Redação Pragmatismo
Cinema 29/Aug/2018 às 12:55 COMENTÁRIOS

Viver (1952) versus Antes de Partir (2007)

Antes de Partir (2007) x Viver (1952). Os filmes abordam a mesma temática: a certeza da morte. No entanto, um apenas distrai e reforça nosso egoísmo. O outro é altruísta e nos ensina a evitar as distrações

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Fábio de Oliveira Ribeiro, Jornal GGN

Os filmes de Rob Reiner e Akira Kurosawa abordam a mesma temática: a certeza da morte. Mas as perspectivas adotadas nestas duas obras são absolutamente distintas.

As personagens de “Antes de Partir” gastam o que resta de suas vidas realizando desejos pessoais que, grosso modo, podem ser descritos como irrelevantes. Eles mergulham numa jornada fáustica antes de suas personalidades serem dissolvidas pela morte. Após descobrir que tem câncer de estômago, o protagonista de “Viver” procura fazer o mesmo. Mas ele interrompe a frenética busca pelo prazer ao perceber que sua vida pode ter um significado mais importante.

Reiner confronta a morte acentuando o egoísmo dos seus personagens. Kurosawa dissolve o egoísmo do seu protagonista antes do momento fatídico. O bilionário Edward Cole, o mecânico Carter Chambers e o servidor público Kanji Watanabe saem da vida satisfeitos. Mas apenas o último consegue deixar algo permanente: o parque infantil que ele lutou para construir vencendo os obstáculos de uma burocracia pública voltada para si mesma e incapaz de atender as necessidades da população.

Edward Cole e Carter Chambers compartilham o mesmo destino e se tornam amigos. Kanji Watanabe dá uma demonstração de dedicação e de amizade à um grupo de mulheres que perambulava pela prefeitura sem conseguir se fazer ouvir. Os personagens de Reiner dão ouvidos um ao outro e, sobretudo, escutam seus próprios desejos. O protagonista de Kurosawa rejeita seus próprios desejos e deixa de escutar os servidores públicos e autoridades municipais que se recusam a atender o interesse público.

Em razão de sua proposta individualista, “Antes de Partir” tem que acabar logo após a morte dos protagonistas. “Viver” continua construindo o personagem após sua morte, pois a vida dele significou mais para os outros do que significava para si mesmo. Edward Cole e Carter Chambers são personagens banais, eles podem sair da vida sem que o filme sobre ambos entre para a história do cinema. Kanji Watanabe sai do cinema para entrar na história de todos que tiveram a oportunidade de ver o filme como um exemplo de vida dedicada ao serviço público desinteressado.

O filme de Reiner apenas distrai e reforça nosso egoísmo. O de Kurosawa é altruísta e nos ensina a evitar as distrações.

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