Redação Pragmatismo
Ditadura Militar 28/Nov/2010 às 15:32 COMENTÁRIOS

Torturador de Dilma hoje goza uma vida mansa no Guarujá

Militar aposentado, que também foi acusado de torturar Diógenes Câmara Arruda, destacado dirigente do Partido Comunista do Brasil, e Frei Tito, entre muitos outros, falou ao iG. Ele está entre alvos do MPF por participação na morte de 6 pessoas e na tortura a outras 20, mas por enquanto vive impune e numa boa.

Acusado pelo Ministério Público Federal de participar do assassinato de seis presos políticos e torturar 20 pessoas, entre elas a presidente eleita, Dilma Rousseff, o tenente-coronel reformado do Exército Maurício Lopes Lima defende a tortura e descreve a violência nos porões da ditadura como algo “corriqueiro”. Na mesma semana em que o presidente Lula declarou que o torturador de sua sucessora hoje deve estar se torturando, a reportagem do iG encontrou o militar levando uma vida mansa na praia das Astúrias, no Guarujá (SP).

Hoje aposentado, ele fala sem aparentar remorsos sobre os acontecimentos relatados em 39 documentos que serviram de base para a ação civil pública ajuizada na 4ª Vara Cível contra ele. Questionado sobre o uso da tortura nos interrogatórios, comentou: “Era a coisa mais corriqueira que tinha”. Embora negue ter torturado Dilma, ele admite que teve contato com a presidenta eleita. Diz que na época não podia sequer imaginar que a veria na Presidência. “Se soubesse naquela época que ela seria presidenta teria pedido: ‘Anota meu nome aí. Eu sou bonzinho’”, afirma.

A ação aberta contra Lima e os demais acusados – dois ex-militares e um ex-policial civil – se refere ao período entre 1969 e 1970, quando Lima e outros três acusados integraram a equipe da Operação Bandeirante e do DOI-Codi, ambos protagonistas da repressão política durante a ditadura militar (1964-1985). Entre os documentos, está um depoimento de Dilma à Justiça Militar, em 1970, no qual ela pede a impugnação de Lima como testemunha de acusação, alegando que o então capitão do Exército era torturador e, portanto, não poderia testemunhar.

Pelos nomes conhece apenas a testemunha Maurício Lopes Lima, sendo que não pode ser considerada a testemunha como tal, visto que ele foi um dos torturadores da Operação Bandeirante”, diz o depoimento de Dilma. Na época com 22 anos, a hoje presidenta eleita foi presa por integrar a organização de esquerda VAR-Palmares. No mesmo depoimento Dilma acusa dois homens da equipe de Lima de ameaçá-la de novas torturas quando ela já havia sido transferida para o presídio Tiradentes. Ela teria questionado se eles tinham autorização judicial para estarem ali e recebido a seguinte resposta: “Você vai ver o que é juiz lá na Operação Bandeirante”.

Outros depoimentos deixam mais evidente a ação do militar, como o do frade dominicano Tito de Alencar Lima, o Frei Tito, que descreve em detalhes como foi colocado no pau-de-arara e torturado por uma equipe de seis homens liderados por Lima. “O capitão Maurício veio buscar-me em companhia de dois policiais e disse-me: ‘Você agora vai conhecer a sucursal do inferno’”, diz um trecho do depoimento, no qual ele diz ter recebido choques elétricos e “telefones” (tapas na orelha), entre outras agressões.

O então capitão do Exército é acusado também de ter participado da morte de Vírgilio Gomes da Silva, o “Jonas” da ALN, outra organização de esquerda que defendia a luta armada. Líder do sequestro do embaixador dos EUA Charles Elbrick, Virgílio foi assassinado no DOI-Codi, conforme admitiu oficialmente o Exército em 2009. Lima nega todas as acusações. Leia abaixo trechos da entrevista concedida por Lima ao iG:

Como era chegar em casa e pensar que uma moça como a Dilma, de vinte e poucos anos, havia sido torturada?

Lima – Nunca comentei isso com ninguém, mas desenvolvi um processo interessante. Eu não voltava mais para casa, pois achava que podia morrer a qualquer momento. Me isolei dos amigos e das pessoas que gostava. O quanto mais pudesse ficar longe melhor. Era uma fuga.

O senhor fugia do que?

De uma realidade. Eu sabia que ia morrer. Minha mulher estudava história na USP. Ela soube por terceiros que eu estava no DOI-Codi. As colegas dela todas presas.

Então não era a tortura que o incomodava?

