Redação Pragmatismo
África 06/Dec/2017 às 11:38 COMENTÁRIOS

República Democrática do Congo: por onde começar?

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Felipe Honorato*, Pragmatismo Político

Recordo-me dos meus anos de escola: sobre a África, foram poucas aulas no ensino fundamental. História do antigo Egito e algum assunto que tratava sobre Cartago foram os temas. Depois, lá pro ensino médio, tive um capítulo que não falava especificamente sobre os países africanos, mas sim sobre a Conferência de Berlim, ocorrida entre 1884 e 1885, onde as potências coloniais definiram os rumos da ocupação do continente africano.

Na faculdade de gestão pública, apesar de acreditar que a diplomacia também é uma política pública e saber que a exploração da África, em certa medida, financiou, dentre outras políticas públicas, a formação dos tão celebrados estados de bem-estar social europeus entre os séculos XIX e XX, não tive nenhuma disciplina que versasse sobre história da África, colonialismo, ou até mesmo algo que analisasse as características de Estados africanos – será mesmo que na África não exista nenhum case que mereça ser estudado?

A invisibilidade, que já é grande, se torna um pouquinho maior quando se fala em África Central: território dominado majoritariamente por uma ocupação franco-belga, o que fez com que as grandes obras da historiografia oficial sobre estas áreas fossem produzidas no francês, o Brasil encarou o conhecimento sobre a região como algo exótico – são raras as instituições de pesquisa que contem com professores, pesquisadores ou um acervo considerável que fale sobre a República Democrática do Congo, República do Congo ou República Centro-africana, por exemplo.

Por sorte do acaso, assim como a maioria dos grandes amores, me envolvi com a história do Congo-Kinshasa sem querer: a viagem de formatura que ganhei de meus pais rendeu uma passagem pelo Museu Real da África Central. Lá, os belgas guardam tudo que conseguiram carregar do antigo Estado Livre do Congo e Congo Belga; a antiga exposição, que conheci e, provavelmente, não existirá mais após a reabertura do museu (que se encontra fechado para reforma), reforçava a visão exuberante do belga sobre o Congo e glorificava a figura de Leopoldo II, rei responsável pela entrada da Bélgica no colonialismo.

Por estas razões, quando resolvi que me dedicaria a estudar um tema relacionado à RDC, tive muita dificuldade de achar materiais acadêmicos e até artísticos que me ajudassem a compreender com maior clareza e acuracidade temporal esta nação centro-africana.

Relevando todos estes motivos, resolvi escrever este pequeno guia de obras que abordam o Congo-Kinshasa. Não encarem esta listagem como um guia definitivo: ninguém é capaz de fazer um trabalho assim, uma vez que a produção acadêmica é contínua e, hoje, ou amanhã, pode surgir um artigo ou livro novo de ótima qualidade que aborde a RDC; mesmo que algo assim fosse possível, não seria eu a pessoa certa para determiná-lo, pois comecei há pouco minha carreira acadêmica. Aqui estão, sem pretensão maior que esta, as obras que me ajudaram a imergir nos estudos sobre o Congo-Kinshasa e que creio poderem ser úteis também a outros iniciantes.

Começo indicando três obras que não versam diretamente sobre a RDC, mas acredito serem essenciais para todos que almejam se tornarem africanistas. Temos que entender que nosso sistema educacional é fundado em matrizes europeias e estadunidenses e que contam a história diante de uma óptica ocidental e branca. Assim sendo, antes de estudar a África, sob qualquer aspecto, é necessário promover uma descolonização do pensamento. Neste processo, um livro, um artigo e uma palestra foram muito importantes. Dos três materiais, o primeiro com o qual tive contato fora o artigo “África, diáspora e o Mundo Atlântico na modernidade: perspectivas historiográficas”, de Amaílton Magno de Azevedo. Neste trabalho, dois pontos me saltaram aos olhos: o autor afirmou que, até o Século XVI, não havia uma exploração sistêmica e predatória por parte dos europeus em relação a seus pares africanos. Pelo contrário: o Reino do Kongo, por exemplo, disputava espaço, dentro do tabuleiro diplomático, de forma equitativa com Portugal, que, durante um longo período, usou das mais variadas ferramentas diplomáticas para tentar desestabilizar o concorrente – da proibição da venda de barcos, até o tráfico de escravos promovido por afro-portugueses em São Tomé.

O outro ponto em que este artigo me ajudou a demolir o censo comum é sobre o tráfico de escravos: já em meados do século XVIII haviam traficantes brasileiros trazendo escravos da África para o Brasil – assim como, internamente, os bandeirantes, que caçavam e, em muitas oportunidades, escravizavam índios, já eram todos brasileiros, boa parte deles mestiços. Destes traficantes de escravos brasileiros, o mais notório deles foi Francisco Félix de Souza, que chegou, com seu poder, interferir politicamente no Reino do Daomé, para facilitar suas atividades econômicas.

