André Falcão
Colunista
Corrupção 17/Oct/2011 às 16:42 COMENTÁRIOS

O moralismo de conveniências que engana o Brasil

moralismo moral ética corrupção cidadania

André Falcão*

Tenho uma clara dificuldade para lidar com a hipocrisia.

Uma vez ouvi que político é tudo igual: bastaria chegar ao poder,que se tornaria um corrupto. É… Bastaria alcançar o poder para roubar igual aos outros. Foi o que ouvi. Claro, mas claro que não podia concordar com essa, digamos, tese.

Tentei argumentar: ninguém é igual; políticos bem intencionados e éticos há, e por aí fui. Irredutível: que nada! Quando chega ao poder fica tudo igual. Antes, é tudo honesto. Chegou lá, rouba igual àquele que criticava. Aí perguntei, já meio irritado: se você afirma que qualquer um que chega ao poder “vira” ladrão, então você “viraria” ladrão também? Seria um ladrão em potencial? Porque você não é melhor do que ninguém. Nem eu. Então, se todos roubariam, você também roubaria? É isto? Ele contra-atacou, surpreso: está dizendo que sou ladrão? Respondi: não, foi você quem disse. E como você não é melhor do que ninguém… Porque eu não seria ladrão. E como não seria, e não sou melhor do que ninguém, até por isto não posso crer que todos são iguais, que todos são ladrões, que todos roubariam. Silêncio… O pessoal do deixa-disso chegou…

Leia aqui todos os textos de André Falcão

É a tal da moral seletiva. Nesse caso, você se exclui. Mas há outras situações, em que não é você quem se exclui, mas o que você deseja que seja excluído. Pior quando isto envolve mais do que você. É difícil assistir a esse teatro (sim, moral seletiva é teatro, dos piores). Vide as campanhas de moralidade pública travestidas da mais fina e repugnante hipocrisia.

Desde pouco depois que o ex-presidente Lula assumiu a Presidência da República que ouço a cantilena de corrupção, no sentido de que esse mal teria mostrado as suas garras a partir da assunção do torneiro mecânico ao poder. A corrupção seria obra daquele, e(agora) desse governo. Incrível como não ouvi esse mesmo clamor e cobertura midiática irresignada, por exemplo(!), à época em que se votou favoravelmente à reeleição do ex-presidente FHC. Ou à época das privatizações, em que os beneficiários recebiam do BNDES as verbas que necessitavam para “pagar” o preço.

Deleite maior é quando a irresignação parte de algumas (nadararas) figuras que não têm o menor arcabouço moral pra estaratacando a ética ou a moral de ninguém. Os caras são uns pilantras de marca maior, seus partidos são mais sujos do que pau de galinheiro, e com a cara do mais duro mogno de que se vestem posam de paladinos da moral e da ética. Nem dá pra engolir, tampouco consigofazer coro.
E esse é o ponto. Não dá pra fazer coro.

*André Falcão é advogado e autor do Blog do André Falcão. Escreve semanalmente para Pragmatismo Político

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook

Recomendados para você

Comentários

  1. dbacellar Postado em 21/Oct/2011 às 12:25

    Concordo com a tese da campanha contra a pirataria do Instituto ETCO: as pessoas que dizem que "o país não tem jeito, ética é uma daquelas coisas que não vingam por aqui", são as mesmas que compram produtos piratas ou sem pedir nota fiscal.

    Quem diz que todo político é ladrão, certamente também roubaria se chegasse lá.

    É claro que a questão não é essa, mas sim justificar regimes de exceção, que obliterem a política, em nome da "moral" e dos "bons costumes". Acho que dizer que todo político é ladrão deve ser um "bom costume".

    • Sam de Mattos, Jr Postado em 27/Jul/2015 às 14:00

      Fico com a logica da Marina: "O problema da corrupção e inerente as partes ergódigas da “cadeia inexpiável DNaica”, que junto ao “des-aproximamento” divino e a seca da terra criam-se um Clima de Casa Grande, rebaixando-se, então, as senzalas espirituais que transcendem a filosofia materialistas de alguns fundadores do PT, bem como uma oligarquia Tucana, alavancada pelo ódio, afetando então, de modo efêmero e leve, a feminilidade essencial da Presidenta, a qual julgo sofrer de resquícios da Ditatura, influencias de pajelanças, pembas e afins, que julgo ser uma descentralização do espirito-racional numa esfera etérea de misticismos, brumas, canto de pássaros e sombra que seringais, pois, a minha terra tem palmeiras onde trinam os sabias, dai concluo (para trovar) que seno a = cosseno b; de cosseno b = seno a, e essa seria a opinião que faço questão de impor no condicional." Tenham um bom dia.

  2. ABOUT Postado em 11/Nov/2011 às 18:40

    Testemunhei uma mesma pessoa em duas ocasiões. Escreveu no facebook: "Tomara que a PM desça porrada nesses merdas da USP! Bando de vagabundo!" Lembro-me perfeitamente de ter ouvido da mesma pessoa, três dias antes, que ela teria pago 150 reais em uma blitz para se livrar do bafômetro.