Redação Pragmatismo
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opinião 06/May/2016 às 11:31
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O que é o ódio e por que odiar é mais fácil que pensar?

"Sempre teremos 999 pessoas odiando para cada pessoa que pensa. E isso, às vezes, me dá ódio..."

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Leandro Karnal, historiador e professor brasileiro (reprodução)

“O ódio é uma interrupção do pensamento e uma irracionalidade paralisadora. Como pensar é árduo, odiar é fácil. Se a religião é o ópio do povo para Marx, o ódio é ópio da mente. Ele intoxica e impede todo e qualquer incômodo.

O ódio tem um traço do nosso narciso infantil. O mundo deve concordar conosco. Quando não concorda, está errado. Somos catequistas porque somos infantis. A democracia é boa sempre que consagra meu candidato e a minha visão do mundo. A democracia é ruim, deformada ou manipulada quando diz o contrário.

Todo instituto de pesquisa é comprado quando revela algo diferente do meu desejo. Não se trata de pensar a realidade, mas adaptá-la ao meu eu. As crianças contemporâneas (especialmente as que têm mais 50 anos como eu) batem o pé e fazem beicinho, mandam mensagem no WhatsApp e argumentam. Mas, como toda criança, não ouvimos ninguém. Ou melhor, ouvimos, desde que o outro concorde comigo; então ele é sábio e equilibrado. Selecionamos os fatos que desejamos não pelo nosso espírito crítico, mas por uma decisão prévia e apriorísticas que tomamos internamente. Grosso modo, isso foi explicado em Uma Teoria da Dissonância Cognitiva, de Leon Festifnger.

Seria bom perceber que ódio fala muito mim e pouco do objeto que odeio. Mas o principal tema do ódio é meu medo da semelhança. Talvez por isso os ódios intestinos sejam mais virulentos do que os externos. Odeio não porque sinta a total diferença do objeto do meu desprezo, mas porque temo ser idêntico. Posso perdoar muita coisa, menos o espelho.

Mas o ódio é feio, um quasímodo moral. A ira continua sendo um pecado capital. Assim, ele deve vir disfarçado da defesa da ética, do amor ao Brasil, da análise econômica moderna. Esses são os polos que banham de luz a fealdade. E, como queria o rebelde que odiava o Estado), sempre teremos 999 professores de virtude para cada pessoa virtuosa. Em oposição, encerro acrescentando: sempre teremos 999 pessoas odiando para cada pessoa que pensa. Isso às vezes me dá ódio…”.

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“O ódio nosso de cada dia”, Leandro Karnal

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Comentários

  1. sandro Postado em 08/May/2016 às 13:50

    Leandro Karnal,você é brilhante.

  2. Pedro Postado em 08/May/2016 às 15:59

    Kurt Vonnegut tem uma passage em um de seus livros, na qual diz algo no sentido de que a função de Deus é uma criatura que odeia conosco. Não é exatamente essa passagem, mas ele costumava tocar no fato de que as pessoas buscavam em Deus, e benção para o ódio. "“There are plenty of good reasons for fighting,' I said, 'but no good reason ever to hate without reservation, to imagine that God Almighty Himself hates with you, too. Where's evil? It's that large part of every man that wants to hate without limit, that wants to hate with God on its side. It's that part of every man that finds all kinds of ugliness so attractive.”

  3. Joao de Carvalho Postado em 15/May/2016 às 01:57

    Uau! O Karnal chegou ao estágio em que a psicologia social estava em 1960! Parabéns, continue estudando até chegar ao século 21.