A segunda obra, desta lista, com a qual tive contato e foi “Crítica a Razão Negra”, do filósofo camaronês Achille Mbembe. A obra, em muitos momentos, me faz recordar dos escritos de Edward Said, autor de dois clássicos dos estudos culturais e pós-coloniais: “O orientalismo” e “Cultura e imperialismo”; isto por que, no livro, dentre outras coisas muito valiosas, Mbembe define “África” e “africano” como dois conceitos generalistas criados pelo ocidente para classificar tudo o que eles viam como “ex-óptico” na sociedade, cultura e no povo do continente africano. Além disso, o autor traça a crucial diferença entre o “negro” e o “africano”, muitas vezes vistos de forma uniforme.

A última das três obras às quais me referi inicialmente é uma palestra da escritora nigeriana Chimamanda Adichie chamada “O perigo de uma história única”. Nela, a escritora discute como cresceu lendo, na Nigéria, histórias que mostravam neve e cerveja de gengibre, coisas que estavam longe da realidade de seu país e, como, quando se mudou para os EUA, seus amigos viam a África de forma desastrosa, algo que contrastava com a infância feliz e a vida de classe média que havia tido em seu país natal– por isso, o risco de uma história única.

Seguindo, respeitando a cronologia dos temas, creio que para se compreender a formação da República Democrática do Congo, seja muitíssimo interessante compreender suas origens. A origens da RDC estão ligadas ao Reino do Kongo. Maior dos reinos da África Central, já no século XV, quando o português Diogo Cão estabeleceu contato com os kongoleses, este reino contava com moeda única corrente, um exército de mais de dois mil homens e um sistema de escolha indireta de seus reis. Um Estado rico em história e surpreendente em seus detalhes e sofisticação. Esta história e estes detalhes podem ser encontrados, para uma leitura comprometida com uma excelência acadêmica primorosa, no volume V da coleção História Geral da África. A coleção, idealizada pela UNESCO, reuniu os principais africanistas em seus respectivos temas de estudos e contou com um corpo acadêmico composto majoritariamente por africanos.

Em 1886, após um enorme esforço diplomático que incluiu garantir à Inglaterra que a bacia do rio Congo ficaria livre para a navegação estrangeira e privilegiar a França com o direito de preferência sobre o território caso a aventura colonial belga não fosse exitosa, Leopoldo II, apenas o segundo soberano belga – uma vez que o país só havia se desanexado dos Países Baixos em 1830 -, proclamou que uma enorme porção de terra coberta, em boa parte, por uma densa floresta equatorial e denominada Estado Livre do Congo como sua colônia ultramarina particular.

O que se seguiu foi um sistema exploratório que enriqueceu Leopoldo, mesmo ele não tendo pisado uma vez sequer na África, e massacrou a população local com mutilações e milhões de mortes. Para compreender tal período da história congolesa, duas obras literárias e uma acadêmica me foram de grande utilidade.

Joseph Conrad era polonês, mas ganhou notoriedade depois que se mudou para a Inglaterra e lá começou a escrever na língua local. Sua principal obra se chama “No coração das trevas”; nela, narra sua própria história como comandante de um vapor no Estado Livre do Congo, perpassando, na narrativa, os aspectos da crueldade do colonialismo leopoldiano. Mais tarde, Francis Ford Coppola adaptaria a história ao Vietnam e criaria um clássico do cinema: Apocalypse Now.

No final do século XIX, missionários ingleses levaram à Grã-Bretanha uma série de fotografias que mostravam crianças congolesas, todas elas vestidas com roupas brancas, revelando para a câmera as mutilações nelas provocadas pelos castigos impostos pelo sistema colonial de Leopoldo II. Tais imagens causaram grande comoção pública, principalmente na terra da rainha, provocando, em 1808, a derrocada de Leopoldo II da possessão do território, que se tornou o Congo Belga – passando, assim, para o controle do Estado belga. No calor destes eventos, Arthur Conan Doyle, famoso por ser o criador de Sherlock Holmes, escreveu “The crime of the Congo”, onde se dedica a denunciar a situação no Estado Livre do Congo, criticar Leopoldo II, e, surpreendentemente (olhando a obra nos dias atuais), defender que o Congo deveria ser colonizado pelos britânicos, única nação preparada para tal “missão”.

