Luis Gustavo Reis
Colaborador(a)
Racismo não 06/Dec/2017 às 10:36 COMENTÁRIOS

A perversidade continua

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Luis Gustavo Reis*, Pragmatismo Político

A raça são fardas que vestimos, mas aprendi tarde demais que essas fardas, muitas vezes, se colam a alma dos homens.”
Mia Couto

As relações étnicas são construções históricas e constituem elemento estrutural na formação das sociedades em diferentes lugares e períodos. No Brasil, ela foi construída pelo viés da negação do conflito e exaltação de uma suposta “democracia racial”, interpretação na qual as relações sociais brasileiras foram produzidas de forma harmoniosa.

Embora o mito da democracia racial tenha sido desconstruído conceitualmente, essa desconstrução não é presenciada no dia a dia dos brasileiros. É notório que ainda permeia uma visão vinculada ao senso comum, fortemente marcada por um entendimento reeditado da democracia racial, na qual se tem conhecimento da existência do racismo, mas sempre na figura do outro. Em outras palavras, o racista é sempre o outro.

Em meados dos anos 1990, o jornal Folha de S. Paulo realizou uma pesquisa intitulada “Racismo cordial”. Durante a pesquisa, 97% dos entrevistados afirmaram não ter preconceito e 98%, dos mesmos entrevistados, admitiram conhecer pessoas que tinham manifestado preconceito. Resumo do paradoxo: um país onde há racismo, mas não existem racistas.

Em um dos seus estudos, os sociólogos Florestan Fernandes e Octavio Ianni diziam que os brasileiros não têm vergonha de ser racista, mas têm vergonha de dizer que são racistas. Algumas pessoas não se enquadram nessa concepção e destilam abertamente impropérios contra os negros. Quando são desmascaradas, titubeiam e fingem “não lembrar” do que disseram, subestimando a inteligência daqueles que o flagraram.

William Waack está entre eles. Em 2016, minutos antes de entrar no ar para comentar a campanha presidencial dos Estados Unidos, o jornalista se sente incomodado com o barulho da buzina de um veículo que trafegava pela rua do estúdio onde ele estava. Em tom de chacota, vira para o colega ao lado e afirma duas vezes que o barulho é “coisa de preto! Só pode ser coisa de preto!”.

Revelada a gravação em novembro de 2017, o apresentador diz não se lembrar da ofensa. Em tom cínico, pede desculpas aos que se sentiram “ultrajados” pela sua fala. O jornalista não lembra, mas os milhões de negros que ele insultou vão lembrar-se de mais esse ato racista que os acompanha cotidianamente no Brasil.

Mal passou o episódio envolvendo Waack, outra manifestação racista pipoca na mídia. Uma certa Day McCarthy, auto-intitulada “socialite”, publicou vídeo nas redes sociais onde atacava uma criança negra de apenas 4 anos de idade.

A vítima direta de McCarthy foi Titi, filha da apresentadora Giovanna Ewbank e do ator Bruno Gagliasso. Nascida em Malawi, na África, Titi foi adotada pelo casal após visita feita por Giovanna a um abrigo de órfãos em Lilongwe, capital do Malawi, em 2015.

Ao ver fotos de Titi nas redes sociais e os diversos elogios que a criança recebia, McCarthy se sentiu incomodada, resolveu gravar e publicar um vídeo com o seguinte comentário: “Eu queria entender os falsos, os puxa sacos […] que ficam no Instagram do Bruno Gagliasso, elogiando aquela macaca. A menina é preta, tem o cabelo horrível de pico de palha. E tem nariz de preto, horrível, e o povo fala que a menina é linda“.

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Em um país minimente descente, tais declarações desencadeariam repulsa veemente, oxalá uma revolta social. Numa sociedade doente, manchada pelo preconceito, geram apenas um balançar de cabeça e a resignação costumeira. Não bastassem todos os traumas psicológicos que Titi vai ter que lidar ao longo da vida, terá que conviver com o racismo cruel que figura desse outro lado do Oceano Atlântico.

Ali Kamel, diretor de jornalismo da Rede Globo, mesma emissora que emprega William Waack e os pais de Titi, escreveu um livro chamado “Não somos racistas!”. Não obstante os devaneios do autor e a escrita carregada por um idealismo que objetiva combater a qualquer preço as políticas de ações afirmativas, é possível, com bastante empenho e paciência, concluir a leitura do livro. Defensor ferrenho da democracia racial, Kamel ressalta que no Brasil:

Gostávamos de nos ver assim, miscigenados. Gostávamos de não nos reconhecer como racistas […]. Aqui, após a abolição, nunca houve barreiras institucionais a negros ou a qualquer outra etnia […]. Somos uma sociedade essencialmente diferente no tocante ao racismo – mais tolerante, buscando, ao menos como propósito, a prevalência da crença de que as cores não tornam ninguém melhor ou pior […].

O texto de Kamel corrobora o pensamento de milhares de pessoas espalhadas de Norte a Sul deste país. Muitas delas, inclusive, alegam que os negros adotam diariamente um discurso vitimista que não condiz com a realidade onde estão inseridos.

Os episódios citados acima que envolveram pessoas públicas onde Ali Kamel trabalha pode ser pedagógico para ele. Talvez agora o missivista reavalie sua afirmação e descubra, sem maiores esforços, que o país onde vive figura entre os mais racistas do planeta.

É importante destacar que para cada manifestação preconceituosa que ganha os holofotes da mídia, há milhares de outras que não vêm à tona. São várias as Titis vilipendiadas todos os dias sem que ninguém se comova.

O racismo é repugnante contra qualquer pessoa em qualquer circunstância, praticado contra crianças é a perversidade levada ao paroxismo. O insulto de McCarthy não foi apenas contra Titi, mas contra todos aqueles que buscam construir uma sociedade onde todos sejam tratados com dignidade, independentemente da cor da pele.

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*Luis Gustavo Reis é professor, editor de livros didáticos e colabora para Pragmatismo Político

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