É como um curso na selva. No primeiro dia você vê cobras em todo canto. No terceiro dia você toma cuidado. Depois do décimo dia passa um cobra na sua frente e você chuta. É adaptação.

Se tornou uma coisa banal?

Sim.

E hoje em dia o que o senhor pensa daquilo?

Penso que só é torturado quem quer. Agi certo. Arrisquei minha vida. Não tive medo. Não tremi, não. E não torturei ninguém. Pertenci a uma organização triste, sim. O DOI-Codi, a Operação Bandeirante eram grupos tristes.

O senhor está pesquisando no projeto Brasil Nunca Mais para preparar sua defesa?

Sim. Primeiro porque não sei quem falou. Uns me citam, outros “ouvi dizer”.

O MPF cita sua participação em torturas contra 16 pessoas.

É. Outro que me deixa fulo da vida é o Diógenes Câmara Arruda (ex-dirigente do PCdoB preso na mesma época que Dilma). Ele faz a minha ligação como torturador dele e o CCC (Comando de Caça aos Comunistas, grupo de extrema direita que atuou nas décadas de 60 e 70). Eu tinha uma bronca desgraçada do CCC. Me referia a eles como “aqueles moleques chutadores de porta de garagem”. É o que eles eram. Nunca tive nada com o CCC.

O senhor também é acusado de participar da morte do Virgílio Gomes da Silva (o “Jonas” da ALN, morto no DOI-Codi em 29 de setembro de 1969).

Me acusam de ter matado o Virgílio e de ter torturado o filhinho dele (então com quatro meses de idade). Eu não estava lá e demonstro para quem quiser ver (se levanta e pega um livro do Exército com os registros de todas suas mudanças e transferência ao longo da carreira). Isso são minhas folhas de alterações militares. Pode olhar aí. Fui transferido para a Operação Bandeirante no dia 3 de outubro. O Virgílio foi morto no dia 29 de setembro.

Não havia entre os militares a questão moral de que a tortura desrespeita os direitos humanos?

A tortura diz respeito a direitos humanos e o terrorismo também.

Um erro justifica o outro?

Estão ligados. Tortura no Brasil era a coisa mais corriqueira que tinha. Toda delegacia tinha seu pau-de-arara. Dizer que não houve tortura é mentira, mas dizer que todo delegado torturava também é mentira. Dependia da índole. As acusações não podem ser jogadas ao léu. Têm que ser específicas. Eu sei quem torturava e não era só no DOI-Codi, era no Dops também. Mas eu saber não quer dizer que eu possa impedir e nem que eu torturasse também. A tortura é válida para trocar tempo por ação.

Quem torturava?

O maior de todos eles já morreu e não dá para falar dos mortos.

Alguma vez o senhor contestou a prática de tortura no DOI-Codi?

Não porque existia um responsável maior, o comandante do DOI-Codi. Eu fiz a minha parte. Se eu fosse mandado torturar, não torturaria. Outros não. O Fleury (delegado Sérgio Paranhos Fleury), por exemplo, até dava um sorriso.

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Comentários

  1. Daunzinho Postado em 28/Nov/2010 às 20:29

    Bem legal, é estranho saber como ele consegue pensar assim...

  2. yrapiranga Postado em 29/Jun/2011 às 19:43

    com a contradição entre as duas últimas respostas, me remetem a interpretação, para que eu possa aproveitar a leitura.

  3. Professor Eduardo Lima Postado em 18/Sep/2011 às 01:57

    Infelizmente parece que nós blogueiros nos preocupamos mais com isso que a própria Dilma. Desde que chegou ao cargo não se vê de forma clara interesse da presidente em levar esse assunto adiante. Não adianta apenas dizer que é culpa do Congresso. Todo governo vem com essa tal de governabilidade como desculpa para não punir os crimes do passado.

  4. Valdir dos Santos Postado em 21/Dec/2011 às 22:20

    É fácil saber como ele pensa assim. Era na época em que todas as policias torturavam em todas as delegacias e daí porque não torturar para salvar o país do comunismo com a aprovação de toda a sociedade e das comunidades internacionais. A aprovação era agraciada com oportunidades de bons negócios. Possibilidade de emprego e/ou promoção. Segurança. Daí, porque não torturar? Na minha opinião, Condeno primeiro o EE.UU, pelo que sofremos, segundo, todo o povo brasileiro que apoiou esta aberração, condeno estes estúpidos que fizeram o serviço sujo por um salário e agora o lixo do DEM, partido dos que querem ver o país colonizado e os senadores que apóiam o sigilo eterno. A identificação dos nomes dos que torturam, das parcelas da sociedade que incentivaram a barbárie em busca de segurança e das autoridades públicas, civis, militares e parlamentares das quais partiram as ordens, são imperiosas. Contudo, punir, não é possível. Como prender e punir 99% dos brasileiros? Temos que conhecer a verdade para conhecer o nome dos que lutaram a favor do retorno do estado de direito, para que sejam exaltados como mártires e sirvam de exemplo a estes pobres infelizes que envergonharam a nossa historia com este torpe evento. Nada de sigilo, eu quero conhecer a verdade, quero honrar os que caíram diante dos algozes para todo o sempre. Porque outras lutas virão e seus nomes exaltados os inspirarão na defesa da LIBERDADE.