Apresentados os dois livros literários, falarei agora sobre a obra do pesquisador holandês H. L. Wesseling. Seu livro “Dividir para dominar – a partilha da África (1880 – 1914)” trás um capítulo dedicado à formação do Estado Livre do Congo. O autor vai a fundo na questão, em um relato cheio de referências históricas, de uma visão que vai além da perspectiva belga do assunto: Brazza, o Congo-Brazzaville, Diogo Cão, Portugal, Bismarck, a Alemanha e outros players importantes são contextualizados dentro dos desdobramentos históricos congoleses. Além disto tudo, o autor ilumina aspectos importantes sobre a personalidade de Henry Morton Stanley e Leopoldo II, figuras centrais da “corrida colonial belga”.

Continuando a seguir o tempo cronológico das coisas, alcançamos o Congo Belga. Sobre este período, não poderia deixar de indicar a leitura de uma das histórias em quadrinhos belga mais conhecidas mundo afora: Tintim no Congo. Nela, o famoso repórter e seu cachorro Milu vão à colônia reforçar todo o esteriótipo europeu sobre os africanos. Uma cena, em específico, se destaca das demais na história: Tintim, ao substituir um missionário em uma escola, aponta ao mapa da Bélgica e se refere aos locais como sendo aquele o mapa do país deles; as edições da HQ impressas pela Companhia das Letras apresentam uma nota preparando o leitor para lidar com a visão que Hergé apresentou do Congo e dos congoleses à época.

Gostaria, agora, de indicar duas obras que não falam exatamente sobre o período entre a independência do Congo Belga e o breve governo de Patrice Lumumba, líder independentista que foi o primeiro chanceler congolês, mas que fornecem subsídios valiosos para quem pretende conhecer os nomes envolvidos no processo, e, assim sendo, obtendo condições de realizar pesquisas mais ambiciosas sobre o tema. A primeira das obras é um artigo entitulado “A República Democrática do Congo – RDC”. Uma espécie de pequeno manual histórico da RDC, fora elaborado por aquele que, talvez, seja o maior africanista no Brasil hoje: Kabengelê Munanga, professor congolês aposentado da Universidade de São Paulo. A outra obra é um livro chamado “Congo”, do musicólogo estadunidense Alan Merriam. O livro faz uma importante narrativa dos fatos quase que “em tempo real”, perpassando assim, incertezas e espectativas de quem acompanhou todo o processo de independência e ascenção de Lumumba a primeiro ministro bem de perto – afinal, Merriam estava no Congo belga quando os fatos transcorreram.

O artigo de Munanga também se constitui como fonte importante de subsídios históricos para a compreensão da ditadura de Mobutu Sese Seko, que controlou o país da década de 1960, quando Patrice Lumumba fora deposto, sequestrado e assassinado, até 1997, quando a família Kabila o sucedeu também através de um golpe. No que tange às características do Estado congolês – sobre o prisma da ciência política – durante a “era Mobutu”, é essencial a leitura dos trabalhos de Peter Evans, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley. Evans definiu que, durante a ditadura de Mobutu, o Estado congolês se portou como um Estado predatório, que trabalhava basicamente para o tirano e seus aliados obterem benefícios pessoais.

Após a queda de Mobutu, o Congo-Kinshasa viveu anos conturbados de guerra civil, crise econômica e tentativas eleitorais frustradas. Para uma visão de como foi este período, cobrindo um lapso temporal que vai de 2006 até 2017, recomendo as reportagens e artigos jornalísticos de Jeffrey Gettleman. Ganhador de um prêmio Pulitzer, ele foi correspondente do The New York Times na África por muito tempo, onde atingiu a chefia da sucursal para a África Oriental do jornal nova-iorquino. Jeffrey acompanhou in loco muitos eventos da história recente do Congo e escreveu reportagens que vão além de uma simples elencagem dos fatos.

Para finalizar, gostaria de deixar mais algumas indicações, mas agora, de forma pontual: 1) “Introdução à etnografia do Congo”, de Jan Vansina e “O fantasma do rei Leopoldo”, de Adam Hochschild, são trabalhos com os quais ainda não tive contato, mas que possuem enorme relevância dentro dos “estudos congoleses” e devem ser observados; 2) os escritos de Robert Cornevin sobre o Zaire (nome que a RDC recebeu durante os anos de Mobutu) também são uma fonte muito importante; 3) no que concerne aos fluxos migratórios que chegam e saem da RDC, as pesquisas de Marie-Laurence Flahaux, Bruno Schoumaker, Sarah Demart e Germain Ngoie Tshibambe apresentam-se como um El Dorado.

Bons estudos!

*Felipe Honorato é graduado em Políticas Públicas e mestrando em Estudos Culturais pela USP, especialista em Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raça pela UnB e colaborou para Pragmatismo Político.

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