Redação Pragmatismo
Religião 22/Aug/2018 às 14:51 COMENTÁRIOS

Vaticano sabia de estupros contra crianças nos EUA desde 1963

Vaticano sabia dos abusos sexuais na Pensilvânia pelo menos desde 1963. Milhares de crianças foram estupradas por cerca de 300 padres; número de vítimas e de religiosos pode ser ainda maior

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A investigação da Pensilvânia, que relata os abusos sexuais a mais de 1.000 menores de idade por mais de 300 religiosos durante sete décadas, revela que pelo menos desde 1963 o Vaticano conhecia alguns desses casos e se mostrou tolerante, mas é impossível saber se tinha conhecimento de todos os detalhes. Após dois dias de silêncio, a Santa Sé mostrou na quinta-feira “sua vergonha” pelos abusos “criminosos” nos Estados Unidos e afirmou que “responsabilidades deveriam ser assumidas”.

A palavra Vaticano aparece 45 vezes no pavoroso relatório do grande júri da Pensilvânia, que revela uma máquina de silêncio e encobrimento diante dos excessos dos religiosos. A Congregação para a Doutrina da Fé, o órgão encarregado de defender a correta doutrina da Igreja católica, é mencionada 14 vezes e a Santa Sé, 11. A partir da leitura do documento de 1.356 páginas se infere que Roma foi informada diversas vezes tanto dos abusos sexuais como do fato de que a Igreja norte-americana estava encobrindo padres pedófilos.

Ao revelar na terça-feira as descobertas da investigação, o promotor geral da Pensilvânia, Josh Shapiro, alertou que os padrões de encobrimento “se estendem em alguns casos até o Vaticano”. A primeira vez que o Vaticano é mencionado no relatório é em 1963 e a última em 2015, quando o papa Francisco já estava à frente da principal instituição do catolicismo e foram prometidas reformas contra os abusos. No caso de 2015, o Vaticano deu luz verde a um pedido de afastamento de um padre acusado de crime de pornografia infantil. Um ano antes, entretanto, não se manifestou sobre a decisão da diocese de Allentown de não afastar do sacerdócio um religioso que, nos anos oitenta, tocou nos genitais de um menino de 13 anos.

O primeiro caso que o Vaticano tomou conhecimento há mais de meio século se refere ao padre Raymond Lukac, da diocese de Greensburg. Em 1963, Lukac acumulava pelo menos três queixas conhecidas de abusos sexuais e várias sobre tratamento inapropriado a menores em diferentes cidades apesar de ter prometido melhorar seu comportamento. Teve uma relação com um organista de 18 anos, se casou sendo padre e teve um filho com uma jovem que ele conheceu quando ela tinha 17, além de abusar de outra menina de 11 anos.

Com esses antecedentes, o bispo de Greensburg, William Connare, se comunicou com o Vaticano em outubro de 1963. Lukac trabalhava à época em um centro religioso nos subúrbios de Chicago e, por sua má conduta anterior, não podia escutar confissões. Ele pediu a Connare para que todas as suas funções fossem restauradas e Connare o fez em pessoa à Santa Sé, que deu sua aprovação. “Enquanto estava em Roma, revisei os detalhes de seu caso com o Santo Ofício e obtive essas faculdades ao padre Lukac”, disse Connare depois em uma carta, em que esclareceu que era uma permissão para pelo menos um ano.

Em seu relatório, o grande júri da Pensilvânia concluiu que “os bispos que colaboraram para manter Lukac em atividade no sacerdócio o fizeram sabendo que ele significava um risco à população e foram, portanto, cúmplices com o abuso que ele cometeu”.

Existem outros exemplos. O atual arcebispo de Washington, Donald Wuerl, escreveu uma carta ao Vaticano na qual informou que padres da que era à época sua diocese, a de Pittsburgh, haviam sido acusados de cometer abusos sexuais em menores. Conhecido na cúria por sua aparente tolerância zero aos abusos e criticado fora dela por encobrir padres pedófilos, Wuerl definiu a pedofilia como algo “incurável” e afirmou que os paroquianos tinham direito a mais informação.

Readmissões

Apesar dessa declaração ao Vaticano “sobre a natureza séria e criminosa do problema”, na prática Wuerl permitiu que um padre pedófilo, Ernest Paone, que anteriormente foi obrigado a tirar uma licença e se afastar de suas vítimas, fosse transferido diversas vezes a outras dioceses. Wuerl acabou aceitando a renúncia de Paone em 2003, mas permitiu que ele recebesse a aposentadoria.

Por outro lado, em 1988 Wuerl afastou outro religioso após uma vítima apresentar uma denúncia por abuso. Cinco anos depois, entretanto, o Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, maior instância vaticana, ordenou que fosse readmitido ainda que depois tenha voltado atrás na decisão. Pouco antes das revelações do relatório da Pensilvânia, o atual arcebispo de Washington afirmou que o documento seria crítico com algumas de suas ações, mas defendeu que “agiu com diligência, preocupação pelos sobreviventes e para prevenir futuros abusos”.

As técnicas usadas pelos bispos da Pensilvânia para calar as vozes críticas e as denúncias de envolvidos e familiares incluíam o afastamento dos padres pedófilos, sua “secularização”, licenças e tratamentos em centros de saúde mental, entre outras coisas.

De acordo com o grande júri, o Vaticano esteve em contato com vários bispos da Pensilvânia e recebeu informação sobre os casos de abusos, mas o relatório nem sempre detalha quais foram as repercussões desses comunicados. Em 1988, por exemplo, uma mulher enviou uma carta à diocese de Pittsburgh e ao Vaticano para pedir ajuda contra o abusador de seu filho, e nunca recebeu resposta.

Uma “catástrofe moral”

O presidente da conferência episcopal norte-americana, Daniel DiNardo, afirmou na quinta-feira que a Igreja sofre uma “catástrofe moral” após as revelações de abusos na diocese da Pensilvânia e a decisão do Vaticano, no final de julho, de afastar Theodore McCarrick, arcebispo emérito de Washington, acusado de cometer abusos contra menores décadas atrás sem que isso o impedisse de subir na hierarquia das instituições católicas.

Em um duro comunicado, DiNardo, no cargo desde 2016, afirmou que uma das “raízes” do problema é o “fracasso da liderança episcopal” e pediu para que seja muito mais fácil denunciar abusos e que as respostas sejam mais rápidas e transparentes. Somente o Papa tem o poder de disciplinar e expulsar bispos.

O mecanismo para abordar uma queixa contra um bispo deve estar livre de ingerências”, pediu. “Não tenho ilusões sobre o alcance do dano que esses pecados e fracassos causaram na confiança nos bispos”.

Em um duro comunicado, DiNardo, no cargo desde 2016, assegurou que uma das “raízes” do problema é o “fracasso na liderança episcopal” e pediu que seja bem mais fácil denunciar abusos e que as respostas sejam mais rápidas e transparentes. Só o Papa tem a potestade de disciplinar ou expulsar a bispos.

O mecanismo para abordar uma queixa contra um bispo deve estar livre de interferências”, reclamou. “Não me faço ilusões sobre o alcance do dano que estes pecados e fracassos causaram na confiança nos bispos”.

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El País

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