Redação Pragmatismo
Lula 08/Feb/2017 às 13:58
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Como a Casa Grande gostaria que Lula se comportasse no velório da esposa

O que Lula pode ou não fazer no velório da própria esposa, de acordo com os modos e costumes da Casa Grande brasileira

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Lula emocionado no velório de sua esposa Marisa Letícia (reprodução)

por Wilson Gomes, via Facebook

Primeiro apareceram os que acusaram Lula de pecado futuro: vai usar a morte da esposa para se fazer de vítima.

Acusar alguém de pecados ainda não cometidos é uma tentativa de fechar ao acusado uma alternativa, de desqualificá-la de antemão: “vai doer, mas chorar você não pode; tente, então, ficar quietinho”.

Fazer-se de vítima” é uma dessas expressões curiosas da alma brasileira, vez que quem acusa o interlocutor de se fazer de vítima geralmente está fazendo o papel de verdugo.

O carrasco está barbarizando, mas, por favor, tenha compostura, “não se faça de vítima”.

Depois apareceram as condenações pelo “uso político do velório”.

Como pode um sindicalista e político enterrar a própria esposa com um coração de político e sindicalista?

Tinha que ter havido discrição, silêncio.

Como pode um sujeito enterrar a sua companheira de vida, cuja morte foi, no mínimo, acelerada pelo desgosto e por acusações que, segundo ele, são injustas, sem berrar, espernear, acusar?

Não, o certo era ficar quietinho ou, se fosse mesmo para fazer drama, que se cobrisse de cinzas, batesse no peito, em lágrimas, e gritasse “mea culpa, mea maxima culpa!”.

Fosse apenas questão de ser sommelier do luto alheio, até me pareceria razoável.

Afinal, o Facebook é principalmente uma comunidade de tias velhas desaprovando as saias curtas e os comportamentos assanhados dos outros. Mas, é mais que isso.

Pode haver um aluvião público de insultos, augúrios de morte e dor, e difamação à sua esposa, durante duas semanas, mas Lula não pode mostrar-se ultrajado ou ofendido, não pode desabafar do jeito que pode e sabe, não pode espernear.

Em vez do “j’accuse”, o certo seria a aceitação bovina do garrote, da dor, da perda.

Em vez do sindicalista e político, em um ambiente privado do sindicato, velando entre amigos a mãe dos seus filhos, havia de ser um moço composto e calado.

Todo mundo tem direito de velar os seus mortos como pode e sabe, exceto Lula.
 Uma parte da sociedade brasileira nunca se cansa de mostrar a Lula o seu lugar. E de reclamar, histérica, quando ele, impertinente, não faz o que ela quer.

Tem sido assim.

Lula já foi insultado de analfabeto, nordestino, cachaceiro, ignorante e aleijado, muito antes de ser chamado de corrupto e criminoso.

A cada doutorado honoris causa de Lula choviam ofensas e impropérios porque ele não tinha todos os dedos, porque era uma apedeuta, porque era um peão.

Qualquer motivo para odiá-lo sempre foi bom o bastante para uma parte da sociedade.

Agora, estamos autorizados a odiá-lo por mais uma razão: o modo como acompanhou a agonia e como velou sua companheira.

Que os cultivados me perdoem a analogia, mas isso me lembra a acusação feita em O Estrangeiro, de Albert Camus, ao sujeito que não conseguiu chorar e sofrer, como aos demais parecia conveniente e apropriado, no funeral da própria mãe: “J’accuse cet homme d’avoir enterré sa mère avec un cœur de criminel”.

Eu acuso este homem de ter enterrado a sua mãe com um coração de criminoso”.

No surrealismo da narrativa política brasileira, a história se repete: Lula deve ser desprezado porque enterrou a esposa com um coração de político e sindicalista e isso não está direito. Voilà.

Lula nunca vai aprender o seu lugar. Tsc.

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