acordos genuínos para garantir a eleição e a governabilidade? “Será vencedor quem souber quando lutar e quando não lutar”. – Sun Tzu, A Arte da Guerra. Preciso dizer mais?
O que a direção do PT fará quando as pessoas começarem a ser, literalmente, assassinadas às pencas? Lançar manifestos indignados? Protestar com veemência? Propor uma CPI? Conclamar a militância a ir para as ruas? Fará o mesmo que fez quando perdeu de seus quadros pessoas como Luiza Erundina e outros tantos batalhadores? Ou seja, nada?

Portanto, é agora, ou não é mais, a não ser que vocês não acreditem tanto que qualquer coisa é melhor que o Coiso. Tem que negociar programa para segurar o Coiso? Negocie-se. Tem que fazer acordos que permitam governabilidade? Façam-se. Mas não na base de “estamos abertos, à espera que nos procurem”, e na mera negociação de cargos. Tome-se a dianteira, proponha-se, abra-se, resolva-se essa situação absurda. Eu não acredito que os eleitores dos demais partidos e do próprio capitão sejam insensíveis se houver um movimento genuíno de acordos programáticos para uma governabilidade pacífica.

Feliz ou infelizmente, exige-se que, neste momento, o PT seja menos o PT para podermos, ao menos, ser, e, mais para frente, sermos mais. As direções não têm o direito de mandar as pessoas para a fogueira para se manter no poder, ou, ainda pior, sequer se manter no poder. Ou será que somos assim tão poucos os que realmente acham que qualquer coisa é melhor que o Coiso?

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*José Guilherme Chaui-Berlinck é professor associado do Instituto de Biociências/USP e colaborou para Pragmatismo Político

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