Redação Pragmatismo
PT 18/May/2018 às 15:25 COMENTÁRIOS

A última entrevista de José Dirceu antes de ser preso

A última imagem pública e a última entrevista do ex-ministro José Dirceu antes da prisão definitiva

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Basilia Rodrigues e Fábio Góis, Congresso em Foco

José Dirceu era a imagem da resignação (foto acima) ao conversar com a reportagem do Congresso em Foco poucos dias antes de sua prisão definitiva. Sabia que dali a alguns dias – com o esgotamento de recursos, confirmação de sentença e ordem de execução de sua pena após condenação em segunda instância no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (Porto Alegre) – voltaria ao cárcere para longos anos de prisão. Mas, estrategista máximo do PT dentro ou fora da cadeia, Dirceu volta para prisão com o mapa político das eleições 2018 na cabeça. Um retorno esperado do qual seu pensamento quis fugir todos os dias até hoje. Do lado de fora, Dirceu leu muitas notícias e fez diversas reuniões que o levaram à seguinte conclusão a respeito da corrida presidencial de 2018: “A esquerda está certinha”.

O que Dirceu quis dizer não tem relação com a conduta de seu partido ou diz respeito às denúncias do mensalão ou da Operação Lava Jato. Entre o certo e errado, o ex-ministro da Casa Civil se refere à estratégia política em um cenário com o ex-presidente Lula condenado e preso na Lava Jato, mas líder das intenções de voto. “Do nosso lado, está tudo arrumadinho. [Guilherme] Boulos é candidato [do Psol]. Manuela [D’Ávila, do PCdoB] é candidata. Ciro [Gomes, do PDT] é candidato. Joaquim Barbosa, eu não sei o que vai acontecer, mas está no PSB, que em parte é do nosso campo”, vislumbrou o ex-cacique petista.

Nessa lógica de arranjos eleitorais, até mesmo o ex-ministro e relator do mensalão, Joaquim Barbosa, crítico ferrenho do PT, tem sido visto como alguém mais perto da esquerda do que qualquer outro candidato do centro ou da direita. O ex-magistrado se filiou a um partido em crise, mas que historicamente caminhou ao lado do PT e dos ideais de esquerda. Dirceu não sabia, mas cogitava, que o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal desistiria de concorrer à sucessão do presidente Michel Temer, em um banho de água fria nos 10% de eleitores que, segundo o Instituto Datafolha, nele votariam.

Ao diagnosticar a estratégia eleitoral do PT e seu entorno como correta, o ex-ministro dava mais uma pincelada sobre o que vinha repetindo a todos os que buscaram suas opiniões no período em que passou fora da cadeia.

A conversa transcorreu em uma tarde de uma dessas quartas-feiras de intensa movimentação no Congresso, em uma casa no Lago Sul, bairro valorizado de Brasília. Ao som do grupo cubano Buena Vista Social Club e cercado por uma estrutura de amigos e assessores que lhe permitem acesso ao mundo, Dirceu reiterava o discurso petista: não há plano B, não há alternativa de nome se Lula não for candidato. Vai além e pontua o prazo em que essa estratégia pode mudar: até julho ou agosto.

Nesse sentido, faz apostas altas. “O PT tem que ficar parado. Temos o candidato que ganha em primeiro e segundo turno com 40% dos votos. Pra que nós vamos nos mexer? Os outros é que estão todos desesperados, batendo cabeça, se afogando”, disse, com o característico sotaque mineiro carregado.

O processo

Vivi clandestino quase 15 anos da minha vida”, recorda-se, ao lembrar do período em que foi preso, deportado e exilado em meio à ditadura militar (1964-1985). Em um dos períodos mais sombrios da recente história brasileira, em setembro de 1969, foi deportado para o México com mais 14 presos políticos, como contrapartida pela libertação do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, sequestrado naquele ano pela guerrilha armada antirregime.

Depois disso morou em Cuba e em, 1971, chegou a voltar na clandestinidade para o Brasil. Para não ser reconhecido, passou por cirurgias plásticas e mudou radicalmente sua aparência.

Dirceu conversava no campo da informalidade, sem a liturgia clássica do jornalismo de gravador e bloquinho de papel na mão. Em vários momentos, ele desvia o assunto e conversa amenidades. Estava na expectativa de rever amigos advogados naquele mesmo dia. “Só tive advogado que gosta de mim”, diz, diante de um dos muitos advogados que o acompanham.

