Redação Pragmatismo
Política 10/Ago/2018 às 13:23 COMENTÁRIOS
Política

O que dizem as pesquisas eleitorais divulgadas 60 dias antes das eleições presidenciais

Publicado em 10 Ago, 2018 às 13h23

De 1989 até 2014, pesquisas eleitorais publicadas 60 dias antes dos pleitos raramente cravaram resultado final. Confira o que diz a história

pesquisas eleitorais eleições presidenciais

Charles Nisz, Revista Fórum

Estamos a exatos dois meses da eleição presidencial de 2018. O que os sete pleitos anteriores podem nos dizer sobre a relação entre as pesquisas de intenção de voto e os resultados obtidos pelos candidatos nas urnas? Tomando como base os levantamentos feitos pelo Datafolha, maior instituto de pesquisa do país, a resposta a essa pergunta é: 60 dias antes das eleições, é arriscado fazer previsões sobre quem estará no segundo turno se olhamos os levantamentos feitos 8 ou 9 semanas antes do pleito.

1989

Na pesquisa de 23-24 de setembro de 1989, apenas Fernando Collor, do PRN, podia se considerar garantido no segundo turno, pois tinha 33% das intenções de voto. Apesar da tendência de queda (o alagoano chegou a ter 40% e às vésperas da eleição tinha 26% no Datafolha), obteve 30% no dia 15 de novembro. Brizola despontava na briga pelo segundo posto: tinha 15%. Lula, Guilheme Afif Domingos e Paulo Maluf tinham 7% cada. Todos apostavam numa segunda rodada entre Collor e o candidato do PDT, mas Lula deu um sprint final e ganhou do pedetista no photo-finish: 17,1% a 16,5%, uma diferença de apenas 500 mil votos.

1994

O pleito de 1994 foi o mais atípico dos sete disputados desde a redemocratização. O Plano Real foi um divisor de águas para os eleitores. Em abril, Lula chegou ao teto de 40% e FHC tinha apenas 22%. Com o lançamento do Plano, em julho, o eleitor começou a migrar de forma gradual e constante para o tucano.

A pesquisa de 8 de agosto foi o ponto da virada. Pela primeira vez, FHC aparecia à frente de Lula, ainda dentro da margem de erro: 36 x 30. Nas urnas, dois meses depois, um resultado bem diferente: FHC foi eleito com 44% dos votos totais contra 37% dos rivais somados – Lula teve 22%.

1998

A eleição de 1998 trazia um elemento novo: foi a primeira a ser disputada com possibilidade de reeleição. Em 14 de agosto, FHC tinha 42%, Lula tinha 26%, Ciro Gomes, 7%, e Enéas Carneiro, 3%. A indagação era se haveria ou não segundo turno. No dia 4 de outubro, as urnas mostraram que o resultado de uma pesquisa feita 8 semanas poderiam prever o resultado da eleição. Esse foi o único pleito no qual isso ocorreu: FHC obteve 42% dos votos totais e se tornou o primeiro presidente reeleito. Os 25% de Lula foram insuficientes para causar um segundo turno. Ciro e Enéas foram desidratados por FHC e tiveram 9% e 2% dos votos totais, respectivamente.

2002

Na eleição presidencial de 2002, Lula liderou as pesquisas desde o início da corrida eleitoral, por conta das crises econômicas causadas pelo governo tucano. Em 16 de agosto, oito semanas antes do pleito, Lula tinha 37%, Ciro Gomes 27% e Serra lutava pelo terceiro posto com Garotinho: 13% a 12% para o tucano. Em 6 de outubro, Lula marcou 41,5% dos votos totais, no limiar de vencer no primeiro turno. Serra dobrou sua votação, atingiu 21% e foi ao segundo turno com o petista. Garotinho teve 16% e Ciro Gomes 10%. Ou seja, na briga pelo segundo posto, houve uma completa reviravolta em relação ao cenário de agosto.

2006

A eleição de 2006 foi marcada pela repercussão do escândalo do mensalão, sendo praticamente um plebiscito sobre a continuidade ou não do governo Lula. Em 22 de agosto, Lula tinha 37%, Alckmin tinha 13% e Heloisa Helena marcava 7%. 36% dos eleitores ainda estavam indecisos. Num pleito polarizado, Lula acabaria com 45% dos votos válidos e Alckmin obteria 38,9%. O resultado forçou um segundo turno entre PT e PSDB. Na segunda rodada, um fato inédito nas eleições brasileiras: Alckmin teve menos votos no segundo turno que no primeiro.

2010

No pleito de 2010, Serra vinha liderando as pesquisas com folga. O PT apostava numa candidata que jamais havia disputado uma eleição – Dilma Rousseff. Um ano antes da eleição, Serra tinha 39% contra 19% da petista. A pesquisa de 9 de agosto foi o início da virada de Dilma. Ela tinha 41% contra 33% de Serra e 10% de Marina Silva. No dia 3 de outubro, Dilma obteve 42% dos votos totais, contra 30% de Serra 17% de Marina Silva. Apesar de Serra forçar o segundo turno, não foi capaz de deter a arrancada da petista. A despeito de Dilma ter dobrado sua intenção de votos em 12 meses, o resultado de outubro foi relativamente similar à fotografia obtida em agosto.

2014

Assim como em 2006, o pleito de 2014 foi marcado por um fato atípico: a morte de Eduardo Campos e sua substituição por Marina Silva alterou o quadro eleitoral de maneira forte. Na primeira pesquisa com Dilma, Aécio e Marina, realizada em 14 de agosto, eles marcavam 35%, 25% e 20% respectivamente. Marina chegou a empatar com Dilma no fim de agosto. No entanto, quando as urnas foram contabilizadas, tivemos a sexta eleição seguida marcada pela polarização entre PT e PSDB. Dilma obteve 37% dos votos totais, Aécio marcou 30% e Marina teve 20%. Muitos votos migraram de Marina para Aécio, numa movimentação de “voto útil”.

Em resumo, das 7 eleições disputadas após a democratização nas de 1998, 2006 e 2014, os resultados de agosto eram bastante próximos dos resultados verificados nas urnas. Mas em 1989, 1994, 2002 e 2010, houve viradas no pleito – ou causadas pelo horário eleitoral ou por fatos atípicos, como o Plano Real, em 1994. Das 7 eleições, a mais similar à de 2018 é, sem dúvida a de 1989: fragmentação política, crise econômica e mais de 10 candidatos. E foi justamente nessa na qual aconteceram mais mudanças: o fenômeno Collor, a arrancada de Lula, a queda de Brizola aos 45 do segundo tempo e a derrota de nomes tradicionais como Maluf, Covas e Ulysses.

Leia também:
Brasil vive fenômeno político sem precedentes
A história real do Brasil versus a história contada pela mídia
A história das mulheres brasileiras que foram à luta por seus direitos
O papel do vice-presidente na história política do Brasil
Brasil: história, sofrimento e estupidez
A história do surgimento e da ascensão da bancada evangélica na política

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook

Recomendações

Comentários