Redação Pragmatismo
Cinema 27/May/2017 às 16:46
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Por que não recomendo a série '13 Reasons Why'

"Em 23 anos de carreira, nunca recomendei seriamente aos leitores que deixassem de assistir a algo. No entanto, chegou a hora de abrir uma exceção [...]". Crítico cinematográfico recomenda não assistir a série 13 Reasons Why

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Pablo Villaça, reconhecido crítico cinematográfico brasileiro e fundador do Cinema em Cena — tradicional site de cinema no Brasil –, sugere que os seus leitores não assistam à série ’13 Reasons Why’.

Em uma publicação no Facebook, Villaça dirige-se sobretudo às pessoas que são acometidas por depressão. Segundo o crítico, a atração, que é um dos maiores fenômenos do Netflix na atualidade, tem o potencial de estimular o suicídio.

“Irresponsável em sua abordagem e ao encenar com detalhes o suicídio de Hannah [personagem], a série vai de encontro a várias das recomendações feitas pela própria OMS quanto à forma com que o suicídio deve ser tratado pela mídia”, diz.

Abaixo, leia a íntegra do texto de Villaça:

Em 23 anos de carreira, nunca recomendei seriamente aos leitores que deixassem de assistir a algo. Por mais que eu deteste uma obra, não acho que seja uma função do crítico dizer o que o leitor deve ou não ver – e, além disso, acredito que aprendemos sobre linguagem mesmo com os filmes ruins (nem que seja pelo contra-exemplo).

No entanto, chegou a hora de abrir uma exceção e é isto que farei agora. Não porque a produção em questão seja narrativamente medíocre (embora ela seja, como aponto na crítica), mas porque é simplesmente perigosa.

Estou falando de Os 13 Porquês, projeto da Netflix.

Não repetirei aqui tudo o que falei em meu texto sobre a série e no qual explico porque a considero perigosa e acredito que, mesmo com boas intenções, tem um potencial imenso de desequilibrar aqueles que estão lutando para manter o próprio balanço. (Se tiver interesse em ler, a crítica está em http://cinemaemcena.com.br/critica/…/8367/os-13-porqu%C3%AAs).

Numa campanha de marketing inteligente (e, de novo, que pode até ser bem intencionada), a Netflix fez uma parceria de divulgação com o CVV-Centro de Valorização da Vida, cuja importância já discuti neste espaço várias vezes. No entanto, acho extremamente cínica a postura da plataforma de usar o aumento das ligações ao CVV como “comprovação” de que Os 13 Porquês exerce um efeito inquestionavelmente positivo.

Em primeiro lugar, é ÓBVIO que as ligações aumentariam: este é o efeito esperado de QUALQUER campanha de divulgação. Em segundo lugar, as ligações comprovam também algo que venho afirmando desde o princípio: que Os 13 Porquês tem um imenso potencial para disparar gatilhos.

Irresponsável em sua abordagem (de novo: discuto na crítica) e ao encenar com detalhes o suicídio de Hannah, a série vai de encontro a várias das recomendações feitas pela própria OMS quanto à forma com que o suicídio deve ser tratado pela mídia.

E, infelizmente, os efeitos negativos do projeto já podem ser inferidos na prática. Em minha timeline no Twitter, por exemplo, diversos psicólogos registraram uma preocupação com a reação de pacientes à série (é só conferir minhas mentions em @pablovillaca), o mesmo se aplicando a professores do ensino médio. Ainda mais trágica foi a notícia do suicídio de uma jovem cujo último post no Facebook informava justamente estar assistindo a 13 Porquês. (Obviamente, não vou mencionar seu nome ou as circunstâncias específicas, mas confirmei a informação depois de alertado por um leitor amigo da família.) É claro que apenas o fato de estar assistindo à série antes de se matar não é algo que estabeleça relação causal, mas é sugestivo – especialmente se considerarmos a força já estabelecida do Efeito Werther (se alguém quiser saber mais sobre a origem do termo, sugiro este artigo https://t.co/WACwOenqLU).

E é por isso que abro a exceção mencionada no início deste artigo e, como alguém que já escreve há anos sobre depressão neste e em outros espaços, sugiro enfaticamente aos leitores que lidam com a doença que NÃO assistam a Os 13 Porquês.

Se você viu a produção e extraiu dela boas lições, ótimo; mas seja responsável e alerte as pessoas que lidam com a depressão crônica para o fato de que ela dispara muitos gatilhos.

A ideação suicida já é, por si só, suficientemente nociva; reforçá-la com narrativas maniqueístas e irresponsáveis é algo não só desaconselhável, mas também perigoso.

Fiquem bem, mantenham os pés no chão e lembrem-se: a ajuda está a um clique ou a um número de telefone de distância: www.cvv.org.br ou 141.