  5. Sidney Postado em 03/Jan/2012 às 10:53

    A maior "TORTURA" para esses senhores, seria a divulgação em Rede Nacional dos Nomes e o que fas atualmente, seus filhos e netos iriam adorar.

  6. luiza valio Postado em 09/Feb/2012 às 15:21

    CADA TEMPO TEM SUA HISTÓRIA. NÃO CULPO NINGUÉM.

  7. Azuir Ferreira Tavares Filho Postado em 23/Feb/2012 às 12:29

    Azuir Disse: Dilma é uma Presidenta Guerreira extraordinária, digna de Tiradentes e Anita Garibaldi, tem todas lutas pela frente, o tempo todo prioriza levar o Brasil em frente, com Distribuição de Renda e elevação da Formação. Está garantindo um Brasil Melhor para todos.

  8. Sebastian Postado em 10/Mar/2012 às 19:04

    Era uma Guerra. Guerra tem de tudo.Eles, os guerrilheiros mataram,esfolaram,assaltaram,assasinaram,torturaram e assim se fez a guerra.O lado contrário a mesma coisa,precisava se defender dos ataques,desbaratar os guerrilheiros, controlar a situação,manter o Estado conquistado.Ganha guerra quem planeja melhor,quem tem mais armas para usar, etc.Portanto,vamos acabar com esse revanchismo barato e demagógico de um partido político que graças ao povo despolitizado brasileiro colocou no poder e pretende se perpetuar com revés inconsequentes e descabidos .

  9. Claudenir Monteiro Postado em 21/Apr/2012 às 17:52

    Se podemos punir os toruradores hoje, temos que fazer. Pois se deixarmos isso pra tráz, é como fingisemos que o holocausto não existiu. Um regime polito se conquista com bom atos, e não com opressão. Na época em que tudo aconteceu eu era criança. Mas se fosse hoje pegaria em arma e lutaria pela liberdade de expressão e a democracia.

  10. PAULO MELO Postado em 01/Jun/2012 às 19:38

    É ENGRAÇADO UMA SOCIEDADE QUE CHAMA DE MÁRTIR O Sr Diógenes Câmara Arruda. NINGUÉM PERGUNTOU QUANTOS ELE MATOU OU JÁ ESQUECERAM QUE ELE MATOU A SANGUE FRIO UMA GAROTA DO PARTIDO QUE TINHA 16 ANOS. HOJE TODOS SÃO INOCENTES. NUMA GUERRA HÁ MORTES DOS DOIS LADOS. OS MILITARES AGIRAM APÓS A "PASSEATA DA FAMÍLIA PELA PAZ" QUANDO O SALDO DE MORTOS MLITARES JÁ PASSAVAM DE CEM, INCLUSIVE CIVIS, NO AEROPORTO DOS GUARARAPES. O BRASIL SERIA HOJE UMA CUBA OU UMA RRÚSSIA COM CEM MILHÕES DE MORTOS, ISSO É DITADURA. NO ENTRE MORTOS E DESAPARECIDOS NÃO CHEGARAM A 300.

  11. Altair Karl Marx Postado em 04/Jul/2012 às 13:52

    São esses tipos de escórias que pertenceram a nosso exército nacional, assassinos, torturadores e estrupadores, como eles próprios dizem: são os salvadores da pátria, é como na Revolução cubana, todos esses assassinos deveriam ir para o paredão como fez o nosso valoroso e herói Che Guevara fuzilamento mesmo..

  12. Alexandre Postado em 21/Dec/2012 às 15:47

    A verdade é que no mundo todo o execito é composto de pessoas que não pensam, afinal de tivessem senso crítico eles não fariam metade do que fazem, como matar crianças e cívis, o corporativismo é parte importante para impedir disputas internas, é por isso que sempre ouvimos dessa gente que não se pode falar dos mortos (companheiros de quartel), e que cumpriu seu dever, sem considerar questões morais e de justiça, sofrem uma verdadeira lobotomia.