Redação Pragmatismo
EUA 19/Jan/2017 às 14:14 COMENTÁRIOS

Chelsea Manning é libertada por Obama no apagar das luzes

No apagar das luzes, Obama liberta Chelsea Manning. Que Manning seja feliz em liberdade. Denunciar ao mundo as atrocidades de um poder do tamanho dos Estados Unidos, desde dentro, requer uma coragem que poucos têm

Chelsea Manning Obama EUA

Flávio Aguiar, RBA

Ela nasceu com o sexo masculino, e ganhou o nome de Bradley Edward Manning. Cresceu e entrou para o Exército dos Estados Unidos. Serviu no Afeganistão e no Iraque.

Embora soldado raso, teve acesso a informações sigilosas. Deu-se conta das atrocidades cometidas pelos Estados Unidos “em nome da democracia”.

A cena mais chocante a que assistiu foi a dos soldados dentro de um helicóptero metralhando sucessivamente civis em Bagdá, inclusive, os que tentavam socorrer feridos.

Os civis – que incluíam dois jornalistas – foram confundidos com terroristas. As câmeras que os jornalistas portavam foram confundidas com armas. Selou-lhe o destino.

Uma kombi que transportava crianças parou para socorrer os baleados. Foi metralhada. Os adultos morreram, as crianças ficaram feridas.

Manning não aguentou. Em segredo, divulgou o vídeo – que agências de notícias já tinham pedido inutilmente ao governo norte-americano.

Em choque pelo que vira e por mais informações a que tivera acesso, continuou a divulgação, em segredo. Chegou ao WikiLeaks, Julian Assange. Milhares de informações foram divulgados e tiveram um impacto tremendo.

Então Manning cometeu um erro fatal. Confiando na amizade de um seu correspondente por internet, Adrian Lamo, revelou-lhe que divulgara aquele vídeo, de 12 de julho de 2007.

Adrian Lamo – depois se soube – além de ser um hacker muito competente, especializado em quebrar sistemas de segurança para auxiliar empresas que o contratavam, trabalhava também para o FBI e a National Security Agency. Dedou o “amigo”. Forneceu provas contra Manning.

Manning foi preso (ainda era um soldado do sexo masculino), acusado, julgado e condenado, em 21 de agosto de 2013, a 35 anos de prisão, por espionagem e traição.

Já na prisão, resolveu se submeter à cirurgia de troca de sexo. Transformou-se em Chelsea Manning. Tentou duas vezes o suicídio. Fez greve de fome. A Anistia Internacional considerou as condições do cárcere a que estava submetida como “desumanas”.

Agora, no apagar das luzes de seu mandato, o presidente Obama resolveu comutar sua pena, na prática, indultá-la. Chelsea vai sair livre para sua nova vida.

Essa medida veio no bojo de 208 indultos assinados numa sentada pelo presidente. Obama foi o presidente dos Estados Unidos que mais usou, pelo que se sabe, o poder do indulto: 1.385 casos em seus oito anos de mandato.

Estaria fazendo uma compensação por não ter cumprido a promessa de campanha de fechar a prisão de Guantánamo, em Cuba?

Desta vez, dentre outros e outras, Obama libertou Oscar López Rivera, preso há 35 anos por sua militância em favor da independência de Porto Rico.

A libertação de Chelsea Manning causou indignação entre os “falcões” norte-americanos. Políticos republicanos, veteranos de guerra, militaristas consideraram o gesto “um insulto” aos “bravos” que deram suas vidas pelos “valores dos EUA”.

Já quem apoiava Manning considerou a medida justa, ainda que tardia, pela coragem do seu gesto revelando atrocidades das Forças Armadas dos Estados Unidos, além de ter entregue um calhamaço de documentos ao WikiLeaks que, segundo diferentes fontes, é avaliado de 150 mil informes até 700 mil.

Ainda há ressonâncias da medida a averiguar no futuro. Julian Assange, o diretor do Wikileaks que está asilado/confinado na Embaixada do Equador em Londres desde junho de 2012, fez saber por seus advogados, dias atrás, que encararia a extradição para os Estados Unidos caso Manning fosse libertada.

Os assessores de Obama garantem que isto não influenciou a sua decisão. Mas quem sabe? E agora cabe esperar o que Assange fará de fato.

Edward Snowden, asilado em Moscou, depois de revelar os esquemas de espionagem diplomática, militar, política, industrial e comercial da National Security Agency, de que foram vítimas Angela Merkel e nossa presidenta Dilma Rousseff, também saudou a libertação de Manning.

O governo russo anunciou que prorrogou seu asilo por mais dois anos. O que vai acontecer com ele, depois que Trump assumir?

Agora que Manning foi libertada, o que fará Trump? O que fará Putin? Pressionará o novo presidente para resolver o caso de Snowden?

Esperemos, primeiramente, que Manning seja feliz em sua nova vida, em liberdade. Ela fez por merecer. Denunciar as atrocidades de um poder do tamanho dos Estados Unidos, desde dentro, requer uma coragem que poucos têm.

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