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ATUALIZAÇÃO (EM 09/04/2017, ÀS 15H48):

As centenas de depoimentos presentes nos comentários abaixo comprovam que a preocupação com os efeitos da série sobre quem sofre de depressão encontra respaldo na prática. Negar isso seria negar a coragem de todos aqueles que se expuseram nos comentários enquanto relatavam suas histórias e suas próprias experiências com a série.

No entanto, há quem ainda assim prefira se concentrar na academia e em estudos sobre o tema; acho compreensível, pois também tenho um fraco pela Ciência.

Assim, para contemplar estes últimos, decidi incluir as referências abaixo. Se você não tem interesse pelos estudos (analíticos ou descritivos) sobre o tema, apenas ignore o restante deste post, que trará referências acadêmicas específicas:

Um dos artigos mais citados em estudos do tipo, por exemplo, é “The impact of suicide in television movies. Evidence of imitation.” (GOULD, MS; SHAFFER, D.), que analisou estatisticamente a incidência de suicídios entre adolescentes antes e após a exibição na tevê de filmes que traziam personagens se matando, comprovando, para além da possibilidade de aleatoriedade estatística, uma relação causal entre ambos.

(Este estudo, por sinal, foi publicado no The New England Journal of Medicine.)

Outro estudo relativo ao efeito Werther é “Clustering of teenage suicides after television news stories about suicide.” (PHILLIPS, DP, CARSTENSEN, LL), que, embora parta da análise da influência de notícias sobre suicídios, também aborda o possível impacto entre histórias envolvendo suicídios e aumento de ideação suicida – e correlações estatísticas foram encontradas em ambos os casos.

É possível, porém, argumentar que os estudos anteriores datam da década de 80 e que, portanto, podem não refletir o mundo contemporâneo. Ok, seria um argumento válido.

Assim, recomendo o estudo “Exposure to Suicide Movies and Suicide Attempts.” (STACK, Steven; KRAL, Michael; BOROWSKI, Teresa), publicado em 2014. Neste estudo, os autores avaliaram não só a exposição de adolescentes a filmes que retratavam o estudo, mas tiveram o cuidado de incluir controles importantíssimos como religião, histórico de depressão e outros aspectos demográficos.

O achado deste estudo? “Uma análise de regressão logística multivariada determinou que, já incluindo outros fatores de controle, para cada EXPOSIÇÃO ADICIONAL A UM FILME (QUE RETRATA O SUICÍDIO) O RISCO DE TENTATIVA DE SUICÍDIO AUMENTAVA EM 47,6%”. Agora o elemento mais importante do estudo: a variável recorrente empregada no estudo foi “tentativa anterior de suicídio”.

Em outras palavras: EXATAMENTE o grupo que alertei para o risco de assistir à série.

Para finalizar, recomendo também o estudo “Suicide and the entertainment media” (PIRKIS, Jane; BLOOD, Warwick). O que este estudo em particular tem de curioso é o fato de que se concentrou na tarefa de quantificar e avaliar os achados de dezenas de outros estudos sobre o tema para definir se havia alguma consistência entre eles. (Este estudo é de 2010; portanto, não considera o que citei logo acima, que veio quatro anos depois.)

Para isso, eles consultaram TODOS os estudos publicados nas seguintes bases desde o momento de sua criação até a data da análise (2010): MEDLINE, PSYCHLIT, COMMUNICATION ABSTRACTS, ERIC, DISSERTATION ABSTRACTS e APAIS. Eles avaliaram também, além da influência de filmes, a de séries para a TV, de músicas e de peças de teatro. Eles levaram em consideração as metodologias de CADA estudo, sua natureza (descritiva ou analítica), e conferiram pesos a pontos como consistência, temporalidade, especificidade e coerência. Ao todo, avaliaram quase 50 estudos: 27 sobre filmes e séries; 19 sobre música e o único encontrado sobre teatro. A conclusão: “Estudos adicionais são necessários, mas “há evidências da associação entre a representação de suicídio na MÍDIA DE ENTRETENIMENTO e comportamento suicida real”.

Agora, MESMO depois de todas estas evidências, é claro que alguém pode dizer “Mas não há uma comprovação definitiva, ‘apenas’ a (forte) indicação da existência de uma correlação!”.

E minha resposta seria: isto já é o suficiente para adotar a atitude de alertar aqueles que sofrem de depressão para o perigo em potencial de 13 Porquês. A vida é preciosa demais para esperar comprovações “definitivas”.

Abraços,
Pablo
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ATUALIZAÇÃO 2 (em 09/04, às 21h25):

Quero recomendar dois textos adicionais: um do site The Mighty (https://themighty.com/…/thirteen-reasons-why-jay-asher-sui…/) e outro escrito pelo psiquiatra brasileiro Luís Fernando Tófoli:https://www.facebook.com/lftofoli/photos/a.337423276451452.1073741828.159217847605330/647490008778109/?type=3&theater

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