Redação Pragmatismo
Cinema 29/Jun/2017 às 13:21
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A irresponsabilidade do filme do Netflix "O Mínimo Para Viver"

Um prato de comida e uma garota jovem e frágil contando as calorias de cada alimento: apesar de se tratar de criação bem intencionada, filme 'O Mínimo para Viver' passa mensagem que é de uma irresponsabilidade incrível

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The trailer do filme O Mínimo para Viver (To the Bone, em inglês), a ser lançado em breve pelo Netflix, começa com um prato de comida e uma garota jovem e frágil contando as calorias de cada alimento. Sua amiga dá risada e diz: “É como se você tivesse uma síndrome de Asperger’s calórica“.

Escrito e dirigido por Marti Noxon e estrelado por Lily Collins e Keanu Reeves, o filme trata da batalha de uma garota contra a anorexia. Já suscitou muita controvérsia, especialmente na comunidade do tratamento e recuperação de transtornos alimentares.

Acho que a criação do filme foi bem-intencionada. A diretora e a atriz principal compartilharam que sofreram de transtornos alimentares no passado, dizendo que seu objetivo foi conscientizar o público dos transtornos e combater a vergonha e o sigilo que os cercam.

Promover a conscientização dos transtornos alimentares e diminuir a vergonha e o estigma que impedem as pessoas de procurar ajuda é crucial.

Porém, como terapeuta especializada em transtornos alimentares que dá atendimento particular a pacientes em Rockville, Maryland, tenho algumas ressalvas importantes a fazer sobre o modo como a anorexia está sendo tratada no trailer e na divulgação do filme.

Os problemas da cobertura de imprensa sobre o filme

Lily Collins, que afirma ela própria ser anoréxica recuperada, tem dado entrevistas à imprensa para divulgar o filme, falando de como perdeu peso para o papel “da maneira mais saudável possível“, com a ajuda de uma nutricionista.

Tive dificuldade até em digitar essa frase. Dizer que uma pessoa com histórico de anorexia é capaz de “perder peso de maneira saudável” é como compartilhar que um indivíduo com histórico de alcoolismo é capaz de “beber de maneira saudável“. Isso simplesmente não é possível, e, francamente, é uma irresponsabilidade incrível compartilhar uma mensagem dessas, que pode funcionar como gatilho fortíssimo para alguém que esteja se recuperando de um transtorno alimentar.

Quero deixar uma coisa muito clara: para alguém que tem histórico de anorexia, não existe uma “perda de peso saudável” e intencional. Mesmo que a intenção da pessoa seja perder peso “de modo saudável” (e o que diabos isso significa?), ela ainda possui os fatores genéticos e de personalidade subjacentes que a predispuseram à doença mental, que coloca sua vida em risco e pode ser ativada por déficit de energia e perda de peso (independentemente de qual seja a intenção por trás da perda de peso).

Preocupações com o trailer do filme

O problema de se relatar uma história que detalha a batalha de uma pessoa contra um transtorno alimentar é que, para pessoas que já possuem a predisposição genética para um transtorno alimentar ou já enfrentam um transtorno, o relato pode rapidamente virar um manual de “como fazer“.

O trailer fala da contagem calórica específica de diferentes alimentos, mostra uma atriz que parece estar emaciada e mostra comportamentos de transtorno alimentar, como exercício físico compulsivo, restrições alimentares e mensagens que funcionam como gatilhos, por exemplo quando a atriz diz “estou com o problema sob controle“.

Como especialista em transtornos alimentares, posso lhe dizer que esses transtornos com frequência são “doenças competitivas“. As pessoas em recuperação que assistirem ao filme poderão facilmente usá-lo para continuar a alimentar seu transtorno alimentar.

Além disso, o trailer reforça mitos e estereótipos sobre pessoas com anorexia. O retrato feito de alguém com anorexia como sendo uma mulher jovem, caucasiana e magérrima, que se priva de alimentos para “se sentir no controle“, não é representativo da grande gama de pessoas que enfrentam a doença.

Para começar, enquanto o desejo de se sentir “no controle” pode ser um aspecto da luta de um indivíduo contra a anorexia, é importante destacar que os transtornos alimentares são causados por um conjunto de fatores genéticos, temperamentais e psicológicos que são engatilhados por fatores de estresse no ambiente. Representar a anorexia como um desejo de estar “no controle” ou “ganhar a aparência de modelo” perpetua o mito de que os anoréxicos simplesmente “fazem uma escolha“, em vez de mostrar que eles enfrentam uma doença mental grave.

Além disso, os transtornos alimentares não discriminam por idade, gênero ou raça. Já tratei de teens e adultos, homens, mulheres, indivíduos transgêneros e pessoas de raças e etnias diversas.

Outra coisa é que as pessoas com anorexia muitas vezes têm dificuldade em reconhecer que apresentam a doença, já que seu “eu do transtorno alimentar” muitas vezes lhes diz o contrário. Já existe uma narrativa cultural dominante segundo a qual a anorexia atinge principalmente mulheres caucasianas, brancas e jovens. Meu medo é que alguém que tenha o problema e não se enquadre nesses critérios limitados possa deixar de procurar ajuda, pensando que é impossível que tenha um transtorno alimentar.

Ainda outro fator a levar em conta é que os transtornos alimentares podem atingir pessoas de qualquer peso. É importante observar que não é preciso estar emaciado, como a protagonista do filme, para estar com anorexia. Esse mito perigoso pode levar as pessoas a deixar de procurar o tratamento que poderia salvar suas vidas, por acharem que não estão doentes o suficiente para precisarem de ajuda.

Não dá para saber quem apresenta um transtorno alimentar apenas olhando para uma pessoa. Os transtornos alimentares são uma das poucas doenças mentais em que avaliamos o grau de sofrimento das pessoas a partir de sua aparência física. Isso não está certo. Uma pessoa pode estar sofrendo de anorexia grave, independentemente de seu tamanho. Não importa qual seja seu peso, se você sofre de um transtorno alimentar, merece receber tratamento e ajuda.

Também é importante observar que há uma série de outros transtornos alimentares, incluindo o transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP), a bulimia e o Osfed, ou transtorno alimentar não especificado de outra forma, todos os quais são doenças mentais graves. Infelizmente, porém, esses outros transtornos não são tratados pela mídia com tanta frequência. Não importa qual seja seu transtorno alimentar, você merece receber apoio e tratamento.

Resumindo

Se você ou alguém que você conhece acha que pode estar enfrentando um transtorno alimentar, é importante procurar ajuda profissional.

Buscar ajuda quando você está sofrendo é um sinal de força verdadeira, não de fraqueza. Ninguém deve ser obrigado a enfrentar um transtorno alimentar sozinho.

Com acesso a tratamento e apoio, os indivíduos com anorexia podem se recuperar e levar vida normal, com metas e sentido na vida. A recuperação completa é possível!

Jennifer Rollin, HuffPost

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