Dirceu foi condenado como chefe da quadrilha no julgamento do mensalão, em 2012, pelo Supremo Tribunal Federal (STF). De lá para cá, segundo investigadores, jamais deixou de delinquir, o que o ex-ministro da Casa Civil de Lula nega. Como ele mesmo disse em entrevista à colunista Mônica Bergamo (Folha de S.Paulo), veiculada em 20 de abril, apenas admite ter cometido um “erro” em uma relação nebulosa na negociação de um imóvel com o lobista e delator da Lava Jato Milton Pascowitch.

Era um empréstimo não declarado. Que virou propina. Foi uma relação indevida. Admito. Mas não criminosa”, protestou o petista.

Sina

Era feriado de 15 de novembro de 2013 quando Dirceu teve a prisão decretada pela primeira vez. Na ocasião, ergueu o punho em saudação a militantes do PT ao se entregar na Polícia Federal de São Paulo, sob gritos de “Dirceu, guerreiro, do povo brasileiro!”. Ficou 354 dias preso, em Brasília, até conseguir a progressão de pena, em 2014, graças aos dias de trabalho e estudos dentro do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília.

Voltou para a prisão menos de um ano depois, já em 2015, desta vez por causa da Lava Jato. Os pagamentos de empresários para a empresa de consultoria de Dirceu chamaram a atenção dos investigadores. Resultado: mais de 30 anos de condenação.

Quando perguntado sobre o que está lendo, o petista sorri e diz que vem lendo processos. Mas depois aponta obras de história, literatura e economia. Como a biografia de Vladimir Ilyich Ulyanov (1870-1924), mais conhecido como o revolucionário comunista Lenin, que lhe inspira ideologicamente, e Josef Stalin (1878-1953), secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética depois da Revolução Bolchevique. Dirceu diz não se recordar do autor das biografias, mas cita o mais recente livro do jurista Fábio Konder Comparato, A Oligarquia Brasileira (Contracorrente), entre suas leituras atuais.

Até 2016, o próprio Dirceu mantinha um blog com avaliações políticas e memórias, mas ele já desativou a página virtual. “O que eu falo acaba tendo muita repercussão. Então eu prefiro falar pouco. Coisa do Brasil, gosta de transformar as pessoas em celebridade”, explica.

Dirceu não terá acesso à internet na cadeia, mas já sabe o que fazer. Diz que vai trabalhar e ler o máximo que puder, como maneira de diminuir a pena. De vez enquanto, poderá enviar por meio de advogados instruções e pensatas ao comando do PT e à militância. Calcula em algo como cinco anos o total de pena que deve cumprir. Até lá, diz, a visita dos filhos e demais parentes servirão para diminuir o peso do cárcere.

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Comentários

  1. Araújo Postado em 06/Jul/2019 às 13:09

    Pagou caro pela arrogância com que tratava todos aqueles que o rodeavam.

  2. OI oi oi é cuduru Postado em 06/Jul/2019 às 13:09

    Merece paredão e fisco.

  3. Antonio Palhares Postado em 06/Jul/2019 às 13:09

    Algo para muita reflexão sobre o PT e a sua forma de fazer politica. Um partido que era a virgem vestal da virtude. Que foi a esperança ética da politica nacional. Durante muito tempo funcionou como pedra, e quando mudou para vidraça foi isso que estamos vendo. A expressão máxima do partido e presidente da república por duas vezes , condenado e cumprindo pena. Dirceu, mentor intelectual e ideológico, preso no ocaso da vida. O senhor boca mole, Palocci. Preso.

  4. Edison Carleti Postado em 06/Jul/2019 às 13:09

    Se o PT e, por tabela, boa parte da esquerda brasileira estão na situação caótica em que se encontram hoje, muito disso se deve às figuras asquerosas tais como José Dirceu. Articulador no último, Zé Dirceu foi um dos mentores, para não dizer o maior dos, que promoveram a guinada política e estrutural no PT, fazendo com que o partido se distanciasse cada vez mais das lutas sociais enquanto se unia ao grande capital para chegar ao poder e nele permanecer. Foi sob a direção de Zé Dirceu que o PT nos anos 90 promoveu seu primeiro grande expurgo, expulsando correntes internas combativas, tais como a Convergência Socialista, atual PSTU. Não à toa, que Joseph Stalin é sua inspiração, como ele mesmo disse nessa reportagem. Que tranquem a cela e que joguem a chave fora.